08 fev 2019

Como se perdem R$700 milhões em criptomoedas?

Dimítria Coutinho

por Dimítria Coutinho

4 min. de leitura
Como se perdem R$700 milhões em criptomoedas?

O sumiço de carteiras, a morte do CEO de uma exchange e mais de R$700 milhões desaparecidos. Esses são alguns elementos do enredo de uma história que está melhor que Netflix no mundo das criptomoedas.

Tudo começou em janeiro, quando a plataforma canadense de compra e venda de criptomoedas (ou exchange) QuadrigaCX afirmou que não conseguiria pagar a seus clientes mais de 250 milhões de dólares canadenses – cerca de R$700 milhões. O motivo anunciado foi a morte do CEO da empresa, Gerald Cotten, de 30 anos. Segundo a QuadrigaCX, Cotten era a única pessoa que tinha acesso às carteiras de criptomoedas.

Segundo Jennifer Robertson, viúva de Cotten e representante da empresa perante a justiça, o empresário faleceu durante um viagem para a Índia, onde iria inaugurar um orfanato. A morte teria sido repentina e causada por uma complicação da doença de Chron, que afeta o intestino. Para completar a história, tem gente achando que a morte do CEO pode ser forjada.

Por que ninguém mais consegue acessar essas criptomoedas?

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Para entender porque esse dinheiro todo talvez tenha morrido junto com Cotten, é preciso entender como funcionam as carteiras de criptomoedas. Assim como no mundo real, uma carteira de criptomoedas é onde o dinheiro fica guardado. Nesse caso, porém, o dinheiro guardado seria apenas uma metáfora, já que, na prática, as únicas coisas realmente armazenadas na carteira são duas senhas.

A primeira delas é uma senha pública. Essa chave é, na verdade, o endereço da carteira, ou o código que outras pessoas utilizam para enviar criptomoedas para essa carteira específica. É quase como se fosse o número da sua conta corrente do banco. A segunda senha, porém, é a senha privada. É ela que vai permitir que o dono da carteira faça transações e envie criptomoedas para outras carteiras. Seguindo a mesma comparação, a senha privada é como a sua senha do banco: sem ela, nada de transferências ou saques.

A dor e a delícia de ter uma cold wallet

Mas o mais importante disso tudo é que existem diversos tipos de carteiras de criptomoedas, com diversos níveis de segurança. Uma carteira pode existir apenas no seu celular ou no seu computador, por exemplo. Outra possibilidade são as carteiras offline, também conhecidas por cold wallets.

Cold wallets são usadas em dispositivos que não possuem acesso à internet. Assim, toda vez que o dono for fazer alguma transação, ele precisa conectar essa carteira à internet e, depois, desconectar. Um dos motivos para escolher uma carteira como essa é a segurança. Como ela não está online, ela é mais segura contra ataques hackers, que não são raros em carteiras de criptomoedas.

As carteiras na qual a QuadrigaCX armazenava as criptomoedas de todos os seus mais de 100 mil clientes eram cold wallets, e a única pessoa que tinha acesso a elas era Cotten. Mais ninguém da empresa sabia onde ela estava, impedindo o acesso à chave privada, o que bloqueia para sempre todo esse montante de dinheiro.

Investir em criptomoedas ainda parece arriscado

Essa história toda da QuadrigaCX tem levantado dois aspectos bastante importantes a respeito de investir em criptomoedas. O primeiro deles é a confiança nas exchanges. Por mais que o sistema blockchain seja praticamente incorruptível, as carteiras não são. Quando ouvimos falar de roubo de criptomoedas por hackers, isso geralmente acontece nas carteiras.

E as exchanges são grandes alvos desses hackers, já que a quantidade de criptomoedas armazenadas é grande, por guardar todo o dinheiro dos clientes. É verdade a perda de cold wallet é ainda mais raro, mas o caso levantou novamente essa questão a respeito da confiança em intermediários. É por isso que muita gente prefere investir em criptomoedas diretamente, sem ter uma exchange como intermediadora.

Outra questão que está sendo bastante levantada é o fato das criptomoedas ainda não serem regulamentadas na grande maioria dos países. Diferentemente das exchanges, se um caso desse acontecesse com um banco, por exemplo, os clientes prejudicados teriam mais facilidade em acionar a justiça local.

Esse dinheiro todo está realmente bloqueado? Ou ele desapareceu?

Se a história toda não estava inusitada o suficiente, uma pesquisa divulgada essa semana veio para colocar mais elementos no enredo. Segundo o Wall Street Journal, alguns especialistas analisaram as principais carteiras da QuadrigaCX. Através do tipo de transação realizadas através delas, é possível perceber que elas talvez não sejam cold wallets.

Essa pesquisa veio como cereja do bolo para algumas especulações que já estavam acontecendo. Muitas pessoas acreditam que a morte de Cotten nunca aconteceu, e que tudo não passou de uma manobra para sumir com o dinheiro. Alguns pontos que sustentam essa teoria são o fato de a chave pública das carteiras não terem sido divulgadas, além de não haver evidências concretas de que essas carteiras realmente existiam, e se realmente era cold wallets. Anteriormente, um usuário do Reddit analisou movimentações em possíveis carteiras da QuadrigaCX, mesmo após a morte de Cotten.

No entanto, nenhuma dessas afirmações e evidências é suficiente para provar que a história toda não passa de um grande mentira. E é por isso que tanto os clientes da exchange, quanto investidores de criptomoedas do mundo todo aguardam as investigações do governo canadense – este já foi acionado pela própria viúva de Cotten, que fez um pedido de proteção de crédito. Segundo o portal CoinDesk, ela teria, inclusive, apresentado um atestado de óbito de Cotten ao governo canadense, o que acabaria com as suspeitas de farsa.

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