Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

*por Bárbara Castro

Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais sobre trabalho e gênero no setor de TI o que mais ouvia era “Mas não existe discriminação contra as mulheres. Convivemos muito bem”. Essa fala reativa geralmente abria a conversa com meus entrevistados tão logo eu explicasse que eu queria entender, entre outras coisas, como se desenrolavam as relações entre profissionais homens e mulheres já que elas são minoria no setor. Elas compõem cerca de 20% do total dos profissionais de TI no Brasil.

A ideia de igualdade de tratamentos e de oportunidades, no entanto, era acompanhada por discursos que reforçavam diferenças: as mulheres seriam melhores atendendo clientes, as mulheres seriam melhores trabalhando como analistas, as mulheres seriam menos capazes de programar. Entre outros achados, pude notar que a discriminação das capacidades técnicas das mulheres cria uma divisão sexual do trabalho dentro do setor: enquanto eles cuidam da parte hard da TI, elas cuidam da soft. Algumas das mulheres com as quais conversei sofriam porque não conseguiam se realizar profissionalmente: elas eram sutilmente impedidas de programar porque sempre eram realocadas nas tarefas de gerenciamento de equipe e de relacionamento com o cliente – o que não as levava, no entanto, a ganhar mais do que eles. Uma frase comum entre os profissionais do setor é que “elas sabem como atrair novos clientes, sabem como manter seu interesse vivo”.

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Não demorou para eu perceber que o papel sedutor que se atribuía às mulheres, papel este essencial para a manutenção dos negócios de uma empresa, não apenas alimentava a desconfiança que seus colegas possuíam nas suas capacidades técnicas como também respingava nas relações de trabalho cotidianas. Insinuações homofóbicas e histórias de assédio sexual sempre apareciam nas entrevistas com as mulheres. “Mas são mais piadinhas, a gente tem que aprender a conviver”, a maioria dizia. A homofobia se apoiava na ideia preconceituosa de que mulher que atua nesse setor é masculinizada e, portanto, lésbica. O assédio se apoiava na ideia de que uma mulher que está em um ambiente masculinizado está disponível.

Muitas das minhas entrevistadas contaram como usavam táticas muito específicas para apagarem a referência de que eram mulheres: seja banindo elementos estéticos que algumas gostavam de usar, como esmalte, maquiagem, joias, roupas florais e coloridas; seja adotando uma personalidade mais dura e menos emotiva; seja anulando a construção de uma relação de amizade e companheirismo para evitar qualquer possibilidade de interpretação errada dos homens. Elas faziam, como define a filósofa Judith Butler, uma performance de gênero que apagava as marcas que costumamos atribuir ao universo feminino e conseguiam, assim, ter sobrevida em um espaço altamente masculinizado.

Algumas das meninas contaram que mentiam sobre ter namorados para mostrar que eram “sérias” e que evitavam falar sobre paquera mesmo quando estavam fora da empresa para que seus colegas não interpretassem suas falas erroneamente e as lessem como disponíveis. Muitas me diziam que mesmo quando apagavam o gênero no local de trabalho, sofriam, porque aí eram vistas como “um deles” e incluídas nas piadas sexistas e nos comentários grosseiros sobre as mulheres do escritório.

As armaduras que elas construíam para sobreviver no dia-a-dia de trabalho eram uma reação ao ambiente machista e discriminatório no qual atuavam e ao qual buscavam se adaptar da melhor maneira possível. Mas essas estratégias, que à primeira vista podem parecer como a solução da lavoura ao leitor mais apressado, são a tradução de um ambiente corporativo que pouco se preocupa em equalizar as relações de gênero no trabalho e a combater o preconceito, a discriminação e o assédio.

As acusações de sexismo ao Github, que vieram à tona nas últimas semanas, evidenciam esse modelo de gestão de recursos humanos nas empresas: apesar do desligamento do Presidente da empresa após as denúncias de discriminação de gênero, não houve preocupação em tornar a história mais transparente nem ao menos foi exposto um novo plano de conduta empresarial que evitasse que casos como aquele se repetissem. Para abafar o problema, ele foi particularizado, tratado como exceção, uma fórmula que pode ajudar a salvar a reputação da empresa emergencialmente, mas que é muito pouco efetiva no combate às raízes do problema.

Outro caso recente envia ao público uma mensagem semelhante: a violenta agressão pública do CEO da RadiumOne à sua namorada, sua continuidade no cargo e na condução dos negócios da companhia. Mais uma vez, o caso foi resolvido com seu afastamento apenas quando a pressão pública cresceu sobre a empresa e sobre seus parceiros de negócios – e oito meses após o caso ter sido divulgado. Apesar de o caso de violência ter ocorrido fora da empresa, que mensagem ela pode passar às mulheres que nela atuam quando decidem que não há uma crise de imagem quando seu CEO trata uma mulher com violência? O que se pode esperar da condução de um caso de violência de gênero dentro do ambiente de trabalho de uma empresa que envia uma mensagem como essa?

Apesar da solução encontrada nos dois casos, é importante pensarmos em como ela foi fruto da pressão de fora e do quanto foi gerenciada como uma crise de imagem. A maneira como foram conduzidos enquanto exceções, desvios raros de conduta e casos isolados só ajuda a reforçar a ideia de que os constantes casos de discriminação e a desigualdade de gênero presentes no mundo corporativo são fruto de um delírio coletivo. O remédio para estes problemas está longe de ser solucionado com pedidos de desculpas como os divulgados por essas empresas.

Admitir que a diferença entre os sexos ainda gera desigualdade no mercado de trabalho e construir políticas reais de combate ao assédio e à discriminação seriam a única maneira de essas e outras empresas construírem um ambiente de trabalho equitativo e igualitário. Uma pena que ambas não tenham aproveitado a oportunidade.

Bárbara Castro*Bárbara Castro é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e desenvolveu parte de sua pesquisa na Open University, na Inglaterra. Em sua tese, estudou as relações de trabalho e gênero no setor de TI.

3 thoughts on “Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

  1. É vergonhoso ver como os homens tratam as mulheres em profissões que são ~tidas~ como exclusivamente masculinas. E ter que se anular em um ambiente de trabalho para não dar brechas a assédios ou comentários maldosos é extremamente preocupante. O pior é ver que os homens costumam relativizar isso, achando que TI e ciências correlatas são espaços deles e danem-se quem não seguir a ~cartilha~.

    Que homem precisou se anular em um ambiente de trabalho? Aposto que poucos, até nenhum. Mas mulheres tendo que deixar de lado sua vaidade ou tendo que mentir para se sentirem seguras no trabalho é intolerável.

  2. Todos os aspectos apresentados no texto como um ‘sexismo’ se encaixam perfeitamente em outros setores do mercado de trabalho, como engenharia.

    Acontece pois a maioria das equipes de TI são formadas por homens, talvez pelo simples desinteresse das mulheres pela área dita como ‘hard’ da TI. Se um programador é bom, será aproveitado e respeitado pelo time. Se não, ficará escanteado para tarefas mais soft. E isso nada tem a ver com gênero.

    Mas se for observar assim, também existem os salões de beleza áreas de vendas de cosméticos e roupas, magistério e tantos outros são sexistas, pois 90% desses cargos são ocupados por mulheres.

    O assédio é igual e existe machismo em todas as empresas brasileiras, independente da área. Isso não é exclusividade de TI. O texto fica tão apelativo para esse lado de “guerra dos sexos”, que chega a usar de forma alarmista um CEO que espanca a namorada, coisa que entra no lado pessoal e foge completamente do assunto. O que raios isso tem a ver com a profissão do sujeito? A namorada dele trabalhava com tecnologia? Bateu nela dentro do escritório?

    Logicamente a empresa só demitiu seu FUNDADOR quando a pressão pública caiu em cima. Até porque era o máximo que poderiam fazer. Queria que empalassem ele no escritório?

    Quis achar que sexismo na TI, e achou. Mas de acordo com sua linha de pensamento conduzida para isso, acharia homofobia, sexismo e discriminação até em um parque de diversões. Mais parece texto de petista paranóico.

    Francamente, doutora.

    1. Oi, Diego,

      Tudo bem? Você tem toda razão: o sexismo não é exclusividade do setor de TI, infelizmente. A discriminação é indiscriminada em nosso mercado de trabalho e no de outros países também. Basta ver que uma mulher com o mesmo nível de educação de um homem ganha 71% do seu salário – e que isso piora quando ambos têm ensino superior, pois elas passam a ganhar cerca de 60% do que eles ganham (dados do IBGE, obtidos na última PNAD). Em momento algum quis dizer que o machismo e o sexismo são exclusividade do setor (falo sobre ele porque foi ele o objeto de minha pesquisa, mas poderia ser qualquer outro), apenas usei os dois casos para ilustrar como esses traços estão presentes mesmo em indústrias tão modernas, como as de TI. E como é responsabilidade das empresas combater o preconceito. Nos dois casos, não foi essa a mensagem que as empresas passaram, lamentavelmente. Nem foi essa a preocupação que as moveu. Enquanto continuarmos naturalizando situações como essas e nos omitindo sobre elas tanto o setor de tecnologia como o mercado de trabalho em geral vai continuar sendo discriminatório. E é contra isso que deveríamos lutar. Um abraço, Bárbara.

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