Privacidade: o que você e George Clooney têm em comum?

*Por Julia Costa Teles

Aconteceu o que parecia impossível: George Clooney se casou. O ator de Hollywood monopolizou os holofotes no fim de semana ao oficializar sua união com Amal Alamuddin, uma advogada britânica de origem libanesa, em  um evento de três dias em Veneza, na Itália. Mas fora o cenário cinematográfico, os convidados famosos e o vestido Oscar de La Renta da noiva, o casamento de Clooney chamou atenção pela sua política de segurança da informação. Sim, você leu certo, segurança da informação.

Uma regra foi imposta ao convidados: deixar seus celulares no hotel ou em um quiosque na festa. Mas não é que fosse proibido fotografar: todos ganharam um celular descartável e uma máquina de fotográfica com códigos de rastreamento embutidos. Se alguém publicasse uma foto nas redes sociais ou, pior, vendesse a imagem, o casal saberia quem foi o responsável. Assim, Clooney e Amal conseguiram manter o controle sobre o que era divulgado a respeito de seu casamento, já que as fotos oficiais tinham sido prometidas a revistas de celebridades.

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Esse recente episódio reforça algo que muitas de nós já percebemos. Para evitar que aquela foto íntima apareça em lugares indesejados, é preciso estar no comando. E, no caso das celebridades, traçar verdadeiros planos de guerra como o de Clooney. Este exemplo, somado aos casos cada vez mais frequentes de pornografia de vingança e de cyberstalking, um novo tipo de crime cibernético que consiste no uso de ferramentas tecnológicas para perseguir uma pessoa devido à exposição de conteúdo privado, prova que não somos tão diferentes assim das celebridades. Um estudo recente da empresa de software de segurança McAfee mostrou que nós, reles mortais brasileiras, não estamos mais seguras que os famosos no nosso anonimato.

A pesquisa foi feita no início do ano no país e diz respeito à nossa forma de se relacionar em tempos de internet. Segundo o estudo, feito com 500 pessoas, 62% enviam ou recebem conteúdo privado, incluindo vídeos, fotos, e-mails e mensagens em seus celulares, enquanto 65% dos que recebem afirmaram armazenar esse conteúdo em seus aparelhos. Além disso, 54% dos entrevistados disseram utilizar seus telefones para compartilhar ou dividir mensagens de texto, e-mails ou fotos íntimas de conteúdo sexual, e 22% afirma ter feito vídeos de conteúdo sexual com seus dispositivos móveis.

Dos entrevistados pela McAfee, 82% disseram proteger seus smartphones com senha ou código de acesso, o que é ótimo. No entanto, 43% também assumiram que compartilham as senhas com seus parceiros ou parceiras e 49% usam a mesma senha em vários dispositivos, o que não é recomendado pelos especialistas em segurança da informação. Além de senhas, 60% dividem com os parceiros o conteúdo do smartphone e 63% compartilham também as contas de e-mail.

A pesquisa diz mais: entre aqueles que assumem enviar conteúdo íntimo, 76% mandam para parceiros, enquanto 17% compartilham com desconhecidos. Mesmo assim, 91% das pessoas diz confiar que seus parceiros não enviarão conteúdo íntimo ou informações privadas para outras pessoas. Porém, 75% diz que pede para o/a parceiro/a apagar os dados quando terminam um relacionamento.

Segundo o estudo, a faixa etária entre 18 a 24 anos é a mais preocupada em acompanhar o que o/a parceiro/a faz na internet: 79% dos entrevistados olham o celular do outro para ver o conteúdo armazenado nele, incluindo mensagens e fotos. As pessoas que assumem entrar na conta do Facebook do/a companheiro/a pelo menos uma vez por dia somam 27%, enquanto 39% dos entrevistados admitiram bisbilhotar o/a ex nas redes sociais.

Ou seja, enquanto os vazamentos de fotos estiverem restritos às celebridades, você pode se sentir segura sem estar de fato. Porém, já que agir como George Clooney é praticamente impossível se você não é um todo-poderoso de Hollywood, o melhor mesmo é refletir sobre seu próprio comportamento na web e aprender a se proteger.

Veja o infográfico completo da McAfee:

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Como você pode proteger suas fotos íntimas

Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web
Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web

Por Bruno Cardoso*

Trinta e um de Agosto de dois mil e quatorze entrará para a história como o dia do “The Fappening” (em português, algo como “Dia da Punhetação”). O termo ridículo ganhou notoriedade após uma série de fotos mulheres famosas como Jennifer Lawrence, Kate Upton, Aubrey Plaza e Selena Gomez terem sido publicadas no que muitos consideram um dos locais mais desagradáveis da Internet: o fórum 4chan. Basta dizer que, ao navegar no submundo do 4chan, as suas chances de se ofender beiram 100%, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que alguém (ou mais de um alguém, de acordo com o que sugere a evidência disponível até o momento) obteve acesso a fotos íntimas de atrizes, atletas, modelos e demais pessoas famosas (sim, eu estou explicitamente evitando o uso da palavra “celebridade”) e publicou tais fotos para todo mundo ver.

É possível que uma falha do iCloud da Apple tenha contribuido para esse fiasco, mas não há nenhuma prova conclusiva sobre isso, portanto não vou entrar nesse mérito. Vou apenas dizer que sim, havia um problema no iCloud que permitia que pessoas tentassem diversas senhas para um determinado usuário sem que a conta fosse bloqueada por tentativas inválidas, mas isso já foi corrigido e é pouco provável que tenha sido essa a causa de todo o bafáfá.

Entenda mais sobre segurança de dados e criptografia no nosso artigo sobre o Heartbleed

De toda forma, aconteceu o que aconteceu e a Internet ficou de pernas pro ar com reações entre o “quem mandou tirar foto pelada?” e o “hã?”. Para a primeira eu respondo: ninguém mandou, mas todo mundo nesse planeta tem o direito de tirar quantas fotos quiser, pelado(a) ou não, sem que alguém venha e roube ditas fotos. Para a segunda reação eu digo: “Exato”. No frigir dos ovos, foi isso o que aconteceu: alguém roubou fotos íntimas de pessoas famosas e publicou na Internet para todo mundo ver. Não é a primeira vez que isso acontece e nem será a última. E isso não é exclusividade de pessoas famosas, diga-se. Temos casos e mais casos de não-famosos que “caíram na net”. Não sou qualificado para dissertar sobre as implicações sociológicas desse fenômeno, mas posso oferecer algumas dicas para que você ao menos evite que isso aconteça com você.

Antes de mais nada, deixe-me deixar absolutamente claro que eu não acho que as pessoas não deveriam tirar fotos comprometedoras. O corpo é seu e você tira quantas fotos você quiser e compartilha com quem bem entender. Porém, suas fotos comprometedoras (por qualquer definição que você tenha para a palavra) estarão tão seguras quanto a pessoa que recebe tal material quiser que elas estejam. Se você resolveu enviar qualquer tipo de foto/vídeo/SMS/WhatsApp/SnapChat para terceiros, saiba que esse material saiu do seu controle e não há absolutamente nada que você possa fazer sobre isso.

Pausa para falar sobre serviços que prometem anonimato. Não confie em SnapChat Secret/Tinder/Grindr e afins. Não são tão anônimos assim.

Certo! Mas e se eu quiser tirar umas fotos picantes (de acordo com a sua definição de picante, claro) com o meu namorado(a) / marido(a) / companheira(o) sem compartilhar com ninguém? Antes de mais nada, certifique-se que essas fotos não serão enviadas para “a nuvem” sem que você tenha conhecimento. Se você possui um iPhone, certifique-se que suas fotos não estão sendo enviadas automaticamente para o iCloud. No iPhone, vá em Ajustes > iCloud > Fotos e desmarque a opção “Meu Compartilhamento de Fotos”:

Se você tem o Dropbox no seu telefone, verifique se suas fotos não estão sendo automaticamente enviadas. Abra o aplicativo, vá em “Settings”  (“Configurações” em português) e desmarque a opção Camera Upload:

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A idéia é a mesma para Android / Windows Phone e para qualquer outro serviço de backup na “nuvem” do tipo Google Drive e Microsoft One Drive.

Se você já tem coisas no seu computador que você não quer compartilhar – intencionalmente ou não – com terceiros, considere criptografar seus arquivos. Para os usuários de Mac, um software como o Knox é uma boa opção. O Knox cria uma espécie de disco virtual que requer uma senha para ser acessado. Uma vez que o disco virtual está ativo, basta jogar seus arquivos confidenciais para dentro dele como se fosse um pendrive e pronto.

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Para Windows, recomendo o Gpg4win. Basta baixar, instalar e clicar com o botão direito na pasta ou arquivo que você quer proteger:

gpg4win

Além disso tudo, é sempre bom seguir as regras de ouro da Internet:

  • Não utilize a mesma senha em mais de um lugar. Use um gerenciador de senhas (1Password para Mac / KeePass para Windows, por exemplo) e crie senhas únicas e fortes para cada conta.
  • Use autenticação em duas etapas em todos os lugares possíveis. Google, Facebook, Twitter, Dropbox, Yahoo, Outlook.com, LinkedIn e muitos outros serviços oferecem essa funcionalidade. Ela exige um outro método de autenticação além da sua senha, portanto mesmo que alguém obtenha a sua senha, esse alguém não conseguiria ter acesso à sua conta.
  • Lembre-se que na Internet tudo é pra sempre. Uma vez lá, não tem como voltar atrás.

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brunoc*Bruno Cardoso é flamenguista, pai da Ollie e consultor de Segurança da Informação há dez anos.

 

 

Crédito das fotos: Gage Skidmore/Flickr/Reprodução/Arquivo Pessoal