10 jun 2019

Guia de profissões: programação, o começo do letramento digital

por Camila Luz

5 min. de leitura
Guia de profissões: programação, o começo do letramento digital

(Ilustração: Glauco Lima)

Com este post iniciamos a publicação semanal de uma série chamada Guia de Profissões em Tecnologia. O objetivo deste conteúdo é orientar mulheres que tenham vontade (ou curiosidade) de trabalhar com tecnologia, mas que não sabem por onde começar. Pois bem, comecem por aqui 🙂 

 

Programar pode parecer um bicho de sete cabeças. Mas não é. Mesmo crianças pequenas estão aptas a aprender os processos de escrita, teste e manutenção da linguagem.

Silvana Scavone, Professora de Robótica e Informática no Colégio Magno, ensina crianças a partir dos cinco anos a programar. Para ela, a programação é uma linguagem como todas as outras e, no futuro, aprendê-la será tão importante como dominar seu idioma natal.

“Consideramos a programação o começo do letramento digital. Antigamente, programar era mais complicado, pois existiam poucas linguagens, poucos tipos de aplicativos e tutoriais de programação”, diz. “Hoje, quando você entende a lógica por trás e conhece conceitos básicos, como o que é um algoritmo, é possível aprender a programar nas linguagens mais usadas, como Java, Python e C+”, completa.

Front-end e back-end

Hoje, existem três principais perfis de programadoras: front-end, back-end e full stack. O primeiro desenvolve a interface entre o sistema e o usuário. A partir do projeto gráfico, criado pelo designer, cria as telas e os seus recursos, como campos de pesquisa, botões e telas com mensagens de texto indicando ações concluídas — sempre pensando na interação com o usuário. Sabe as telas do caixa eletrônico mandando apertar este botão ou aquele? Isso é um exemplo de programação front-end.  As profissionais desse perfil geralmente dominam linguagens como Javascript e HTML.

A desenvolvedora back-end é a responsável por criar as funcionalidades que um sistema apresenta, como a interação com os bancos de dados e a execução dos programas do sistema operacional. Esse profissional deve conhecer linguagens como Java, PHP ou Phyton. No nosso exemplo do caixa eletrônico, é o front-end que recebe a informação de quanto você quer sacar e manda a máquina contar as notas e te dar.

Simplificando, front-end é a interface gráfica: aquilo que você vê e com o que interage. Já o back-end são os processos por trás dessa interface, permitindo que funcione. Quem atua em ambas as áreas é chamada de full stack.

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Achou complicado? Segundo Silvana, mesmo que a programação não seja tão complexa quanto parece, programadores ainda são profissionais escassos no mercado – do sexo feminino, mais ainda. Por outro lado,  praticamente todas as áreas precisam de programação: tecnologia da informação (T.I.), banco de dados, meios de comunicação, escolas e assim por diante. “O mundo está se digitalizando e são poucas as pessoas capazes de transformar o que é concreto em digital”, afirma.

Na cidade de São Paulo, onde os salários costumam ser mais elevados em relação ao resto do Brasil, o salário médio de um programador é de R$5.000 segundo o site salarios.com. O portal também oferece as médias salariais de outras cidades. Em Blumenau (SC), gira em torno de R$3.300, enquanto em Cuiabá (MT) a média é de R$3.600.

A programação na medicina

A medicina é outra área que depende da programação para evoluir. Lariza Oliveira, por exemplo, desenvolve projetos de análise de dados e aprendizado de máquina para tuberculose, condições de saúde mental e gravidez na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Os algoritmos desenvolvidos e utilizados por Lariza extraem padrões dos dados colhidos em uma determinada pesquisa, que ao ser analisados, podem mostrar tendências de saúde pública.

Lariza fez graduação em informática biomédica na USP, em Ribeirão Preto, e depois fez mestrado e doutorado na mesma área.  “[Informática biomédica] é um curso de computação voltado para bioinformática, imagens médicas e gestão em saúde. Ele é oferecido aqui em Ribeirão Preto, em São Paulo e em algumas universidades do Paraná e Rio Grande do Sul” explica.

A pesquisadora optou pelo curso porque ela se interessava tanto por programação quanto pela área de biológicas. “Acabei decidindo conciliar as duas coisas e fazer um curso de computação aplicado. Hoje em dia, para fazer o meio de campo entre a parte médica e a ciência da computação, o cientista puro tem dificuldade”, defende. “Fazendo as duas coisas, fica mais fácil entender as duas linguagens, pois os profissionais da área médica têm uma linguagem um pouco diferente da nossa”, acrescenta.

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Mas para trabalhar com programação, nem sempre é preciso fazer faculdade. Silvana explica que há cursos técnicos e cursos online para aprender linguagens específicas, como Java. A USP, por exemplo, disponibiliza cursos online e gratuitos. Outra opção é procurar as Fab Labs, pequenas oficinas espalhadas pelo Brasil que auxiliam quem deseja a criar seus próprios dispositivos eletrônicos.

Menos estereótipos

Para Lariza, o preconceito na área de programação ainda existe, e começa mesmo antes de entrar na faculdade. “Durante o colegial e cursinho, sempre gostei muito de matemática, mas os meninos sempre achavam que era melhores. Mas nós, mulheres, conseguíamos nos equiparar ou até superá-los”, afirma.

Recentemente, a pesquisadora leu um artigo que a deixou mais otimista. “Li que a maior parte dos artigos científicos publicados no Brasil são escritos por mulheres”, diz Lariza, referindo-se à todas as áreas. Na computação, por outro lado, as publicações ainda são dominadas por homens. “Isso está mudando. Porém, existem casos nos quais a presença de um autor masculino ajuda o artigo a ser publicado. Além disso, há o preconceito dentro do ambiente de trabalho. Tem muito programador que não gosta de ouvir ordem de mulheres”, diz.

Entre os pequenos, a ideia de que “matemática é coisa de menino” ainda perdura. Felizmente, Silvana conta que, em suas aulas de programação e robótica, a proporção de meninos e meninas é bastante equilibrada. “Eles trabalham de forma independente e gostam. Desenvolvem jogos, aplicativos para celular. Quando tudo isso é trabalhado desde cedo, a diferença deixa de existir. Programar também é coisa de menina”, diz.