O Tinder no segundo tempo

por Maíla Sandoval*

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ilustração por Thiago Thomé*

Tudo começou quando uma amiga entrou no Blender no ano passado. Eu sempre fui dessas de não entender casais cibernéticos. Eu era até competente em manter contato pela internet, mas me vangloriava por conhecer pessoalmente todo mundo em meu Facebook.

Então essa minha amiga decidiu que queria namorar e entrou no Blender. Eu, cética decidi propor uma aposta de que aquilo era um grande bacanal e que eu podia provar. Criei meu perfil. Isso foi perto do Carnaval. De início, foi frustrante. Ninguém dali me interessava o suficiente para engajar uma conversa. Percebi que a dancinha do acasalamento ali seria muito diferente das que tinha testemunhado no Grindr dos meus amigos.

Com o acesso liberado entre todos os perfis, sem qualquer tipo de filtro, comecei a receber mensagens deste tipo:

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Acontece que por mais que não recusemos uma baixaria de qualidade, acredito que nós, mulheres (ou pelo menos eu e minhas amigas), não conseguimos aceitar abordagens que subjuguem nossa inteligência ou que, simplesmente, denunciem o “copie e cole”.

Não conseguia interagir com ninguém. Argh. Mas eu tinha uma teoria para provar. A aposta, eu já tinha perdido.  Escolhi um perfil mais ou menos agradável e iniciei uma conversa. O papo foi bem, promovido ao Whatsapp, e depois de um mês de esparsas conversas marcamos um encontro e, agora, encurto a história dizendo que fomos ao Empanadas e que não rolou. (Dica para os rapazes: atualize suas fotos).

Desisti de provar qualquer teoria, online dating não era pra mim, sou do tipo xavequeira cara a cara. Até que… Fiat Tinder.

Foi no dia dos pais que minha prima mostrou o Tinder para a família. Foi no wifi do restaurante que ela demonstrou o divertido jogo  que eliminava o caráter aleatório desta cyber-balada. Só podem conversar os que se curtem mutualmente. Gênio! Quase como na vida, você só dá papo pra quem quer.  E ainda por cima, vinha com o cobertorzinho pro ego cada vez que aparecia a notificação “it’s a match!“

O jogo, tão viciante quanto Candy Crush, ainda põe na sua mão a decisão entre mandar uma mensagem ou keep playing. Keep playing! Iniciei algumas investidas pelo chat, uma ou outra promovidas ao Facebook ou Whatsapp, e a eficácia do aplicativo foi se revelando. As conversas pareciam fluir melhor, a partir do interesse mútuo confirmado.  As pessoas ali não pareciam profissionais do cyber-dating. Pareciam todo o tipo de pessoa. Era mesmo como estar na balada, com a vantagem de saber gostos e amigos em comum logo de cara.

Foi um mês depois, quando viajei sozinha ao Uruguai, num dia bem chuvoso, que tive meu primeiro Tinder-date. Foi demais, rápido, sem muita enrolação e um jeito diferente de conhecer uma cidade que não era a minha.

Voltei pro Brasil com aquele gás, motivada a finalmente conhecer os “tindos“ da minha lista. Foram cinco experiências muito distintas, fiz amigos e tive micro-relacionamentos que me tornaram advogada fervorosa da “ferramenta“. Conheci casais formados pelo Tinder, conheci pessoas que passavam o Tinder-rodo.  Acabou meu preconceito, ficou fácil. Cada um usa como quer. Eu dizia a todas as minhas amigas: “Você vai curtir!”.

A adesão em massa da galera trouxe o divertido movimento dos efêmeros Tumblrs sobre o Tinder (tinderland, tindereatorre, tindernasuecia) – a captura de tela é mesmo uma ferramenta pro humor. Todos rimos, pois éramos parte daquilo.

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Viajo muito pelo Brasil a trabalho e criei o passatempo de sempre espiar os tindos locais, e cada vez mais percebia que, apesar das novas combinações, eu já não tinha energia para iniciar ou dar continuidade às conversas. Dei um tempo. Fiquei sem entrar e de vez em quando recebia uma notificação de que meu perfil não mais seria mostrado, caso eu não aparecesse… de novo, quase como na vida, tem que dar as caras pra continuar na cena.

Em abril, tirei férias, e entrei no Tinder-California. Dei risada da imensa quantidade de tindos com tigres (tinderguyswithtigers), mas no final, peguei dicas de todas as cidades com os meus matches e acabei conhecendo um deles em São Francisco. Tinder continua uma ferramenta eficaz para o turismo customizado, não deixem de experimentar.

Voltei pra São Paulo. Encontrei amigas que, após traumáticos términos, tinham recém aderido ao aplicativo e começavam a se divertir com seus matches. Além disso, a proximidade do mundial de futebol deu uma renovada no “catálogo“. Fiquei curiosa. Voltei pro Tinder.

Iniciei a pesquisa, e com curtidas retrancadas, já não era mais o mesmo pra mim. Conversei com alguns mais, mas não me motivei. Recém separados foi o que mais encontrei por lá desta vez. Além deles, ficaram  cyber–solteiros profissionais, que sempre conheceram pessoas pela internet.  A peteca não ficava mais no ar.

Notei que minhas amigas também foram perdendo a empolgação e  o Tinder foi criando sua própria definição. Não é um vício que perdura. Dificilmente encontraremos o Tinder Anônimos por aí. Ele é eficaz de verdade para quem quer se reabilitar de um pé na bunda, ou do fim de um casamento muito longo, e não sabe como, nem onde reaprender a paquerar.

Então, parece que não é pra mim. Não é por não acreditar em cyber-relacionamentos, muito pelo contrário, o aplicativo me ensinou que existe faísca na internet. A verdade  é que pessoas “olho no olho” como eu ficam em grande desvantagem nesta cyber-balada. Meus melhores xavecos são ao vivo. As mensagens de texto acabam com minhas pausas dramáticas.

Mas não, não deletarei o Tinder por enquanto, pois ainda não existe guia de viagens melhor. Sem contar que, logo menos, vêm as Olimpíadas e posso ficar curiosa novamente!

maila*Maíla Sandoval é bailarina sem fronteiras com alma de golfinho. Esconde do grande público que é autora do @palavragrelhada e integrante da Banda Literária. Paulistana criada, nasceu com rodinhas nos pés e não recusa a oportunidade de conhecer lugares novos. Torcedora fanática dos Diablos de Avellaneda.

foto: arquivo pessoal

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.