13 dez 2018

Reprograma coloca mulheres no mercado de trabalho de tecnologia

Dimítria Coutinho

por Dimítria Coutinho

5 min. de leitura
Reprograma coloca mulheres no mercado de trabalho de tecnologia

Mais do que falar sobre a presença feminina no setor da tecnologia, o Reprograma luta por ela e faz acontecer. O projeto, que começou em 2015 e atua na cidade de São Paulo, já formou 116 programadoras em cinco turmas, e pretende ir ainda mais longe nos próximos anos. A maioria das mulheres que participaram dos cursos oferecidos pelo Reprograma conseguiu um emprego na área.

A ideia do projeto surgiu, primeiramente, na cabeça da peruana Mariel Milk. Na época, a economista trabalhava em um banco em São Paulo, e passou a acompanhar o crescimento de várias startups, incluindo a fintech de seu marido. Durante esse período, ela percebeu a dificuldade que era encontrar programadores no mercado brasileiro, principalmente mulheres.

“Aquilo me gerou um incômodo, eu não conseguia aceitar o fato de que mais da metade da população não estivesse representada no setor de TI”, lembra.

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Foi nesse momento que o lado empreendedor de Mariel falou mais alto: ela deixou o emprego para criar uma startup de impacto social, que viria a ser o Reprograma. Para fazer o primeiro curso piloto da nova startup, em 2016, Mariel contou com a ajuda de 20 voluntários. Entre eles, estavam a comunicadora Fernanda Faria e a designer gráfica Carla de Bona, que se tornaram sócias de Mariel e co-fundadoras do Reprograma. De lá para cá, as três uniram os talentos das áreas em que atuam e já formaram cinco turmas, além de uma sexta que está em andamento. Elas criaram também novos cursos para o portfólio do Reprograma.

As fundadoras do Reprograma. Da esquerda para a direita, Carla de Bona, Fernanda Faria e Mariel Milk. Imagem: Divulgação/Reprograma.

O curso do Reprograma

O principal curso do Reprograma acontece em período integral e tem duração de 18 semanas, no estilo bootcamp. O foco são mulheres cisgênero e trans que não estejam empregadas. Com duas turmas por ano, o curso é totalmente gratuito e acontece com o apoio de empresas como Facebook, Accenture e Creditas.

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“Nosso foco é exclusivamente em tecnologia: ensinamos linguagens de programação front-end (HTML, CSS e Javascript), bibliotecas e pré-processadores como JQuery, Bootstrap e React, além de introduzirmos temas diversos para que as alunas pensem um negócio do início ao fim e possam desenvolver projetos próprios. Oferecemos aulas de UX Design e ensinamos ferramentas como Business Model Canvas”, explica Mariel.

A fundadora conta que 95% das alunas participantes concluíram o curso. Outro número bastante interessante é o de contratadas depois do processo. Como o Reprograma oferece contato com diversas empresas parceiras do setor, boa parte das alunas já saem do curso com um novo emprego.

Na última turma, formada em junho de 2018, 83% das mulheres já estavam trabalhando como desenvolvedoras júnior 90 dias após formadas. “A consequência, além da oportunidade de trabalhar e crescer profissionalmente, é a geração de renda. As alunas foram de estar desempregadas, algumas por mais de um ano, a ter uma renda média de R$ 2.600”, se orgulha Mariel.

Ajudando os dois lados

Mas ela acredita, ainda, que o Reprograma tem um papel importante não apenas para a vida dessas mulheres, mas também para a indústria da tecnologia como um todo. Cada vez mais, as empresas vêm buscando times diversos, o que também gera soluções diversas e mais lucro. Ainda é difícil, porém, encontrar mulheres capacitadas para ocupar as vagas. Mariel acredita que o Reprograma também consegue atuar nessa área, ajudando a fechar o gap de gênero existente no setor.

“[Ter mulheres bem formadas], ao meu ver, também significa uma oportunidade econômica para empresas que estão à procura de desenvolvedores e de diversidade, algo que se traduz em um thinking diferente com relação à inovação e à procura de novas soluções para o negócio. Estamos resolvendo uma falha de mercado e atendendo as necessidades de empresas que procuram programadoras e um time mais diverso”, explica.

Reprograma na mudança de pensamento

Mariel conta que, além de transmitir conhecimentos de tecnologia, o Reprograma também tem o objetivo de mudar a forma com que as mulheres se vêem na tecnologia — daí o nome do projeto. “Nosso objetivo durante o programa é mudar o mindset das alunas, reprogramar a forma com que elas se percebem como contribuidoras do espaço de TI. Isso acontece também por meio de várias sessões de mentoria com mulheres líderes de empresas como IBM, ThoughtWorks e Nubank, que dividem com as alunas suas experiências como mulheres em tecnologia”.

Outra questão fundamental para as fundadoras do Reprograma é que as alunas formadas passem também a multiplicar o conhecimento que adquiriram para outras mulheres, seja dentro ou fora do projeto. E o resultado tem sido bastante positivo: o time de professoras e monitoras dos cursos atuais do Reprograma é composto, em sua maioria, por alunas de turmas anteriores. O time fixo do projeto tem, além das três fundadoras, mais cinco mulheres. Quatro delas são ex-alunas.

Adelle Araujo foi aluna da primeira turma e hoje dá aulas de UX. Imagem: Divulgação/Reprograma.

E o sonho do Reprograma é levar todo esse conhecimento para cada vez mais mulheres. Hoje, além do curso integral, o projeto já oferece um curso noturno com duração de 12 semanas. O objetivo é ensinar programação full-stack para mulheres em situação vulnerável. Outra novidade são os workshops online, que devem evoluir para um curso completamente online de oito semanas. O objetivo é permitir que cada vez mais mulheres de diversas partes do Brasil possam ter acesso a esse conteúdo.