A mulher que quis botar ordem no Reddit

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Por Karla Lopez*

Já ouviu falar do Reddit? É uma salada de bobagens divertidas, como vídeos de gatinhos, misturada com links sérios, como matérias sobre a corrida presidencial americana. Você pode nunca ter entrado no site na vida, mas o conteúdo dele já apareceu no seu Facebook, no seu site preferido, na TV…

Essa fonte inesgotável de entretenimento é o que faz do Reddit um dos sites mais populares da web, acima do Netflix e do Pinterest. Com mais de 170 milhões de usuários (os Redditors), o site conta com milhares de seções (os SubReddits) que dividem o conteúdo em temas que vão desde de “Tatuagem” até “Coisas que pensei no chuveiro”.

O ingrediente mágico do Reddit é uma comunidade forte e ativa, que vota para dar visibilidade aos artigos que eles acham merecer ganhar a primeira página e gera em torno de sete bilhões de visualizações de páginas por mês. Só que lá todo mundo é anônimo. Essa é a grande força do Reddit: enquanto o Facebook tem buscado cada vez mais reforçar a identidade real dos usuários, o Reddit está no lado oposto — lá todo mundo pode fazer e dizer o que bem entender.

Por causa disso, há seções como “Ódio as mulheres”. “Batendo em nerds”, “Racismo”, “Abuso de animais”, entre outros ainda piores e com nomes menos óbvios. Nessas seções você encontra fotos, vídeos e relatos. Dá vontade de vomitar.

A desculpa dos fundadores é a boa e velha “Seres humanos serão humanos”, associada ao direito da liberdade de expressão.

Tudo bem, mas o Reddit é um meio com influência: o que aparece lá vira post em blogs, que vira hashtag no Twitter, que depois é falado e repetido incessantemente na TV, na mesa do bar, no escritório… Quanto mais lixo flutua por lá, mais gente é exposta não só a esse discurso de ódio, mas a coisas ilegais como pornografia infantil e incitação à violência.

Até que Ellen Pao veio para botar ordem na casa.

A executiva ficou famosa no Vale do Silício ao processar um famoso fundo de investimento de risco por discriminação por gênero, pedindo 100 milhões de dólares de indenização. O valor foi calculado com base em salários, promoções e bônus que ela alega ter perdido para colegas homens e brancos com a mesma posição, mas com performance abaixo da dela.

Ellen é formada em engenharia elétrica em Princeton e fez Direito e MBA em Harvard. Mas nada disso a protegeu das mesmas baboseiras que você ou uma amiga já deve ter ouvido no escritório.

No julgamento, Ellen disse ter sofrido assédio sexual e moral como retaliação por terminar um relacionamento com um colega de trabalho casado.

Segundo ela, a equipe costumava dizer que “mulher corta o barato” no trabalho. (Confesso que já ouvi essa várias vezes).

A firma, claro, contou uma versão diferente: disse que ela era não era boa no que fazia, que ela achava ser mais do que realmente entregava e que não sabia trabalhar em equipe. Agora imagina trabalhar em equipe com um time que fica dizendo que você “corta o barato” porque é mulher? E ser produtiva em um trabalho em que um chefe quer te punir por não ser mais amante do amigo dele? Difícil.

O julgamento contou com seis mulheres e seis homens e eles decidiram em favor do empregador, o que eu achei super triste, mas pelo menos o circo todo acendeu várias discussões sobre sexismo no Vale.

Ellen começou a trabalhar no Reddit em 2013 e virou CEO interina em 2014. Ela tomou decisões muito legais, como acabar com negociação de salário na contratação dos empregados, baseada em alguns estudos que dizem que mulheres sempre saem perdendo nesse tipo de situação.

Depois de oito meses na função, ela começou a expandir a audiência do site além do jovem americano branco, que é o público mais clássico do site. Isso gerou revolta nos usuários, que começaram uma campanha de insultos baseados em sexo e raça, além de comparações com Hittler e uma petição com mais de 200 mil assinaturas exigindo sua demissão.

O Reddit é uma mídia online como qualquer outra, vive de publicidade. A intenção dos executivos e investidores é lucrar, mas como vender publicidade pra esse tipo de conteúdo? Quem vai querer anunciar na seção “Odeio Preto” ou “Mulher é tudo vagabunda”? Além de ser imoral e ilegal, é ruim para os negócios, e $$$ é uma língua o Vale do Silício entende muito bem.

Com essa diretriz no começo do ano Ellen liderou o fechamento de algumas seções controversas, como o subreddit “Transfag” (que insultava transsexuals) e “fatpeoplehate” (que insultava pessoas gordas). No começo de julho Victoria Taylor, diretora de comunicações responsável pela seção de perguntas e respostas (uma das mais populares do site) foi demitida de forma muito estranha, e com isso os protestos ficaram ainda inflamados, pintando uma imagem de que sob o comando de Ellen, o Reddit não se preocupava mais com a comunidade de usuários. Os Redditors chegaram a fechar partes populares do site, em protesto à demissão de Victoria, e a culpa toda, segundo eles, foi de Ellen.

Ninguém pode dizer que os ataques foram surpresa. O Reddit é famoso por dar tração a campanhas para desmoralizar mulheres, como a feita contra a crítica de videogames Anita Sarkeesian e a desenvolvedora Zoe Quinn, que recebeu o nome de “Gamergate”.

Vamos combinar que um board que permite que uma empresa vire um viveiro de racismo e sexismo não ia ser capaz de proteger uma CEO mulher e oriental da pressão dos usuários, né? Foi o que aconteceu. Ela foi demitida.

Nesse momento está a maior confusão. Yishan Wong, ex-CEO, acusa um dos fundadores te ter demitido a diretora de comunicações Victoria Taylor e se esconder atrás de Ellen Pao, para que ela levasse a culpa. E onde ele postou essa e outras acusações contra a empresa? No próprio Reddit. E a imprensa também está perdidinha no meio do fogo cruzado.

A pergunta que fica é: será que ela foi queimada em praça pública por fazer o que nenhum homem antes dela teve colhões, que era colocar freios nos trolls do Reddit?

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*Karla Lopez é paulistana, corintiana e vive andando. Queria ser programadora, mas virou radialista. Parte teimosia, parte acaso, acabou co-fundadora de uma empresa de impressão 3d. Está no Vale do Silício há alguns anos mas ainda não entende nada.

Foto: Christopher Michel/Flickr

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As mulheres do Vale do Silício

O Vale do Silício é o grande celeiro de oportunidades em tecnologia, mas não é um dos lugares mais receptivos para mulheres. Já falamos por aqui sobre os exemplos negativos, como o “Esposas do Silício” e casos de discriminação e assédio velados, mas nós do Ada continuaremos batendo nesta tecla: mulheres precisam de exemplos para se sentirem capazes de ter ambição.

 

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Lea Coligado estuda Ciência da Computação na Universidade de Stanford. Durante uma de suas férias de verão, ela fez um estágio no Facebook, desenvolvendo um aplicativo para iOS. Na volta às aulas, durante um papo entre colegas sobre o que tinham feito nas férias, um de seus amigos contou que tinha estagiado no Facebook, ao que outro respondeu de queixo caído “Uau! Sério?! Não sabia que você era tão inteligente!” Quando perguntaram a Lea e ela deu a mesma resposta, a reação foi totalmente diferente: “Ah, eu deveria ter me inscrito, então.” Lea ficou furiosa. Ela tinha passado pelos mesmos processos seletivos, cumprido o mesmo programa e entregue os mesmos resultados que o seu colega. Porque com ela era diferente?

Inspirada pelo minimalismo de Humans of New York, um projeto que usa a internet para mostrar fragmentos da vida de pessoas comuns, Lea criou Women of Silicon Valley. Um espaço para contar histórias de mulheres que resistem às dificuldades desse mercado, celebrar os seus exemplos e criar novas narrativas. Ao longo dos anos, Lea conheceu e ouviu a história de mulheres talentosas, resilientes e geniais. Porque então ela nunca tinha ouvido falar sobre elas na mídia?

 

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Ao site da revista Fortune ela admitiu que, até começar a sentir na pele a desigualdade de gênero, pensava que grande parte do que ela ouvia a respeito era “folclore da mídia“. Quem dera. Durante sua breve experiência profissional Lea percebeu que a sua predileção por vestidos e o tom mais agudo da sua voz incomodavam e chamavam a atenção de muitos marmanjos ao mesmo tempo. “Levei tanta cantada ruim que passei a evitar passar departamentos inteiros da firma”, diz.

Felizmente, mesmo dentro dessa jornada tortuosa há quem pense diferente. O seu próprio chefe no Facebook a encorajava a arriscar em suas decisões quando ela sequer se sentia segura sobre o seu jeito de vestir. “Uma ex-chefe me disse para cortar a erva daninha e regar as plantas do caminho,” e é exatamente o que Lea tem feito.

Como a pauta da igualdade de gênero tem se tornado um assunto obrigatório dentro das grandes empresas de tecnologia, o desinteresse masculino se transformou em desprezo por um suposto sistema de cotas. Fato é que, gostando ou não, grandes mulheres estão entrando goela abaixo da indústria. O caminho ainda é bem longo, mas pelo menos já temos para onde olhar.

(Imagens: Reprodução Women of Silicon Valley/Lea Coligado)

Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

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Quer colocar sua carreira em primeiro lugar antes de ter filhos? Se você trabalha (ou quer trabalhar) para a Apple ou o Facebook nos Estados Unidos, deu sorte. As duas empresas estão oferecendo um novo benefício extra para suas funcionárias: elas pagam pelo congelamento dos seus óvulos.

Ambas empresas vão dar até US$ 20 mil a cada funcionária que quiser passar pelo procedimento, segundo o canal de TV NBC*. Cada ciclo de extração de óvulos custa US$ 10 mil, mais US$ 500 por ano pela manutenção.

Como seguros-saúde não costumam cobrir procedimentos de fertilização in vitro, a novidade foi vista como um modo de atrair mais mulheres, já que o ambiente corporativo do Vale do Silício é notadamente masculino

Leia também: Esposas do Silício

O congelamento de óvulos faria parte de um já parrudo pacote de benefícios dessas empresas. O Facebook, por exemplo, oferece quatro meses de licença remunerada tanto para pais quanto mães (quando o padrão nos Estados Unidos é três meses sem pagamento, e nem é garantido por lei), auxílio-creche, um bônus de US$ 4 mil para gastar como quiser com o bebê e flexibilidade para trabalhar em casa alguns dias por semana. O Facebook, não custa lembrar, é onde a Sheryl Sandberg do movimento “Faça Acontecer” trabalha.

O resto das empresas de tecnologia é igualmente generoso em seus pacotes de benefícios*

O problema é que congelar óvulos não é garantia de conseguir engravidar mais tarde. A própria Associação Americana de Medicina Reprodutiva só deixou de considerar a técnica como experimental há dois anos, segundo a NBC. Antes, ela era mais usada em casos de pacientes com câncer cujo tratamento poderia deixá-las inférteis.

Uma pesquisa do ano passado mostrou que uma mulher que congele seus óvulos com 21 anos tem 43% de chance de engravidar quando usá-los*, não importa a idade; aos 38, 34%; aos 45, 12%.*.  Outro estudo diz que não importa a idade no momento do congelamento, a chance de engravidar com óvulos congelados após os 30 anos é de 25%*.

Claro que é melhor que nada, mas mesmo os médicos que recomendam a técnica dizem que é melhor congelar no mínimo 20 óvulos (o que exige dois ciclos de extração) e quanto mais cedo, melhor.  Leia como funciona o congelamento de óvulos.

O procedimento tem sido bastante procurado porque é visto como uma espécie de seguro-bebê: a lógica é que se não dá para ter filhos agora, pelo menos você fez tudo que podia para ter essa possibilidade lá na frente.

Tá, mas…

À primeira vista, parece um ótimo benefício para quem está angustiada com seu relógio biológico, mas ele me deu uma sensação de estranhamento. Claro que é interessante para a Apple e o Facebook que suas funcionárias dediquem a maior parte de seu tempo, em seus anos de pico de fertilidade, a seus empregadores e não a bebês que vão deixá-las insones e preocupadas.

É como se eles estivessem pagando às suas funcionárias para adiar a maternidade. Não estou sozinha nessa sensação: ”Quem escolher ter filhos pode ser estigmatizada como pouco comprometida com sua carreira. Do mesmo modo que os benefícios típicos de empresas de tecnologia como almoços e lavanderia gratuitos servem para manter os empregados mais tempo dentro do escritório, o mesmo pode acontecer com o congelamento de óvulos, que adia a licença maternidade e a responsabilidade com os filhos,” escreve o New York Times*

“Me preocupo como esse benefício vai ser ser usado pelas mulheres entre 20 e 30 e poucos anos,” disse Seema Mohapatra, uma especialista em bioética ouvida pelo mesmo artigo do New York Times. “Elas podem pensar: ‘Se eu quero ser vista como uma profissional séria e chegar a vice-presidente, eu não posso tirar licença-maternidade. Eles estão me oferecendo essa apólice de seguro ou então eu vou ser vista como alguém que só quer ser mãe,’” disse ela ao jornal.

A Apple pelo menos jura que sua intenção é das melhores. “Nós queremos empoderar as mulheres da Apple a fazer o melhor trabalho de suas vidas enquanto elas cuidam de seus entes queridos e criam suas famílias,” disse um porta-voz da companhia em uma declaração ao Techcrunch*

O melhor que qualquer empresa pode fazer por suas funcionárias é apoiar suas escolhas, sejam elas ser solteira, adiar a maternidade ou constituir família, sem medo de represálias ou serem preteridas em promoções. Uma política nesse sentido vai valer bem mais que vinte mil dólares.

*Links em inglês

Crédito da foto: Fertility Research Centre, G G Hospital, Chennai

17 mulheres que fizeram da Internet o que ela é hoje

(Este post foi uma sugestão da leitora Cora Poumayrac Neto, via nossa página do Facebook)

Não é novidade para ninguém que o mundo da tecnologia é dominado por (e direcionado para) homens, mas poucas pessoas sabem como grandes avanços que transformaram a internet no que ela é hoje foram criados por mulheres visionárias que não estão exatamente nos livros de história.

Além da história que a gente mais ama, a da querida e destemida Ada Lovelace (que dá nome ao nosso blog) traduzimos do post do Mic (em inglês) outros exemplos muito inspiradores, de mulheres que venceram a barreira do gênero de forma discreta e com relativo anonimato em momentos muito pontuais da história.

1. Um dos primeiros computadores é programado (1943-45)

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O Exército dos Estados Unidos buscava formas mais precisas de prever os ataques da Segunda Guerra Mundial. Foram 6 as mulheres responsáveis por programar um computador de mais de 45 metros de largura desenvolvido com esse fim. Obrigada, Jean Jennings Bartik, Frances “Betty” Snyder Holberton, Kathleen McNulty Mauchly Antonelli, Marlyn Wescoff Meltzer, Ruth Lichterman Teitelbaum e Frances Bilas Spence.

2. Software para o segundo computador comercial do mundo é implantado

Ida Rhodes migrou para os Estados Unidos quando criança durante a Primeira Guerra Mundial e em algumas décadas já frequentava reuniões semanais na casa de Albert Einstein. Apenas. Na América, Ida passou a trabalhar para o Governo desenvolvendo a linguagem de programação C-10, que potencializou a popularização do segundo computador comercial produzido nos Estados Unidos (o UNIVAC 1).

3. Um grande passo para a programação de computadores (1952)

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Grace Hopper foi a inventora do primeiro compilador, um software que funciona como um tradutor entre humanos e computadores. O software basicamente recebe a linguagem de programação (como JavaScript, por exemplo) e a transforma em Os e 1s para que o computador possa entender as ordens. Esse simples avanço facilitou a vida de muitos engenheiros e possibilitou o desenvolvimento de uma série de programas.

4. A primeira linguagem de programação amplamente usada foi desenvolvida (começo da década de 60)

Em 1961, a IBM contrata Jean Sammet, que passa a liderar o desenvolvimento de FORMAC, uma linguagem de computação que interpreta símbolos algébricos e os traduz em código. Esta foi a primeira linguagem amplamente utilizada na história da computação. Alguns anos depois, ela escreveu um livro a respeito das diferentes linguagens de programacão.

5. O setor de telecomunicações é alavancado (1963)

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Erna Schneider Hoover trabalhava nos Laboratórios Bell quando teve o seu segundo filho, e enquanto se recuperava no hospital (alô multi-tasking!) desenhou um sistema computadorizado de central de telefonia. Ele controlava automaticamente o volume das ligações e deixava as centrais (como os da foto acima) muito mais eficientes. O sistema revolucionou as telecomunicações e Erna foi premiada com uma das primeiras patentes de software emitidas da época. Décadas mais tarde, os sistemas de telefonia “switching”, usados para rotear bilhões de emails, seriam inspirados nas inovações desta grande mulher.

6. Alpha, a linguagem de computação da CIA usada para quebrar códigos, é usada online (1962)

Durante a Guerra Fria, Frances Allen é o ponto de contato da IBM com a CIA. Frances é a responsável por desenvolver e implementar a linguagem Alpha na agência, capaz de identificar padrões idiomáticos com rapidez em quase todos as línguas. Alpha tornou-se a base para a quebra de códigos na CIA pelos próximos 14 anos.

7. Uma freira ajuda a trazer a programação para as massas (meados dos anos 60)

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A freira Mary Kenneth Keller é a primeira mulher americana a conquistar um Ph.D. em Ciências da Computação, e foi a primeira mulher a trabalhar no departamento de computação do Dartmouth College, que na época só admitia homens. Lá, Mary ajudou a desenvolver BASIC, uma linguagem de programação que facilita a escrita de softwares por não programadores. Essa freira simpática acreditava que computadores deveriam ser usados para potencializar o acesso à informação e a promover a educação. Keller chegou a escrever 4 livros sobre o assunto.

8. O primeiro computador doméstico é usado (1965)

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Mary Allen Wilkes foi uma formanda em Filosofia do Wellesley College que entrou para a história da computação. Ela trabalhava no MIT e escrevia o sistema operacional de LINC, o primeiro micro-computador. Algum tempo depois de LINC, ela constrói o seu próprio PC em casa e torna-se a primeira usuária de um computador doméstico da história.

9. Buscas de resultados ganham um grande impulso (1972)

A professora Karen Sparck Jones começa uma nova carreira em ciências da computação em Cambridge, onde passa a trabalhar no processamento de linguagem natural e recuperação de informação. Ela introduz o conceito de frequência inversa de documento, um método estatístico que determina o quão importante certas palavras são em um documento – fundamental para consultas de pesquisa. Com algumas variações sobre o método, também conhecido pela sigla tf-idf, tornar-se um componente central dos sites de busca.

 

10. Typo, um dos primeiros corretores ortográficos, é criado (1974)

Lorinda Cherry une-se à empresa Unix e passa a trabalhar em ferramentas de texto, na análise do Federalist Papers e na compressão de uma agenda de telefones digital. Durante o processo, Lorinda ajuda a desenvolver técnicas estatísticas para encontrar erros ortográficos, posteriormente usadas em um dos primeiros softwares corretores, o Typo.

 

11. A primeira startup multimilionária do Vale do Silício abre o seu capital (1981)

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Sandra Kurtzig monta um negócio de programação de software em sua casa para mantê-la ocupada por meio período. Um de seus clientes pede um programa de gestão de recursos, e Kurtzig percebe o potencial para outras aplicações. Ela decide então capitalizar sobre a ideia e contrata uma equipe para desenvolver outras aplicações. A sua empresa ASK Computers não atraiu a atenção de investidores no começo, então a moça continuou investindo o seu próprio dinheiro. Anos mais tarde, Sandra torna-se a primeira mulher a abrir o capital de uma empresa de tecnologia.

12. Steve Jobs tem as suas melhores ideias (começo dos anos 80)

Adele Goldberg começou sua carreira como assistente de laboratório até chefiar o System Concepts Laboratory da Xerox PARC, na Califórnia. Ela desenvolveu uma série de interfaces gráficas para o usuário final – como os cursores, ícones de lixeira – que modificaram e facilitaram a forma old school de controlar um computador, através de comandos. Steve Jobs pediu que Goldberg lhe fizesse uma demonstração de seu software, mas ela se recusou. Pressionada por seus chefes, Adele foi a contragosto e avisou à empresa: “Estamos entregando o ouro!”. Dito e feito: Jobs incorporou várias de suas ideias em seus primeiros desktop Macintosh.

13. A internet fica mais rápida (1985)

Radia Perlman, uma das poucas alunas no MIT, é contratada na Digital Equipment Corp. Ela desenvolve o algoritmo por trás do Spanning Tree Protocol (também conhecido como STP), uma inovação que permite a Internet como ela existe atualmente. O protocolo cria alguns pontos de tráfego que criam uma vasta rede de informações. Por causa desse avanço, ela ganhou o apelido de “mãe da Internet” — um título que ela rejeita.

14. Nasce a criptografia moderna (1985)

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Shafrira Goldwasser  fica fascinada pela teoria dos números e entra no MIT. Junto com Silvio Micali e alguns outros envolvidos, ela define os requerimentos de segurança de esquemas de assinatura digital, que se tornaram uma das peças-chave em criptografia e cybersegurança. Suas contribuições criaram novos campos de estudo na ciência da computação e influenciarão estudos nas próximas décadas.

15. O tráfego na Internet ganha mais um conjunto de regras (1993)

Sally Floyd é uma das pesquisadoras mais citadas em estudos de ciência da computação. Ela ajudou a inventar a Detecção Randômica Antecipada, que é usada em todos os roteadores de internet e é um componente essencial em como uma informação, como um email, vai de um endereço eletrônico a outro.

16. A turma do suporte ganha uma ajuda (2005)

Monica Lam desenvolve o conceito do livePC, que permite gerenciar computadores de maneira segura em grande escala — uma parte importante da infraestrutura de computadores de grandes corporações.

17. Uma mulher ajuda a desenvolver os sites mais famosos da web (início dos anos 2000)

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Marissa Mayer é a primeira engenharia contratada pelo Google. Ela é a responsável pela clássica página de busca e pelo modo como os usuários interagem com o Gmail, Google Notícias e Google Imagens.

Atualmente, ela é conhecida por ser a toda-poderosa chefe do Yahoo.

Esta é uma lista do que entrou para a história, mas atualmente existem muitas mulheres incríveis construindo os produtos que você vai usar amanhã. Mary Lou Jepsen, que está trabalhando em uma tecnologia que fará telefones e computadores dispensarem fontes de energia externa, Corinna “Elektra” Aichele, que está trazendo WiFi a lugares distantes, Monica Lam (de novo ela), que está criando uma Internet mais social, onde os usuários podem compartilhar o que quiserem e serem donos de suas informações, Ruchi Sanghvi, que criou o algoritmo das nossas linhas do tempo do Facebook.

As inovações que as mulheres criam na tecnologia só serão superadas pelas que elas mesmas ainda vão fazer. Thanks sistas.

Via Mic.

Por que não vamos mais escrever sobre o Tinder

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O Ada nasceu há alguns meses da nossa vontade, Diana e Natasha, de ser útil a um grupo que não tinha voz nos atuais meios de comunicação: a mulher que usa tecnologia. Queríamos prestar serviço e ajudar na reflexão de como o mundo digital impacta o dia a dia e as nossas relações.

Tínhamos percebido que alguns serviços e aplicativos estavam abrindo novas possibilidades em várias frentes para todas nós: estamos mais produtivas, mais conectadas, mais informadas. E um dos serviços, lá atrás, que chamou a nossa atenção para isso foi o Tinder.

(Momento transparência: a Diana me apresentou o aplicativo , eu usei durante meses, até conhecer meu namorado ali mesmo e por motivos óbvios, deixar de usá-lo. Ou seja, podemos ser consideradas ~cases de sucesso~ do Tinder.)

O app transformou todo o processo de conhecer e paquerar alguém pela internet em uma grande brincadeira, e deu mais voz e participação às mulheres que serviços anteriores. Sua popularização também tirou um pouco do estigma que ainda perdurava nos chamados “sites de encontros”.

A gente sabe, pelos nossos números de audiência, que o app é popular e que todo mundo, se não usa, adora falar dele. A própria ideia de poder conhecer alguém em um “catálogo de gente” (como eu, Natasha, gosto de me referir ao Tinder) é extremamente sedutora, ainda que canse depois de um tempo.

Até que  chegou aos nossos ouvidos a notícia que o Tinder estava sendo acusado de discriminação e assédio sexual. “Ai, mais um”, pensamos. Como tínhamos publicado há pouco tempo este artigo ótimo da Bárbara Castro, achamos que não valia a pena entrar no assunto de novo. E mais uma coisa: gostamos de separar o produto da empresa. O dono pode ser um imbecil, mas o produto é bom, inovador e popular, então vamos continuar falando dele e prestando serviço, certo?

Errado. Porque depois de um tempo descobrimos  que Whitney Wolfe, a ex-vice-presidente de marketing (aos 24 anos!) que está processando a empresa, perdeu o título de cofundadora porque ter uma mulher tão jovem como sócia “fazia o Tinder não parecer uma empresa séria”. Para quem lê em inglês, aqui está a queixa completa de Whitney.

Segundo a ação judicial, muito do que faz o Tinder ser tão popular com as mulheres (mais do que a maioria dos sites e serviços online de namoro) são ideias trazidas por essa menina de 24 anos que, por ter se envolvido romanticamente com seu chefe, perdeu sua participação societária no negócio.

Os sócios se defenderam em um comunicado dizendo que a queixa da moça tem uma série de imprecisões e erros, e que nunca discriminaram nenhum funcionário por idade ou gênero, mas não ofereceram provas nem contra argumentos às acusações.

É claro que lamentamos (até porque o Tinder sempre bomba os nossos acessos) mas ficou difícil separar o produto de seus criadores. Se o Tinder é um grande sucesso entre as mulheres – conectadas, tecnológicas ou não -, temos certeza que é porque muitas delas contribuiram com processo de criação e crescimento da empresa. Seja escrevendo o código mágico desse aplicativo que fez todo mundo dar uma chance ao algoritmo, seja indicando o poder do cardápio humano para esquecer um coração partido. Sem mulheres (lindas, feias, gordas, casadas, velhas e novas) os matches não aconteceriam, então nos parece no mínimo irônico menosprezar o gênero que compõe quase 50% da sua base de usuários.

Então aqui vai o nosso recado, querido Tinder: se uma “empresa séria” pode prescindir de mulheres na sua liderança, vocês estão criando uma tecnologia burra e inconsistente. Não vamos incentivar um boicote geral ao aplicativo, porque isso vai muito da consciência de cada uma. De nossa parte, vamos continuar acompanhando a cobertura do caso, mas não iremos mais falar do app no Ada até ficar claro o que aconteceu.

Um abraço,

Natasha e Diana

Foto: Diana Assennato Botello

Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

*por Bárbara Castro

Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais sobre trabalho e gênero no setor de TI o que mais ouvia era “Mas não existe discriminação contra as mulheres. Convivemos muito bem”. Essa fala reativa geralmente abria a conversa com meus entrevistados tão logo eu explicasse que eu queria entender, entre outras coisas, como se desenrolavam as relações entre profissionais homens e mulheres já que elas são minoria no setor. Elas compõem cerca de 20% do total dos profissionais de TI no Brasil.

A ideia de igualdade de tratamentos e de oportunidades, no entanto, era acompanhada por discursos que reforçavam diferenças: as mulheres seriam melhores atendendo clientes, as mulheres seriam melhores trabalhando como analistas, as mulheres seriam menos capazes de programar. Entre outros achados, pude notar que a discriminação das capacidades técnicas das mulheres cria uma divisão sexual do trabalho dentro do setor: enquanto eles cuidam da parte hard da TI, elas cuidam da soft. Algumas das mulheres com as quais conversei sofriam porque não conseguiam se realizar profissionalmente: elas eram sutilmente impedidas de programar porque sempre eram realocadas nas tarefas de gerenciamento de equipe e de relacionamento com o cliente – o que não as levava, no entanto, a ganhar mais do que eles. Uma frase comum entre os profissionais do setor é que “elas sabem como atrair novos clientes, sabem como manter seu interesse vivo”.

Leia também no Ada: Esposas do Silício

Não demorou para eu perceber que o papel sedutor que se atribuía às mulheres, papel este essencial para a manutenção dos negócios de uma empresa, não apenas alimentava a desconfiança que seus colegas possuíam nas suas capacidades técnicas como também respingava nas relações de trabalho cotidianas. Insinuações homofóbicas e histórias de assédio sexual sempre apareciam nas entrevistas com as mulheres. “Mas são mais piadinhas, a gente tem que aprender a conviver”, a maioria dizia. A homofobia se apoiava na ideia preconceituosa de que mulher que atua nesse setor é masculinizada e, portanto, lésbica. O assédio se apoiava na ideia de que uma mulher que está em um ambiente masculinizado está disponível.

Muitas das minhas entrevistadas contaram como usavam táticas muito específicas para apagarem a referência de que eram mulheres: seja banindo elementos estéticos que algumas gostavam de usar, como esmalte, maquiagem, joias, roupas florais e coloridas; seja adotando uma personalidade mais dura e menos emotiva; seja anulando a construção de uma relação de amizade e companheirismo para evitar qualquer possibilidade de interpretação errada dos homens. Elas faziam, como define a filósofa Judith Butler, uma performance de gênero que apagava as marcas que costumamos atribuir ao universo feminino e conseguiam, assim, ter sobrevida em um espaço altamente masculinizado.

Algumas das meninas contaram que mentiam sobre ter namorados para mostrar que eram “sérias” e que evitavam falar sobre paquera mesmo quando estavam fora da empresa para que seus colegas não interpretassem suas falas erroneamente e as lessem como disponíveis. Muitas me diziam que mesmo quando apagavam o gênero no local de trabalho, sofriam, porque aí eram vistas como “um deles” e incluídas nas piadas sexistas e nos comentários grosseiros sobre as mulheres do escritório.

As armaduras que elas construíam para sobreviver no dia-a-dia de trabalho eram uma reação ao ambiente machista e discriminatório no qual atuavam e ao qual buscavam se adaptar da melhor maneira possível. Mas essas estratégias, que à primeira vista podem parecer como a solução da lavoura ao leitor mais apressado, são a tradução de um ambiente corporativo que pouco se preocupa em equalizar as relações de gênero no trabalho e a combater o preconceito, a discriminação e o assédio.

As acusações de sexismo ao Github, que vieram à tona nas últimas semanas, evidenciam esse modelo de gestão de recursos humanos nas empresas: apesar do desligamento do Presidente da empresa após as denúncias de discriminação de gênero, não houve preocupação em tornar a história mais transparente nem ao menos foi exposto um novo plano de conduta empresarial que evitasse que casos como aquele se repetissem. Para abafar o problema, ele foi particularizado, tratado como exceção, uma fórmula que pode ajudar a salvar a reputação da empresa emergencialmente, mas que é muito pouco efetiva no combate às raízes do problema.

Outro caso recente envia ao público uma mensagem semelhante: a violenta agressão pública do CEO da RadiumOne à sua namorada, sua continuidade no cargo e na condução dos negócios da companhia. Mais uma vez, o caso foi resolvido com seu afastamento apenas quando a pressão pública cresceu sobre a empresa e sobre seus parceiros de negócios – e oito meses após o caso ter sido divulgado. Apesar de o caso de violência ter ocorrido fora da empresa, que mensagem ela pode passar às mulheres que nela atuam quando decidem que não há uma crise de imagem quando seu CEO trata uma mulher com violência? O que se pode esperar da condução de um caso de violência de gênero dentro do ambiente de trabalho de uma empresa que envia uma mensagem como essa?

Apesar da solução encontrada nos dois casos, é importante pensarmos em como ela foi fruto da pressão de fora e do quanto foi gerenciada como uma crise de imagem. A maneira como foram conduzidos enquanto exceções, desvios raros de conduta e casos isolados só ajuda a reforçar a ideia de que os constantes casos de discriminação e a desigualdade de gênero presentes no mundo corporativo são fruto de um delírio coletivo. O remédio para estes problemas está longe de ser solucionado com pedidos de desculpas como os divulgados por essas empresas.

Admitir que a diferença entre os sexos ainda gera desigualdade no mercado de trabalho e construir políticas reais de combate ao assédio e à discriminação seriam a única maneira de essas e outras empresas construírem um ambiente de trabalho equitativo e igualitário. Uma pena que ambas não tenham aproveitado a oportunidade.

Bárbara Castro*Bárbara Castro é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e desenvolveu parte de sua pesquisa na Open University, na Inglaterra. Em sua tese, estudou as relações de trabalho e gênero no setor de TI.

Esposas do Silício

Por Flávia Stefani*

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ilustração por Thiago Thomé*

 

Do nosso grupo de tech wives, eu diria que Anne é a mais bonita. O que para ela não faz muita diferença —o que Anne considera importante mesmo é a sua carreira. Ela trabalha em uma empresa de aparelhos médicos de ponta de linha, está estudando para se tornar uma neurocirurgiã em Stanford (após ter feito duas outras faculdades) e é filha de um dos principais cirurgiões de câncer dos EUA. Aos 28 anos, Anne é também a mais nova do grupo. O restante de nós tem aproximadamente a mesma idade, entre 30 e 33 anos, e a mesma ocupação: ex-alguma coisa. Denise é ex-relações públicas da Slate. Julie é ex-empresária de médio porte. Eu sou ex-redatora publicitária. Somos diferentes como bananas e maçãs, mas cumprimos o mesmo papel que milhares de outras mulheres no norte da California: nossos maridos trabalham em empresas de tecnologia no Vale do Silício. E nenhuma de nós tem emprego fixo.

As middle class Silicon Valley housewives, como secretamente me refiro a nós quatro, conheceram-se em Nova York, em algum dos poucos eventos de trabalho da Apple nos quais os cônjuges ou plus one eram bem-vindos. Na minha experiência, eventos assim são raros: festas de final de ano, e, se muito, um aniversariozinho. As demais atividades que as empresas de tecnologia promovem são restritas a funcionários. Semana passada, Fábio, meu marido, aprendeu a imprimir em letterpress e depois fez um tour de duas horas pelos pubs do Tenderloin, bairro de São Francisco famoso pela comida “étnica” (como é chamada a culinária estrangeira) e pela quantidade alarmante de moradores de rua. Há alguns meses, ele foi voluntário na cozinha de um dos “sopões” mais antigos de São Francisco: passou o dia picando cenouras, aipo e batatas. No fim da tarde, ele se reuniu com os colegas em um dos pubs e bebeu e comeu por conta da empresa. Nenhum cônjuge foi convidado.

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Atividades assim, ou outings, como eles dizem, acontecem mês sim, mês não, e são diversas demais para categorizar: bourbon brunchs, visitas a museus, aulas de arco de flecha, curso de cerâmica, exotic food-tastings. Um programa mais divertido que o outro ao qual todo funcionário deve comparecer sozinho, sem a família. O meu interesse por políticas corporativas é pequeno demais para averiguar se essa restrição existe por motivo de custos ou se o principal objetivo de tais atividades é a interação entre os funcionários, o que talvez justifique a ausência de cônjuges. Além disso, eu sempre trabalhei em agências de publicidade, onde eventos como esses não existem, logo não tenho uma explicação oficial. Só sei que a mensagem é clara: “Misturem família e trabalho somente na festa de fim de ano; no restante do tempo, vocês são nossos.” Dependendo do cargo do funcionário na empresa, a interseção família X trabalho não acontece nem mesmo em tais festas. Eu me lembro de ver Gaby, mulher de Richard, chefe do meu marido, na confraternização de Natal de 2013. Ela passou a noite em um lado do salão, bebendo em companhia da secretária do escritório, enquanto Richard se divertia e contava piadas aos subordinados do outro lado.

Além das atividades corporativas, que alienam, ou, dizendo de uma maneira mais publicitária, enriquecem a vida pessoal e o senso artístico de apenas uma das partes do casal, há um outro elemento, mais sutil, que distancia os cônjuges do Vale do Silício: o segredo. À medida que o funcionário de uma empresa de tecnologia vai progredindo na carreira, ele vai tendo acesso a informações confidenciais sobre o lançamento de produtos e serviços, informações que ele é obrigado por lei a não compartilhar com mais ninguém. Se outras famílias seguem essa regra à risca eu não sei dizer, mas aqui em casa é assim: o meu marido não pode discutir determinados assuntos comigo. Por exemplo: o trabalho que tem feito nos últimos seis meses. Voltando para casa após uma semana longa, Fábio não pode me contar nada sobre a nova ferramenta que passou centenas de horas aperfeiçoando. De maneira quase desapercebida e “para a nossa proteção”, o trabalho que ele realiza, que é o motivo pelo qual nos mudamos para a Califórnia, acaba se colocando entre nós. O segredo é tamanho que eu não posso sequer visitar a sala de trabalho dele. Mandei flores outro dia, mas nunca saberei se deixaram o ambiente mais bonito porque eu não faço ideia de como seja o ambiente. Longe de ser uma característica exclusiva das empresas de tecnologia —imagino que advogados de pessoas famosas, pessoas ligadas a chefes de estado, VPs de grandes laboratórios, donos de redes de televisão, dentre outros, também tenham que velar por certas informações confidenciais—, a expressão “casado com o trabalho” faz bastante sentido no Vale do Silício. De atividades extracurriculares a informações sigilosas, a maior parte dos esforços do meu marido vai sem dúvida para a empresa onde ele trabalha —antes a Apple, hoje o Twitter.

Quando o time de design de iAds, a plataforma de publicidade móvel da Apple na qual o Fábio trabalhava, foi inteiro transferido de Nova York para o Vale do Silício há dois anos, nós, as então tech wives do Brooklyn, passamos a fazer parte de um time mais amplo: o das tech wives do norte da Califórnia. A diferença é que agora, além dos fatores desemprego e marido geek em empresa de tecnologia, nós temos uma outra renúncia em comum: a vida estimulante que tínhamos em Nova York. Julie e Denise têm mais razões para sentir falta da cidade do que eu; ambas nasceram e cresceram lá, ambas têm família em Manhattan. Mas eu fui certamente a que mais se debateu com a mudança. Eu já vivia em Nova York há quase cinco anos quando conheci meu marido. Nova York não é a norma para mim, como imagino que seja para elas: eu trabalhei em outras cidades antes, em outros países, inclusive, e acordar lá todos os dias quando eu poderia acordar em qualquer outro lugar do mundo era uma escolha consciente, e que me fazia feliz. A principal motivação para continuar em um emprego que eu sabia que não me levaria a lugar nenhum era o fato de que tal emprego me permitia viver na cidade dos meus sonhos. Eu nunca quis nada na vida como quis envelhecer lá, logo a ideia de partir para o oeste aos 28 anos para acompanhar o meu marido não foi exatamente bem-vinda. Foi a primeira vez que eu falei em divórcio. Não foi a última.

A vida de uma tech wife californiana que trabalha em casa é mais ou menos assim: você não trabalha em casa. O seu trabalho é ocupar o tempo com qualquer atividade que ajude a não jogar todas as frustrações no casamento. Yoga. Crossfit. Aulas de filosofia. Workshop de meditação. Você lê o dobro do que normalmente leria se tivesse um emprego, em parte porque tem mais tempo para ler, em parte porque é importante que as outras pessoas pensem que “Ok, ela fica o dia todo em casa, mas pelo menos ela continua a par das coisas.” Você passa mais tempo na Internet do que é saudável para qualquer ser humano. Você transforma a sua casa em um mural do Pinterest. Você chama os cachorros da vizinhança pelo nome. Você se pergunta se ter um filho ajudaria a atribuir mais valor ao que faz. Ou, no caso, ao que não faz —você não sabe mais a diferença. Você sente saudade da moça que trabalhava catorze horas por dia, que pagava sozinha o próprio aluguel, a mulher que não era casada com ninguém, que não tinha que se sacrificar por ninguém. Em algum momento da transição de redatora em Nova York para dona de casa do Vale, essa mulher adormeceu. Não é beijo de sapo ou príncipe encantado que irá despertá-la, mas uma carta do departamento de imigração dos Estados Unidos.

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Eu não posso voltar a trabalhar, no Vale ou em qualquer outra cidade americana, enquanto o meu greencard não sair. A esperança dos advogados de imigração do Twitter é que saia esse ano, mas estou há tanto tempo nesse exílio que às vezes sinto que a minha realidade nunca mais vai mudar. Existe vida inteligente em outros planetas? Que dia eu vou poder voltar a trabalhar? Será que alguém vai querer me contratar após todos esses anos? Perguntas que só o tempo será capaz de responder.

Se eu pudesse voltar a trabalhar, não seria em uma empresa de tecnologia. Eu sou uma escritora. Entrar para o time dos geeks, ser CEO da Apple, Google ou Twitter nunca foi o meu sonho. Mas é o de muitas garotas que conheço. Algumas se atrevem, inclusive, a verbalizar esse desejo. Sarah, de 29 anos, é designer no Twitter desde a fundação da start-up, em 2006. Semana passada, por iniciativa dela, todo o departamento de design e pesquisa do Twitter se reuniu por uma hora para discutir a questão da liderança feminina na empresa, que atualmente é bastante desigual. “Eu fico feliz por poder levantar essas questões lá dentro,” ela me disse ontem enquanto almoçávamos. “Algumas empresas aqui no Vale instruem os funcionários a não trazer certos assuntos à tona pelo desconforto que eles podem gerar.” Se o meu maior desafio hoje é esperar pelo greencard, o desafio de moças como Sarah parece ser um pouco mais árduo: elas precisam forçar a própria entrada em um ambiente que claramente não as trata com igualdade. Dos tempos da corrida do ouro à IPO do Twitter no ano passado, a Califórnia, com toda a sua beleza natural, ainda é um vale (ou deserto) hostil para as mulheres ligadas à indústria de tecnologia.

Eu saio de casa apressada para me encontrar com Julie em uma praça no centro da cidade. Marcamos de tomar um café juntas até que o ônibus que diariamente leva e traz os funcionários do Google chegue ao ponto, a duas quadras dali. Dave, o marido de Julie, vem nesse ônibus. Eles irão juntos a uma apresentação de balé no city hall. Eu pergunto em tom de brincadeira o que Julie fez para conseguir esse milagre, já que não é segredo para ninguém que Dave odeia balé. “Eu abri mão da minha vida para estar aqui com com ele,” ela diz enquanto sopra a bebida. “Ele pode passar duas horas comigo no balé.”

 

flaviastefani * Flávia Stefani é uma escritora completa e corajosa, co-fundadora da e-mag Confeitaria, questionadora nata, mulher colorida e devoradora de letras. Hoje mora em São Francisco, depois de ter passado por São Paulo, Nova York e Londres.

Foto: arquivo pessoal.

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.