04 out 2018

Ludmilla venceu um câncer e transformou a experiência em app

Dimítria Coutinho

por Dimítria Coutinho

7 min. de leitura
Ludmilla venceu um câncer e transformou a experiência em app

Gerar impacto por meio de suas ações passou a ser prioridade na vida da santista Ludmilla Rossi. Desde que criou o aplicativo Alpha Beat Cancer, ela percebeu que dá para criar produtos de impacto social. O app é um jogo infantil que busca desmistificar o câncer, e a ideia surgiu depois que Ludmilla enfrentou a doença.

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Mas a relação de Ludmilla com a tecnologia vem de muito antes do diagnóstico. Mais especificamente, em 28 de junho de 1996, data que ela nunca esqueceu: foi nesse dia que seu pai chegou com um modem em casa. Desde os seis anos, a menina já fuçava em tudo quanto é equipamento que tinha em casa, mesmo antes da Internet. “Na época, nem colorido era, era aquele computador de tela preta e verde, mas foi o meu primeiro contato”, lembra. Quando a Internet chegou, a curiosidade e aprendizado foram potencializados.

O começo da história de Ludmilla com a tecnologia

Ludmilla brinca que mexia em versões “jurássicas” de alguns software, como Photoshop 3 e Corel 5. Quando a Internet chegou em casa, ela quis ir um pouco além. “Quando eu descobri a Internet, a primeira coisa que eu pensei foi: cara, eu não quero ser só alguém que está construindo contéudo, eu quero fazer meu próprio site”. E fez. Com 14 anos e a ajuda de um amigo, abriu o bloco de notas e escreveu os códigos da sua primeira página HTML. “Eu acho que a minha carreira começou aí. Na prática, foi aí, quando eu fiz meu primeiro site”, avalia.

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Na época, o feito rendeu a ela uma matéria em uma revista de Santos, litoral de São Paulo, chamada Mundo do CD-ROM. “Eu lembro que o email do cara [repórter] foi: nossa, achei muito legal, porque você é muito novinha e você é uma menina, você está mexendo com isso?”, conta.

E foi criando sites que Ludmilla, aos 16 anos, percebeu que poderia ajudar em casa financeiramente. Pegou a lista telefônica e ligou para diversas empresas, conseguindo alguns clientes que lhe rendiam um “dinheirinho para uma adolescente se divertir”.

Na mesma época, Ludmilla conheceu Maurício Matias, com quem é casada até hoje. E a tecnologia também teve papel importante nessa união: eles se conheceram através do chat online mIRC, que ela brinca ser o tataravô do WhatsApp.

A história de Ludmilla com o empreendedorismo

Ludmilla começou a cursar Publicidade e Propaganda, mas deixou a faculdade de lado quando percebeu que não era o que ela queria. “Minha praia não é isso, não, minha praia é Internet”, pensou na ocasião. Matias tinha acabado de se formar em Engenharia da Computação e, ao invés de se mudarem para São Paulo para construírem uma carreira como boa parte dos jovens santistas faziam, resolveram ficar e montar um negócio próprio.

Foi assim que o casal fundou a Mkt Virtual, empresa que mantêm até hoje. No início, ela surgiu como uma produtora de tecnologia, sobretudo com a criação de sites. Com o passar dos anos, porém, a empresa se aventurou também na produção de conteúdo e na área de estratégia.

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Hoje, 17 anos depois da fundação, a companhia se consolidou tanto que passou a ser uma opção para os jovens santistas que não necessariamente querem ir para São Paulo construir uma carreira. Desde nova, Ludmilla não concordava com essa fuga de cérebros da cidade, e achava que Santos também poderia ter espaço para empresas.

E parece que ela estava certa. “Quando eu fiz faculdade de Publicidade, os professores falavam o seguinte: se você quer trabalhar na área de Comunicação, esquece, você vai se formar aqui e você vai trabalhar em São Paulo. Hoje, os professores falam o seguinte: se você quiser se dar bem na área de Comunicação, ou você vai trabalhar em São Paulo ou você vai trabalhar na Mkt”, conta.

A companhia cresceu tanto que acabou dando origem a quatro outras empresas, também de Ludmilla. A Mokotó Filmes e Histórias faz produções audiovisuais, a Mukutu Interatividade cuida da parte de jogos e experiências digitais, o Tip é uma plataforma de cursos em Santos e o Juicy Santos é um site de lifestyle da Baixada Santista.

Um strike negativo em meio ao sucesso

No meio de todo esse crescimento, Ludmilla descobriu um câncer no final de 2011, um dia antes de seu pai ser diagnosticado com a mesma doença. “Foi um daqueles strikes maravilhosos da vida”, conta. Apesar da dificuldade no tratamento, Ludmilla conseguiu ficar curada após duas cirurgias. O mesmo não aconteceu com seu pai.

Apesar da perda do pai, Ludmilla voltou ao trabalho. “Tive que seguir a vida”, afirma. Uma das coisas pelas quais ela passou durante o tratamento, porém, ela não conseguiu deixar para trás: o preconceito que enfrentou.

“Toda pessoa que eu falo do câncer, a pessoa olha para mim com uma cara mega esquisita. Depois, quando eu falo que foi de língua, a pessoa fica: Meu Deus, o que essa menina fez na vida dela? Porque é um preconceito foda, a pessoa associa a uma coisa totalmente promíscua. Então, eu via que carregava uma série de tabus e preconceitos, e não era só comigo”, conta.

Fazendo de um limão uma limonada

Mas foi só em 2014 que Ludmilla entendeu que poderia fazer alguma coisa com essa bagagem que vinha carregando. “Por que que eu não estou transformando isso em algum conteúdo?” foi o que ela pensou depois de assistir a uma palestra que mudou sua forma de pensar.

Nesse momento, ela se lembrou do Beaba, uma entidade que visa desmistificar o câncer e que o Juicy Santos já vinha ajudando há algum tempo com um bazar beneficente realizado anualmente. O Beaba já tinha uma cartilha sobre câncer destinada para crianças, e Ludmilla pensou em transformá-la em um aplicativo. Ela e a fundadora do Beaba, Simone Mozzilli, já tinham se tornado amigas e entendiam as dores uma da outra, já que Simone também sobreviveu a um câncer. 

Com o jogo, é possível aprender sobre a doença se divertindo. Imagem: Captura de tela.

“Eu comecei a pensar: bom, você só vai erradicar o preconceito se você falar no assunto. Você não elimina nenhum preconceito e nenhum tabu se você não desmistifica isso”, lembra.

“E aí eu fiquei pensando que o que salvou a minha vida foi o diagnóstico precoce. Então, se as pessoas têm preconceito, não falam sobre o assunto, se elas estão em estado de negação permanente, elas jamais vão considerar a hipótese de que elas podem ter câncer e, talvez, quando considerarem, pode ser tarde demais. Esse foi meu raciocínio”, lembra.

Foi assim que surgiu a parceria para a criação do aplicativo, que teve o apoio do edital INOVApps, do Governo Federal. Depois de muitos altos e baixos, o jogo ficou pronto no final de 2016. O aplicativo visa ensinar sobre o câncer para crianças, a fim de que elas aprendam sobre os sintomas e o tratamento da doença. Tudo isso é possível através de 20 minigames interativos e lúdicos.

O resultado da ideia

Para a surpresa de Ludmilla, o Alpha Beat Cancer venceu dois prêmios internacionais este ano. O primeiro foi o Indie Prize USA, por escolha da audiência, e o segundo foi o World Summit Awards, na categoria global de Saúde e Bem Estar.

Agora, Ludmilla espera levar essa experiência pessoal para seus clientes. O Alpha Beat Cancer a ensinou que é possível unir a parte comercial e a geração de impacto social, e é justamente isso que ela quer fazer com as marcas que atende. “Eu quero pegar essa história que está para trás e colocar isso a favor de produzir um bom conteúdo, de gerar algum tipo de impacto e de construir legados, seja para pessoas, seja para marcas, seja para empresas, através desse aprendizado”.

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