08 mar 2018

Grace Hopper: a mulher que ajudou humanos e máquinas a conversar

Dimítria Coutinho

por Dimítria Coutinho

4 min. de leitura
Grace Hopper: a mulher que ajudou humanos e máquinas a conversar

Rainha da computação, Vovó COBOL, a grande dama do Software, rainha da codificação. Todos esses apelidos fazem referência a uma só mulher: Grace Hopper. Foi ela quem inventou o primeiro compilador, um software que funciona como um tradutor entre humanos e computadores. O software basicamente recebe a linguagem de programação (como JavaScript, por exemplo) e a transforma em Os e 1s para que o computador possa entender as ordens. Esse simples avanço facilitou a vida de muitos engenheiros e possibilitou o desenvolvimento de uma série de programas.

Grace Hopper nasceu Grace Brewster Murray em 1906, na cidade de Nova Iorque. Mais velha de três irmãos, a história diz que com apenas sete anos descobriu, sozinha, como funcionava um despertador: desmontou vários deles escondida de sua mãe.

Mais tarde, se formou em Matemática e Física, e na Universidade de Yale conquistou seu mestrado e doutorado. Depois disso, passou a lecionar Matemática. Foi nessa época que se casou com o professor Vincent Foster Hopper, de quem herdou o sobrenome que nunca quis abandonar, mesmo após o divórcio do casal, 15 anos depois.

Entrada na Marinha

Imagem: reprodução.

O início da Segunda Guerra Mundial é também o início da entrada de Grace Hopper para a história. Em 1943 ela se alistou voluntariamente à Marinha dos Estados Unidos. Lá, foi enviada para a Universidade de Harvard, onde trabalhou programando o primeiro computador de grande capacidade, o Mark I.

Foi com o Mark I que os caminhos de Grace se cruzaram com os da programação. Na época, os computadores serviam apenas para fazer cálculos e, nesse caso, cálculos relacionados à guerra – como a projeção da trajetória de bombas, por exemplo. Inovar com a linguagem de programação era considerado algo muito difícil.

Depois de trabalhar na equipe do Mark I, foi a vez de Grace programar seu sucessor, o Mark II. Foi justamente nele que, segundo a história, a rainha da computação inventou o termo “bug”. Quando o Mark II deu problema, Grace foi tentar resolver e descobriu que tinha um inseto (em inglês, bug) morto dentro da máquina e, ao tirá-lo, chamou a operação de “debugging”, termo usado até hoje para encontrar e solucionar defeitos em máquinas.

A linguagem Flow-Matic

Quando perguntada como ela sabia tanto sobre computadores, Grace respondeu com seu recorrente bom humor:

Eu não sabia. Era o primeiro.

Mas teve que aprender, e o fez com maestria.

Depois da guerra, Grace passou a trabalhar para a corporação Eckert-Mauchly Computer, onde fez parte da equipe que desenvolveu o primeiro computador comercial fabricado nos Estados Unidos.

Foi nesse período que Grace desenvolveu seu compilador. De forma resumida, um compilador traduz um programa de uma linguagem entendida por humanos para uma linguagem de máquina. Numa época em que computadores eram usados apenas para fazer cálculos, Grace conseguiu aproximá-los da linguagem humana.

E não parou por aí. Aliás, os feitos de Grace foram muito mais longe. Em 1955, a Vovó COBOL criou a linguagem Flow-Matic, a primeira linguagem de programação assemelhada ao inglês. Na época, Hopper percebeu que usar apenas a matemática para programar não era muito cômodo e, por isso, propôs a utilização de palavras-chave em inglês.

Depois de ter sua ideia rejeitada pela companhia, ela e sua equipe realizaram um protótipo assim mesmo.

Dessa forma, surgiu a linguagem Flow-Matic que foi, depois, a maior inspiração para a criação do COBOL, utilizado até hoje.

A importância de Grace Hopper

Grace trabalhando em um dos supercomputadores que programava. Foto: Computer History Museum

Após a criação do Flow-Matic, a importância da linguagem COBOL passou a ser associada diretamente à importância de Grace Hopper na história da programação. Sigla em inglês para Linguagem Comum Orientada para os Negócios, o COBOL é uma linguagem de programação utilizada no processamento de banco de dados comerciais.

Essa linguagem é utilizada até hoje, e continua a evoluir. Ela serve para negócios e algumas de suas principais características são acesso rápido a arquivos e bases de dados, assim como suas atualizações.

E é justamente essa precisão que faz o COBOL ser tão utilizado no setor financeiro. Bancos, seguradoras, folhas de pagamento e cartões de crédito são exemplos de aplicabilidades dessas linguagem. Além disso, atualmente o COBOL se integra com outras tecnologias, permitindo que seja utilizado de várias maneiras.

O legado de Grace Hopper

A indiscutível contribuição de Grace Hopper para a história da programação rendeu a ela diversos títulos. Ao longo de sua carreira, se tornou a primeira diretora de programação automática da empresa em que atuava. Além disso, foi nomeada capitã da Marinha estadunidense, onde se aposentou em 1986.

Foi a primeira mulher e primeiro cidadão norte americano a receber o título de Distinguished Fellow pela British Computer Society, um prêmio para pessoas que contribuíram para o universo da computação. Em 1988, ganhou o Prêmio Emanuel R. Piore IEEE, concedido a personalidades do mundo da informática. Em 1991, foi a vez de ela receber a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação, uma condecoração concedida pelo presidente dos Estados Unidos a inventores e inovadores.

Grace Hopper faleceu em 1992, aos 85 anos. Dois anos depois, surgiu o Grace Hopper Celebration, um congresso anual feito para mulheres da área de tecnologia. Existente até hoje, o evento apoia e inspira mulheres, levando um nome que marcou a história da tecnologia.