01 nov 2019

Dicionário do Google associa professora à prostituta usando ‘brasileirismo caduco’

por Melissa Cruz Cossetti

6 min. de leitura
Dicionário do Google associa professora à prostituta usando ‘brasileirismo caduco’

Ainda que saibamos desde muito cedo a importância de uma professora na nossa educação, a busca por “professora + significado” no Google, facilmente realizada por estrangeiros e pessoas no aprendizado da língua portuguesa, por alguns dias— não se pôde especificar por quanto tempo —, exibiu um resultado de pesquisa no mínimo bizarro. Além do contexto principal “mulher que ensina ou que exerce o professorado”, o segundo verbete, em destaque no topo do site, considerado um “brasileirismo” (algo específico do português falado no Brasil), a profissão professora era definida por “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”.

Desde o último dia 20 de outubro, capturas de tela com a definição da profissão para o sexo feminino no dicionário embutido nos resultados de buscas tomaram a Web e as redes sociais — incrédulos, os usuários da ferramenta reproduziram a pesquisa, elevando a 100 o nível de popularidade do termo no Google Trends. O mesmo não acontecia com os termos “professor + significado”, no masculino. Neste caso, o primeiro resultado no Google diz que é “aquele que professa uma crença”; e o segundo “aquele que ensina”.

 

Brasileirismo sem feedback

De acordo com o El País, foi a Oxford University Press, que trabalha com editores dos tradicionais dicionários do Brasil, quem forneceu a definição ao Google, baseada no conceito de “brasileirismo”. A definição por um dicionário ao alcance de todos na internet levantou o debate sobre a sexualização das mulheres cujo ofício é lecionar. Não de forma sexual, mas formando cidadãos todos os dias.

A expressão com conotação sexual dada pela plataforma é utilizada informalmente e mais comum no Nordeste. Daí, explica-se parte do espanto no resto do Brasil, um país continental. Na região, as comparações sexuais estão presentes em piadas e conversas, ainda que não de forma tão comum. O que não deveria ser reforçado por uma plataforma global como o Google, sugerem muitos usuários. 

A assessoria do Google informou que reclamações sobre os seus resultados de busca podem ser feita clicando no botão “Feedback“, que aparece logo abaixo do resultado da pesquisa. E foi o que muitas pessoas, nas redes sociais, estimularam as outras a fazer.

Maria Aparecida de Oliveira, professora do ensino médio na rede estadual da Bahia, disse ao El País que o termo é sim usado no vocabulário popular da região. Mas observa que a correlação por meio do que poderia ser encarado, também, como uma gíria, mostra como a imagem da professora está ligada à erotização e como reforçar isso pode ser ruim para a classe a longo prazo. “… [isso] ajuda a explicar por que muitas de nós somos submetidas a diversas formas de assédio em sala de aula”, lamentou ao jornal.

Em um momento de desvalorização dos professores, a associação inapropriada à prostituição pode induzir a sociedade a comprar discursos que não são justos. Não é o caso de dizer com o que uma pessoa, no caso uma professora, deveria se ofender ou não. Contudo, é, no mínimo, inadequado, definir o termo com se de uso amplo no nosso idioma e o segundo mais importante no Google.

O que diz o Google?

Em um primeiro momento, o Google se limitou a dizer que trabalha com dados de parceiros, incluindo dicionários, para oferecer resultados de busca rápidos. Os resultados, também, incluem usos coloquiais da língua (incluindo contexto sexual e/ou ofensivo). Entretanto, julgou-se não responsável pelo controle editorial do que exibe na pesquisa. Limitou-se a fazer um alerta aos autores.
christian-wiediger-Google-unsplash

A nota completa do Google, enviada à imprensa no Brasil, no alto da polêmica, afirma apenas o seguinte: “Quando as pessoas pesquisam por definições de palavras na Busca, frequentemente, elas desejam informações de maneira rápida. Por isso, trabalhamos para licenciar conteúdos de dicionários parceiros, que são exibidos diretamente na Busca. Os resultados incluem usos coloquiais que podem causar surpresa, mas não temos controle editorial sobre as definições fornecidas por nossos parceiros que são os especialistas em linguagem. Reconhecemos a preocupação neste caso e vamos transmiti-la aos responsáveis pelo conteúdo.”

O verbete caducou

A definição com conotação sexual não é exclusiva dos produtos da Oxford University Press. Igual significado aparece também em dicionários online e impressos como o Aurélio, o Houaiss e o Aulete. O dicionário Michaelis não fez esse tipo de menção ao termo.

Alguns destacam que o uso do termo “professora” com esse sentido é pejorativo e usado em “algumas regiões do Brasil“, não em todo o país e que está longe de ser de uso comum. Assim como um significado real da palavra, a ponto de ser dos mais importantes.

“Professora prostituta” está em desuso

Depois de levantada a polêmica na internet na busca por gênero, a Oxford University Press decidiu retirar o verbete do seu dicionário, ao menos, no que é fornecido ao Google de forma digital. O Google informou na quarta-feira (23) que a definição foi retirada do seu cartão de respostas rápidas pela equipe do Dicionário Oxford. O motivo é que o termo está em desuso, caducou, não cabe em 2019.

Em nota atualizada ao UOL, o Google reafirmou que não se sente responsabilizado pelo que é fornecido pelos seus parceiros, que são especialistas no tema. A empresa não detalhou como são recebidos os feedbacks e quem ou que é responsável por analisá-los.

“Não editamos nem removemos as definições fornecidas pelos nossos parceiros, que são os especialistas em idiomas. Em relação à palavra ‘professora’, a Oxford University Press, nossa parceira que trabalha com tradicionais editores de dicionário no Brasil, determinou que a segunda definição está em desuso e não é atual o bastante para ser incluída. A Oxford University Press removeu a definição e essa mudança está refletida nos resultados de dicionário exibidos na Busca para ‘professora'”, completou a empresa.

A equipe do dicionário Oxford também enviou um esclarecimento ao Tilt, do UOL. 

“Essa definição é fornecida ao Google pela Oxford University Press. Depois de investigar o segundo significado da palavra ‘professora’, a equipe de Dicionários da Oxford University Press estabeleceu que esta é uma gíria regional em desuso e, neste caso específico, tomou a decisão de removê-la de seu dicionário para resultados de busca”, reconheceu em nota. Ainda de acordo com a Oxford, a definição veio de uma fonte confiável e foi classificada como uma “gíria regional” (mas, não estava sinalizada como). Após revisão, não foi considerada popular ou relevante o bastante para que seja mostrada de maneira tão proeminente como no Google.

Atualmente, as buscas do Google para “professora + significado” dizem apenas o óbvio “mulher que ensina ou exerce o professorado”. Nada além do que o necessário e o justo. Classe alguma gostaria de ter seu ofício deturpado de tal forma na internet.

Não é a primeira vez que o Google muda seus resultados de buscas após protestos dos usuários. Recentemente, contamos no Ada.vc a história do termo “lésbica” que deixou de ser associado a páginas de pornografia nas buscas do Google. Em julho deste, não antes de muito protesto, a empresa consertou seu algoritmo com a intenção de fornecer resultados precisos e de qualidade sobre o tema.