As Minas da Web: Janie Paula, Buxixo de Mães

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Janie foi mãe do Nicholas aos 16. Uma cesariana. Quando engravidou de Maia aos 28 questionou algumas escolhas pela falta de preparação da sua primeira maternidade. Sentiu que precisava de informação para poder escolher melhor, mesmo que optasse pelas mesmas coisas.

Com incentivo de uma amiga e grande ajuda da internet, descobriu um universo que se transformaria no seu modelo de vida e negócio. Janie continuou na publicidade até a última semana de gravidez, mas usava o seu “tempo de tela” para estudar. Depois do parto de Maia tudo mudou. Hoje ela encabeça um movimento multiplataforma que traz informação e diálogo a milhares de mulheres sobre parto natural, amamentação, educação com respeito e maternidade ativa. No seu escasso tempo livre, ela faz a mediação de mais de 1.600 mães no projeto Buxixo de Mães, é doula (sua principal fonte de renda), tem um blog, 2 perfis de instagram, 3 páginas no Facebook e 4 sites e usa a internet para promover encontros virtuais e presenciais.

 

Não pergunte ao Google

No pós-parto de seu primeiro filho, Janie se viu sozinha. Os seus amigos adolescentes sumiram e ela não tinha ninguém com quem falar sobre todas aquelas mudanças. No final da segunda gravidez ela teve medo de passar pelo mesmo. A maternidade era o seu principal (se não único) tema de conversação: “Ninguém mais dava conta da minha demanda, eu só falava sobre bebês e maternidade. É injusto cobrar esse interesse do outro” ela conta. A lista de discussão da parteira Ana Cristina Duarte no Yahoo foi a sua salvação. Lá ela se informou a partir de exemplos reais e compartilhou momentos íntimos com desconhecidas. “Quando você busca artigos na internet sobre o assunto, tipo usar ou não chupeta, tem um monte de informação contraditória. Todo mundo tem um manual de como criar um bebê e todos querem dar sua opinião na internet. As trocas em forums são mais humanas.“, conta.

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Por conta dessa lista, Janie pensou que seria legal criar um grupo menor só com as mães que ela foi conhecendo ao longo da gravidez. O Buxixo de Mães nasceu junto com Maia, em dezembro de 2012. O grupo começou no Facebook com 40 mulheres que precisavam falar abertamente, sem verdades absolutas. Elas usavam a rede para tirar dúvidas, desabafar e marcar encontros com os pequenos em livrarias, salões de festa e parques. A hashtag #buxixodemaes começou a bombar no Facebook e logo outras mulheres se interessaram. Para atender a demanda, Janie criou um segundo grupo, onde passou a receber mães do Brasil inteiro. Nos 3 primeiros dias 600 mulheres se inscreveram.

 

Big data, big love

A admissão acontece a partir de um formulário. Uma vez aprovadas, são adicionadas no “Mapa das Vizinhas”. Janie geo-localiza todas elas no Google Maps para que saibam quem mora por perto e incentivar encontros reais. O grupo já promoveu encontros até na Austrália. Desse convívio surgem muitas melhores amigas, parcerias profissionais e até sociedades.

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Na internet rola de tudo nos grupos ativistas, o povo é muito pé na porta. Escrevem para impor valores sem se colocar no lugar do outro. O Buxixo era diferente, a gente só não queria se sentir sozinha.” diz. Claro que já houveram barracos, e pelo volume/velocidade de informação que trafega pelo grupo (40 posts por dia, alguns com mais de 1.000 comentários) nem sempre é fácil mediar. De qualquer forma: lá dentro elas partilham valores. A sua parceira e amiga Yara Tropea entrou para a força-tarefa e hoje é fundamental no Buxixo.

Com o tempo Janie notou que listas fechadas tem uma grande força nesse universo e passam mais confiança: “Você parte do princípio que aquele conteúdo é real e curado, como uma indicação de uma amiga“, diz. O Buxixo também organiza bazares virtuais de troca e venda e seções como “Eu Faço”, onde a mulherada divulga os seus talentos e negócios sem flodar o feed.

 

Modo avião

Os smartphones diminuem muito a solidão do pós-parto, faz com que essas mães se sintam conectadas com o mundo.“, diz. Ao mesmo tempo Janie as incentiva a largar o celular nos momentos importantes, para que olhem os filhos sem a mediação de telas. “A internet é fundamental na minha vida, mas hoje tenho menos tempo para ela. A gente acaba fazendo tudo no tempo materno, sem pressão“, conta.

Mesmo assim Janie criou o Te Vi Nascer, um blog que reúne relatos de parto e o Enquanto eu Amamento, um perfil de insta que compartilha fotos lindas de mães alimentando os seus bebês. Ao todo, são 7.000 mulheres conectadas sob a sua tutela e mais 600 na lista de espera do Buxixo.

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Quando perguntei qual era o seu modelo de negócio, ela foi clara: “Sucesso pra mim não é medido por dinheiro.” Hoje ela não quer focar na necessidade do crescimento e pretende ter paciência para deixá-lo crescer naturalmente, sem metas e sem pressa. Ela confessa ter passado (e ainda passar) por muitos questionamentos sobre o que o Buxixo poderia virar. Um livro? Um curso? Um lugar físico para encontros? “O grupo é uma premissa de valores que pode usar qualquer ferramenta para fazer o que ele se propõe a fazer. Ele nunca vai ser uma coisa só“, garante.

Mas como o seu próprio uso da Internet reflete nos seus filhos? Janie levou um susto quando, aos 11 anos, Nicholas não sabia o que era um selo de carta, mas também não sabia o que era Facebook. Para ela, é necessário acompanhar de perto todo este amadurecimento digital para empurrá-lo em outras direções além do feed, além de restringir o tempo de acesso. “Hoje ele tem 15, então se depender dele é só Whatsapp. Nem email ele usa.” Ela consegue segurar os excessos do filho adolescente, mas confessa lidar com dificuldade com o seu próprio consumo. “Eu tenho orientá-lo o máximo possível pra que ele faça um bom uso da web, aprenda a pesquisar direito, a achar coisas legais… mas às vezes ele mesmo pede para eu sair do celular.

* créditos das imagens na ordem de aparição: Luciano Bergamashi, Lela Beltrão e Stephanie Salateo.

Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

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Quer colocar sua carreira em primeiro lugar antes de ter filhos? Se você trabalha (ou quer trabalhar) para a Apple ou o Facebook nos Estados Unidos, deu sorte. As duas empresas estão oferecendo um novo benefício extra para suas funcionárias: elas pagam pelo congelamento dos seus óvulos.

Ambas empresas vão dar até US$ 20 mil a cada funcionária que quiser passar pelo procedimento, segundo o canal de TV NBC*. Cada ciclo de extração de óvulos custa US$ 10 mil, mais US$ 500 por ano pela manutenção.

Como seguros-saúde não costumam cobrir procedimentos de fertilização in vitro, a novidade foi vista como um modo de atrair mais mulheres, já que o ambiente corporativo do Vale do Silício é notadamente masculino

Leia também: Esposas do Silício

O congelamento de óvulos faria parte de um já parrudo pacote de benefícios dessas empresas. O Facebook, por exemplo, oferece quatro meses de licença remunerada tanto para pais quanto mães (quando o padrão nos Estados Unidos é três meses sem pagamento, e nem é garantido por lei), auxílio-creche, um bônus de US$ 4 mil para gastar como quiser com o bebê e flexibilidade para trabalhar em casa alguns dias por semana. O Facebook, não custa lembrar, é onde a Sheryl Sandberg do movimento “Faça Acontecer” trabalha.

O resto das empresas de tecnologia é igualmente generoso em seus pacotes de benefícios*

O problema é que congelar óvulos não é garantia de conseguir engravidar mais tarde. A própria Associação Americana de Medicina Reprodutiva só deixou de considerar a técnica como experimental há dois anos, segundo a NBC. Antes, ela era mais usada em casos de pacientes com câncer cujo tratamento poderia deixá-las inférteis.

Uma pesquisa do ano passado mostrou que uma mulher que congele seus óvulos com 21 anos tem 43% de chance de engravidar quando usá-los*, não importa a idade; aos 38, 34%; aos 45, 12%.*.  Outro estudo diz que não importa a idade no momento do congelamento, a chance de engravidar com óvulos congelados após os 30 anos é de 25%*.

Claro que é melhor que nada, mas mesmo os médicos que recomendam a técnica dizem que é melhor congelar no mínimo 20 óvulos (o que exige dois ciclos de extração) e quanto mais cedo, melhor.  Leia como funciona o congelamento de óvulos.

O procedimento tem sido bastante procurado porque é visto como uma espécie de seguro-bebê: a lógica é que se não dá para ter filhos agora, pelo menos você fez tudo que podia para ter essa possibilidade lá na frente.

Tá, mas…

À primeira vista, parece um ótimo benefício para quem está angustiada com seu relógio biológico, mas ele me deu uma sensação de estranhamento. Claro que é interessante para a Apple e o Facebook que suas funcionárias dediquem a maior parte de seu tempo, em seus anos de pico de fertilidade, a seus empregadores e não a bebês que vão deixá-las insones e preocupadas.

É como se eles estivessem pagando às suas funcionárias para adiar a maternidade. Não estou sozinha nessa sensação: ”Quem escolher ter filhos pode ser estigmatizada como pouco comprometida com sua carreira. Do mesmo modo que os benefícios típicos de empresas de tecnologia como almoços e lavanderia gratuitos servem para manter os empregados mais tempo dentro do escritório, o mesmo pode acontecer com o congelamento de óvulos, que adia a licença maternidade e a responsabilidade com os filhos,” escreve o New York Times*

“Me preocupo como esse benefício vai ser ser usado pelas mulheres entre 20 e 30 e poucos anos,” disse Seema Mohapatra, uma especialista em bioética ouvida pelo mesmo artigo do New York Times. “Elas podem pensar: ‘Se eu quero ser vista como uma profissional séria e chegar a vice-presidente, eu não posso tirar licença-maternidade. Eles estão me oferecendo essa apólice de seguro ou então eu vou ser vista como alguém que só quer ser mãe,’” disse ela ao jornal.

A Apple pelo menos jura que sua intenção é das melhores. “Nós queremos empoderar as mulheres da Apple a fazer o melhor trabalho de suas vidas enquanto elas cuidam de seus entes queridos e criam suas famílias,” disse um porta-voz da companhia em uma declaração ao Techcrunch*

O melhor que qualquer empresa pode fazer por suas funcionárias é apoiar suas escolhas, sejam elas ser solteira, adiar a maternidade ou constituir família, sem medo de represálias ou serem preteridas em promoções. Uma política nesse sentido vai valer bem mais que vinte mil dólares.

*Links em inglês

Crédito da foto: Fertility Research Centre, G G Hospital, Chennai