22 ago 2018

Influente, acessível e humilde: conheça a história de Nina Silva

Dimítria Coutinho

por Dimítria Coutinho

11 min. de leitura
Influente, acessível e humilde: conheça a história de Nina Silva

Executiva de TI há mais de 16 anos. Uma das 100 pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo. Sócia fundadora do Movimento Black Money. Membro honorário da Academia de Letras de Araçariguama e região e da rede Social Good Brasil, organização brasileira de tecnologia para transformação social. Mentora. Escritora. Palestrante. Todas essas frases e palavras falam de Nina Silva, mas é preciso muito mais que uma frase para explicar quem é esta mulher.

Nina nasceu Marina há 36 anos, no Jardim Catarina, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro – na época, a maior favela plana da América Latina. Desde muito nova, sempre se espelhou na irmã, seis anos mais velha e a primeira da família a cursar faculdade. Como o pai se esforçava para pagar escola particular para a irmã – “aquelas mais baratinhas”, como lembra a executiva -, Nina teve a oportunidade de ter bolsa e não precisar estudar no ensino público.

Com quatro anos, aprendeu a ler. “Não porque eu era inteligente, mas sim porque eu era muito abusada, batia nas crianças. E como eu batia nas crianças da minha idade, a professora me colocou no último ano do prezinho, e lá eu fiquei três anos, desde os dois anos de idade. Então, eu tomei muito gosto por números e letras, eu tive essa familiaridade desde muito cedo”, conta Nina. Foi aí que ela começou a ter facilidade com lógica.

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Seu pai, que na época ainda não tinha finalizado o segundo grau, percebia esse talento e incentivava a filha. Quando iam juntos ao mercado, era Nina quem fazia as contas para que o pai não gastasse demais – se sobrasse dinheiro, ela saía no lucro, ganhando seu biscoito favorito. E apesar de gostar de matemática desde pequena, Nina não se considera “de exatas”, muito menos tem o perfil da executiva de TI que programava desde os cinco anos de idade.

“Eu vejo a tecnologia muito voltada para humanas, muito voltada ao entendimento do que são as pessoas, do que são as necessidades das pessoas, e como que a gente pode melhorar a vida delas a partir da tecnologia”

Executiva de tecnologia por acaso

Foi por essa tecnologia humana que Nina se encantou, mas isso só aconteceu mais tarde em sua vida. Na época de prestar vestibular, queria cursar direito. “Achava que eu tinha que ser juíza, que eu ia trazer a justiça para o mundo”. A irmã, porém, insistiu para que ela cursasse Administração – na época, já via a mais nova como uma líder, alguém que influenciava e provocava ação nos demais.

Algumas provas de vestibular depois, Nina acabou se matriculando em Administração na Universidade Federal Fluminense, onde estudou de 2000 a 2004. no segundo ano da faculdade, começou a trabalhar em uma empresa onde teve seu primeiro contato real com o universo da tecnologia: foi convidada para fazer parte da implementação de um sistema integrado de gestão empresarial, o ERP da SAP.

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“Nessa implementação, eu não sabia nada, absolutamente nada, de TI. Eu tinha um namorado na época, e ele fazia administração de redes. Ele virou para mim e falou: a SAP dá muito dinheiro. Dá muito dinheiro, menina, pelo amor de Deus, você tem que fazer isso. E eu fui por que dava dinheiro. Pura e simplesmente”, confessa Nina.

Quando começou a aprender sobre o sistema, ela se empolgou. Lembra como se fosse ontem das horas depois do expediente que passava lendo as páginas do manual e fazendo linhas de código. “Durante um ano, eu aprendi como autodidata e tive a oportunidade, durante o projeto, de exercer, de treinar, porque as pessoas que estavam ali comigo me deram essa possibilidade, tirando dúvidas, dando dicas”, conta.

Ao fim da implementação, Nina foi contratada como consultora júnior. Nesse período, a empresa pagou para ela tirar a certificação na área, e foi quando ela realmente pôde aprender mais e se apaixonar por tecnologia. “Depois do ‘dá dinheiro’, eu vi que era uma coisa que dava match”.

“Minha gerente é aquela menina”

A carreira de Nina na tecnologia estava começando, e as dificuldades não foram poucas. “Eu era uma pessoa com a cara da diversidade, numa época que diversidade não era tão bem vista assim”, conta. Ela diz que, na época, não conseguia absorver muito bem o que era sexismo, o que era racismo e o que era, de fato, um comentário a respeito exclusivamente do seu trabalho.

Nina se considera a cara da diversidade. Imagem: Divulgação.

Por muitas vezes, ela deixou sua insegurança falar mais alto nesse sentido. “Muitas caras feias e respostas que eu recebia como se o meu trabalho não fosse qualificado, eu realmente acreditava que era aquilo. E depois eu consegui começar a identificar que não era bem assim”, lembra.

Nina explica que sempre se cobrou muito para atingir a perfeição em toda e qualquer coisa que fizesse. E isso  vem do fato de que, o tempo todo, ela precisava se provar capaz. “Na escola, eu já sofria com isso, mas quando eu fui para o mercado de trabalho, a briga fica de cachorro grande”, conta.

“Se você é preto, você é o pior; se você é mulher, você sabe menos; se você é pobre, você não tinha que estar aqui. Como eu sempre fui essas três coisas juntas, ser perfeita era, no mínimo, minha obrigação, sabe?

Conforme Nina cresceu na carreira, o preconceito não mudou muito. Quando já era gerente, ouviu frases como “quem é aquela menina ali?” ou “minha gerente é aquela menina”. “A necessidade de te colocar em um lugar que eles acreditam que você tenha que se manter. Em um lugar de aprendiz, de sombra de quem realmente é adulto, de quem realmente sabe do que está falando”, afirma Nina.

Quando tudo perde o sentido

Em 2013, Nina estava no auge de sua carreira. Era gerente de sistemas, nunca tinha ganhado tão bem na vida. Foi quando ela teve Burnout. “Eu tinha tudo o que todo mundo acha que seria o topo de carreira e, naquele momento, aquilo tudo me fez muito mal”, lembra a executiva.

Nesse momento, Nina desistiu da sua área de atuação e foi passar um ano fora do país, onde acabou com todo o dinheiro que tinha guardado até então. “Fui chorar em inglês, é a pior coisa que você pode fazer: chorar em dólar. Não faça isso nunca, eu aprendi”, brinca. Nina é bem-humorada até quando o assunto não é tão agradável assim.

E talvez esse alto astral tenha contribuído para que, na época, ela entendesse que poderia voltar a trabalhar com tecnologia sem necessariamente ter uma carreira por status. “Foi quando eu voltei a buscar propósito dentro da minha carreira, dentro das minhas atividades. Hoje, minha maior dificuldade é entender que é uma escolha, e essa escolha me traz frutos muito maiores, muito mais benéficos que as coisas que eu tive que abrir mão”, conta.

Se tornando a Nina que é hoje

A partir desse momento, Nina foi se aproximando ainda mais da pessoa que é hoje: uma pessoa engajada com a luta pela diversidade e orgulhosa de tudo o que já passou. Apesar de ser da área de TI, um dos feitos dos quais Nina mais se orgulha é ser membro honorário da Academia de Letras de Araçariguama e região – foi depois desse Burnout que ela voltou a se aproximar da literatura, tornando-se também escritora.

Outro projeto pessoal onde Nina mergulhou de cabeça foi o Movimento Black Money, que visa estimular o desenvolvimento do ecossistema afroempreendedor. Ela explica que a comunidade negra tem um poder de consumo cada vez maior mas que, quando trata-se de tentar empreender, as barreiras são muito grandes. Mesmo quando dá certo, um intermediário branco acaba se beneficiando, já que os negros encontram dificuldades em concorrer em pé de igualdade com os demais, segundo Nina. “Mesmo sendo a maioria dos empreendedores, nós não conseguimos créditos nas instituições financeiras, isso porque nós temos cor, nós temos uma imagem, e essa imagem nunca é vinculada à riqueza, ao dinheiro, à prosperidade”.

Para ela, o movimento vem quebrar essa ideia de que é preciso pedir ajuda. “Me incomoda o tempo todo a palavra inclusão, a partir do momento em que somos a maioria. Então, ficar o tempo todo pedindo para sermos incluídos de algo que não fomos nós que nos colocamos à margem, mas sim fomos colocados à margem, onde não queríamos estar”, explica.

Por que a gente mesmo nao faz isso? Por que a gente não para de pedir inclusão, para de pedir benção? Por que a gente não cria a rede, e a rede se fortalece e começa a escalar com outros pretos e pretas no mundo que passam pelas mesmas coisas em nações diferentes?

Nina explica, também, que o objetivo do movimento não é segmentar ainda mais o mercado, mas sim uni-lo. “Principalmente porque nós estamos na base da pirâmide [social]. Se eu impacto a base, eu impacto o PIB, e a economia toda ganha, até o empresário cis branco ganha”.

E essa busca por diversidade também é observada na vida profissional de Nina. Depois da crise que teve em 2013, ela se voltou para a parte mais humana da tecnologia que a fez brilhar os olhos no começo. Hoje, Nina é Project Manager Lead na ThoughtWorks, um consultoria global de tecnologia. Lá, ela trabalha com software abertos, mercado que nunca tinha atuado anteriormente.

Ela conta que sua equipe é diversa, e que ela tem sorte de trabalhar em uma empresa que se preocupa com isso. Ela afirma, porém, que nem toda empresa enxerga as coisas pelo viés social, mas que “falar de diversidade, hoje, não é apenas falar de um mundo mais justo”.

Para Nina, a transformação digital pela qual passamos é o momento perfeito para a diversidade começar a ter voz. Ela explica que, hoje, “é lucro ter diversidade”, e que as empresas que não se adaptarem a essa realidade vão ficar para trás. “As empresas que têm a tecnologia como fim devem ser as primeiras a estar na frente em relação à inovação. E isso só é possível se a gente tem mentes diferentes pensando sobre um prisma. Se a gente pensar pelo mesmo prisma com mentes iguais, a gente chega a uma pobreza de resultados . A gente chega até mais rápido na solução, mas chega numa solução muito mais pobre. Hoje, esse ambiente hostil começa a se adaptar porque ele não consegue mais sobreviver se não for um ambiente inclusivo”, opina.

Nina frisa, porém, que é preciso aproveitar o momento para inserir a ideia de diversidade enquanto justiça. Para ela, essa diversidade de certa forma forçada não pode ser a única maneira. “A oportunidade é agora”, afirma.

Nina enquanto influenciadora

E foi justamente por sua luta que Nina acabou se tornando influenciadora e referência para milhares de outras pessoas. Neste ano, ela foi considerada uma das 100 pessoas afrodescentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo. Para ela, o mais legal disso é ter acesso às outras 99 pessoas e poder, junto com elas, pensar em ações que favoreçam o cenário da diversidade.

Para Nina, é muito importante “não utilizar desse reconhecimento para ser a única, e sim para ampliar que isso [um negro ganhando prêmio] não seja grandes coisas daqui a algum tempo”. Ela explica que esse deve ser apenas o início de uma grande mudança. “[Meu desejo é de] que pessoas negras ocupem mais espaços e que tenham seus próprios espaços, e que ditem as regras desses espaços. E não apenas ter um reconhecimento para eu pendurar na parede”, afirma.

Quando perguntada sobre como se sente sendo tão influente, ela confessa com humor que ainda não está acostumada a ser “a blogueirinha”. Para Nina, o mais interessante é conhecer histórias parecidas com a dela e poder, de alguma forma, ajudar na representatividade. “Não me vejo como influencer digital, mas sim como um espelho para mulheres negras e não negras, um espelho para pessoas negras verem que, sim, nós somos humanos, é possível”.

Em meio a uma vida turbulenta que ocupa quase todas as suas horas livres com palestras, Nina deseja, apenas, que isso um dia não seja mais necessário. “Que a Nina possa se aposentar de falar de diversidade, que não seja mais necessária essa fala. Que a Nina possa se aposentar de verdade, porque terão várias outras Ninas falando, acontecendo, vivenciando, sendo reconhecidas. E que eu possa aplaudir, que eu possa estar na plateia”, se emociona.

A próxima oportunidade de escutar Nina ao vivo e antes que ela “se aposente” está próxima. Ela é um dos principais nomes do Festival Social Good Brasil, evento promovido pela Social Good Brasil (SGB) e que reúne sua comunidade, parceiros e nomes referências do Brasil e do mundo para troca de conhecimento, experimentação na prática e inspiração. O festival acontece nos dias 31 de agosto e 1ª de setembro, em Florianópolis (SC). As inscrições estão abertas.