A mulher que quis botar ordem no Reddit

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Por Karla Lopez*

Já ouviu falar do Reddit? É uma salada de bobagens divertidas, como vídeos de gatinhos, misturada com links sérios, como matérias sobre a corrida presidencial americana. Você pode nunca ter entrado no site na vida, mas o conteúdo dele já apareceu no seu Facebook, no seu site preferido, na TV…

Essa fonte inesgotável de entretenimento é o que faz do Reddit um dos sites mais populares da web, acima do Netflix e do Pinterest. Com mais de 170 milhões de usuários (os Redditors), o site conta com milhares de seções (os SubReddits) que dividem o conteúdo em temas que vão desde de “Tatuagem” até “Coisas que pensei no chuveiro”.

O ingrediente mágico do Reddit é uma comunidade forte e ativa, que vota para dar visibilidade aos artigos que eles acham merecer ganhar a primeira página e gera em torno de sete bilhões de visualizações de páginas por mês. Só que lá todo mundo é anônimo. Essa é a grande força do Reddit: enquanto o Facebook tem buscado cada vez mais reforçar a identidade real dos usuários, o Reddit está no lado oposto — lá todo mundo pode fazer e dizer o que bem entender.

Por causa disso, há seções como “Ódio as mulheres”. “Batendo em nerds”, “Racismo”, “Abuso de animais”, entre outros ainda piores e com nomes menos óbvios. Nessas seções você encontra fotos, vídeos e relatos. Dá vontade de vomitar.

A desculpa dos fundadores é a boa e velha “Seres humanos serão humanos”, associada ao direito da liberdade de expressão.

Tudo bem, mas o Reddit é um meio com influência: o que aparece lá vira post em blogs, que vira hashtag no Twitter, que depois é falado e repetido incessantemente na TV, na mesa do bar, no escritório… Quanto mais lixo flutua por lá, mais gente é exposta não só a esse discurso de ódio, mas a coisas ilegais como pornografia infantil e incitação à violência.

Até que Ellen Pao veio para botar ordem na casa.

A executiva ficou famosa no Vale do Silício ao processar um famoso fundo de investimento de risco por discriminação por gênero, pedindo 100 milhões de dólares de indenização. O valor foi calculado com base em salários, promoções e bônus que ela alega ter perdido para colegas homens e brancos com a mesma posição, mas com performance abaixo da dela.

Ellen é formada em engenharia elétrica em Princeton e fez Direito e MBA em Harvard. Mas nada disso a protegeu das mesmas baboseiras que você ou uma amiga já deve ter ouvido no escritório.

No julgamento, Ellen disse ter sofrido assédio sexual e moral como retaliação por terminar um relacionamento com um colega de trabalho casado.

Segundo ela, a equipe costumava dizer que “mulher corta o barato” no trabalho. (Confesso que já ouvi essa várias vezes).

A firma, claro, contou uma versão diferente: disse que ela era não era boa no que fazia, que ela achava ser mais do que realmente entregava e que não sabia trabalhar em equipe. Agora imagina trabalhar em equipe com um time que fica dizendo que você “corta o barato” porque é mulher? E ser produtiva em um trabalho em que um chefe quer te punir por não ser mais amante do amigo dele? Difícil.

O julgamento contou com seis mulheres e seis homens e eles decidiram em favor do empregador, o que eu achei super triste, mas pelo menos o circo todo acendeu várias discussões sobre sexismo no Vale.

Ellen começou a trabalhar no Reddit em 2013 e virou CEO interina em 2014. Ela tomou decisões muito legais, como acabar com negociação de salário na contratação dos empregados, baseada em alguns estudos que dizem que mulheres sempre saem perdendo nesse tipo de situação.

Depois de oito meses na função, ela começou a expandir a audiência do site além do jovem americano branco, que é o público mais clássico do site. Isso gerou revolta nos usuários, que começaram uma campanha de insultos baseados em sexo e raça, além de comparações com Hittler e uma petição com mais de 200 mil assinaturas exigindo sua demissão.

O Reddit é uma mídia online como qualquer outra, vive de publicidade. A intenção dos executivos e investidores é lucrar, mas como vender publicidade pra esse tipo de conteúdo? Quem vai querer anunciar na seção “Odeio Preto” ou “Mulher é tudo vagabunda”? Além de ser imoral e ilegal, é ruim para os negócios, e $$$ é uma língua o Vale do Silício entende muito bem.

Com essa diretriz no começo do ano Ellen liderou o fechamento de algumas seções controversas, como o subreddit “Transfag” (que insultava transsexuals) e “fatpeoplehate” (que insultava pessoas gordas). No começo de julho Victoria Taylor, diretora de comunicações responsável pela seção de perguntas e respostas (uma das mais populares do site) foi demitida de forma muito estranha, e com isso os protestos ficaram ainda inflamados, pintando uma imagem de que sob o comando de Ellen, o Reddit não se preocupava mais com a comunidade de usuários. Os Redditors chegaram a fechar partes populares do site, em protesto à demissão de Victoria, e a culpa toda, segundo eles, foi de Ellen.

Ninguém pode dizer que os ataques foram surpresa. O Reddit é famoso por dar tração a campanhas para desmoralizar mulheres, como a feita contra a crítica de videogames Anita Sarkeesian e a desenvolvedora Zoe Quinn, que recebeu o nome de “Gamergate”.

Vamos combinar que um board que permite que uma empresa vire um viveiro de racismo e sexismo não ia ser capaz de proteger uma CEO mulher e oriental da pressão dos usuários, né? Foi o que aconteceu. Ela foi demitida.

Nesse momento está a maior confusão. Yishan Wong, ex-CEO, acusa um dos fundadores te ter demitido a diretora de comunicações Victoria Taylor e se esconder atrás de Ellen Pao, para que ela levasse a culpa. E onde ele postou essa e outras acusações contra a empresa? No próprio Reddit. E a imprensa também está perdidinha no meio do fogo cruzado.

A pergunta que fica é: será que ela foi queimada em praça pública por fazer o que nenhum homem antes dela teve colhões, que era colocar freios nos trolls do Reddit?

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*Karla Lopez é paulistana, corintiana e vive andando. Queria ser programadora, mas virou radialista. Parte teimosia, parte acaso, acabou co-fundadora de uma empresa de impressão 3d. Está no Vale do Silício há alguns anos mas ainda não entende nada.

Foto: Christopher Michel/Flickr

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A mulher que alguns gamers amam odiar

*Por Renata Honorato

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Anita Sarkeesian causa emoções fortes. No dia 13 de outubro, a Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos, recebeu um email afirmando que a instituição seria palco do maior massacre da história do país caso ela fizesse sua palestra no centro estudantil. Ela buscou proteção da polícia, que disse não poder evitar a entrada de pessoas com armas na universidade, por conta de uma lei local. Diante de uma possível tragédia, Anita desistiu do evento.

O que Anita fez para receber esse tipo de ódio? Ela defende a igualdade de gênero nos videogames.

Ela é a responsável pelo canal de Youtube Feminist FrequencySua série de vídeos “Tropes vs. Women in Video Games” discute a imagem da mulher nos jogos eletrônicos e faz perguntas como: é correto que figuras femininas sejam representadas frequentemente como uma princesa em busca de resgate ou como uma garota de programa que deve ser espancada pelo protagonista? O debate alimentado por Anita anda irritando alguns “entusiastas”, que escondidos sob o anonimato usam a Internet para expor o seu ódio e fazer ameaças de morte, que estão sendo investigadas pelo FBI.

O episódio de Utah não é isolado. Em março, Anita recebeu um prêmio durante o Game Developers Choice Awards, considerado o Oscar dos videogames, pela sua contribuição à indústria e pela importante discussão que levanta a partir de seus vídeos e palestras. Na ocasião, os organizadores do evento receberam um e-mail dizendo que uma bomba seria detonada durante a premiação. Em agosto, Anita fugiu de sua própria casa depois que seu endereço foi divulgado no Twitter por um usuário que prometeu matá-la. Isso sem falar nos incontáveis jogos online nos quais a ativista aparece sendo estuprada e violentada em simulações absurdas. 

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17 mulheres que fizeram da Internet o que ela é hoje

Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

Ela não é a única mulher a desagradar parte da comunidade gamer. A desenvolvedora de games Zoe Quinn viu sua vida se transformar em um inferno por causa de um boato que dizia que ela teria transado com jornalistas especializados em games para receber boas avaliações para o seu jogo. A fofoca foi o gatilho para que “justiceiros” se movimentassem na rede e orquestrassem uma onda de ataques surreais e absurdos contra ela. Fizeram piadas sobre estupro no Twitter e a ofenderam de forma totalmente irresponsável em fóruns e redes sociais.

Anita pode ter cancelado sua palestra em Utah, mas ela deixou claro que não pretende parar. Em seu Twitter, ela escreveu: “Vou continuar meu trabalho. Vou continuar a falar. Toda a indústria de games tem que se posicionar contra o assédio contra mulheres.”

Os games, como qualquer outra manifestação cultural de arte, expressam os valores de seus criadores. E isso é realmente algo preocupante. Os mais otimistas, contudo, acreditam em mudança e até afirmam que os jogos caminharão na mesma direção do cinema, que também enfrentou, décadas atrás, os mesmos dilemas da igualdade de gênero. Eu torço para que eles estejam certos. E você?


renatahonorato*Renata Honorato – Jornalista, cobriu por uma década o mercado de games. Depois de ouvir inúmeras vezes a frase “vai lavar louça”, pensou bem, comprou um máquina de lavar a dita-cuja e continuou escrevendo sobre “joguinhos”, agora com mais tempo, para pagar as contas.

Foto: Divulgação Feminist Frequency

O que é esse tal de Ello?

Brasileiro ama uma rede social. É tão lugar-comum para a gente que nem pensamos muito nisso, mas os brasileiros passam mais tempo em redes sociais que qualquer outra nacionalidade (13,8 horas por mês) e são os que mais compartilham conteúdos (71% dos usuários), segundo dados do SurveyMonkey divulgados pelo TechTudo. Basta dizer que Orkut virou verbo aqui, e em boa parte do resto do planeta as pessoas não fazem ideia do que significa. E nos dias finais do bom e velho Orkut, surge o Ello, uma nova rede social surgiu para fazer a gente se coçar de vontade de ir para lá.

(Aliás, como pronuncia? Nos Estados Unidos estão chamando de “élou”, mas paulistana italianada que sou, sempre leio como “éllo”. Ah, e se você já estiver por lá, siga a gente.)

O Ello chama a atenção por ter um design limpo e prometer não ter anúncios. Ganhou notoriedade como o anti-Facebook, especialmente desde uma polêmica com a comunidade LGBT, já que o Facebook permite apenas o uso de nomes reais em perfis pessoais, nada de apelidos ou nomes artísticos.

A pendenga foi resolvida, mas com isso, o Ello ganhou impulso e está recebendo cerca de 40.000 pedidos de convite por hora*. A gente adora um clube que não nos aceita como sócios.

A tela de entrada do Ello: só com convite.
A tela de entrada do Ello: só com convite.

Como o Facebook e o finado Orkut no seu início, só dá para entrar no Ello com convite, seja por alguém que já está lá ou pedindo no site. Daí, você pode seguir outros perfis, separando por duas categorias particulares: Amigos (“Friends”) ou Barulho (“Noise”). Quem você segue não fica sabendo em que categoria você o colocou. Basicamente você pode postar texto ou fotos, responder a outros perfis como no Twitter, e só.

O Ello ainda não tem aplicativo para smartphone, e como ainda está em fase de testes, a navegação pelo iPhone é bem chatinha e cheia de pequenos erros. No computador, é mais tranquila, mas navegar pelo Ello, configurar seu perfil e postar conteúdo não são processos muito intuitivos. Passei uns dez minutos tentando descobrir como postar um gif, caixas extras de texto abriam que eu não entendia como fechar. Um especialista em usabilidade postou uma crítica extensa ao design do Ello no Medium*.

A promessa de não ter anúncios também é atraente à primeira vista, mas a verdade é que se uma rede social vai ser gratuita, ela precisa ter um modelo de negócios. Não sai de graça manter um site: há custo envolvido em manutenção de servidores, salários dos programadores, gerenciamento do site etc. Se um site ou rede social não custa nada a seus usuários, isso normalmente significa que o produto são eles mesmos.

O manifesto do Ello: "você não é um produto". Certo, então qual é o produto?
O manifesto do Ello: “você não é um produto”. Certo, então qual é o produto?

O Ello diz que a ideia é manter os dados de seus usuários privados e cobrar por funcionalidades extras da rede. Mas você pagaria para manter um álbum de fotos no Ello, quando há tantas opções gratuitas disponíveis? Ou dar likes nos posts de seus amigos quando isso é tão fácil no Facebook?

Não vou dizer aqui que eles estão mentindo na cara dura e que mais para a frente vão colocar anúncios. Mas a possibilidade de cobrar por funcionalidades extras em uma rede social ainda nascente não me parece plausível e muito menos que convenceria um fundo, que espera retornos altíssimos de seu capital, a investir 435 mil dólares no Ello*. Este texto do YouPix investiga esta questão mais a fundo.

O Ello vai ser o novo Facebook? Ainda é muito cedo para dizer. Ele certamente provou que existe apetite e mercado para redes sociais além do gigante azul do tio Mark. Se o Ello vai conseguir destroná-lo, é outra história.

*links em inglês

Créditos das imagens: Reprodução

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Secret, privacidade e a web profunda

Por Eden Cardim*

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crédito da foto: Nuno Martins

Já vivemos na segunda geração de redes sociais e temos uma certa familiaridade com elas. A principal característica dos usuários dessas redes é a construção de uma espécie de personagem digital que conversa com um público específico. Quase todos fazem isso em algum nível, alguns mais, outros menos. A boa construção do personagem é o que determina o seu sucesso na rede, inclusive, os de maior sucesso são fictícios e até certo ponto anônimos, tais como “OCriador e a “Dilma Bolada“.

Essa semana, descobri e instalei o aplicativo Secret no meu Android e fiquei instantaneamente maravilhado. A premissa é simples, trata-se de uma rede social, como outra qualquer, exceto pelo fato de que todos os usuários são anônimos. A única informação divulgada a seu respeito é se você pertence ao meu grupo de amigos de facebook, se é um amigo de amigo e a sua proximidade. O anonimato tem mostrado um efeito radical no conteúdo publicado pelos usuários, que eu atribuo ao fato de que a construção do personagem simplesmente não existe. Se o grande diferencial do twitter é que ele obriga as pessoas a serem concisas e objetivas com suas publicações, agora é possível recriar o personagem inteiro a cada publicação, ele nasce e morre ali mesmo, junto com o post. Segundo o co-fundador David Mark Byttow, ex-funcionário do Google, o fato de você saber que são amigos falando coisas que eles nunca te contariam caso fossem identificados, é o grande diferencial do Secret. As pessoas têm usado o app com diversos propósitos: como confissionário, como lugar para fazer perguntas e dar respostas a questões controversas, e é claro, para publicar, falar e curtir conteúdo adulto. Afinal de contas há um ditado popular no mundo digital que diz que tudo na Internet tem um único propósito: sexo.

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Moralismos à parte, o anonimato cria uma realidade completamente nova para os usuários de Internet e a popularização do aplicativo deixa claro que o poder de se comunicar irrestritamente é uma necessidade humana que ainda tem muito espaço para ser preenchida. Com tão pouco tempo de vida, o aplicativo está gerando debates acalorados sobre privacidade e  liberdade civil na Internet. Inclusive já existem várias denúncias de difamação  girando em torno de publicações que expõem adolescentes, principalmente meninas, como alvo de um tipo de bullying muito mais agressivo e destruidor por ser anônimo. Além disso, não é difícil cruzar com posts que fazem apologia à homofobia, racismo, pedofilia e tráfico de drogas. As brigas judiciais envolvendo o app podem inaugurar a aplicação das leis de privacidade do Marco Civil no Brasil.

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Apesar dessa febre por aplicativos que nos tornam “invisíveis”, a tendência ao anonimato  é bastante antiga. A informação na Internet é, na verdade, parecida com um iceberg; a ponta é o conteúdo comum a qual todos tem acesso no dia-a-dia, chamada de WWW (World-Wide Web), mas o grande volume de informação que trafega na Internet está escondida sob a superfície e se chama “Deep Web” (web profunda). Estima-se que a Deep Web é cerca de 500 vezes maior que a WWW em volume de dados, que não são indexáveis pelos mecanismos de busca tradicionais como Google, Bing e Yahoo. Boa parte da informação está distribuida em redes par-a-par (peer-to-peer ou P2P), que basicamente criptografa e replica os dados entre vários computadores de forma que nenhum indivíduo específico seja o único responsável pelo armazenamento e distribuição de informação.

Hoje em dia a forma mais segura de navegar pela Internet anonimamente é usando o TOR, um browser que permite que você acesse qualquer website sem que ninguém saiba de onde vem o acesso. Trata-se de um browser, similar ao Google Chrome ou Safari, porém ele implementa uma tecnologia adicional que permite seu uso como intermediário para outras pessoas. Sempre que você acessa um website, a informação é dividida e criptografada, trafegando por diversas máquinas de outras pessoas que também estejam usando o browser do TOR. O caminho que a informação percorre é escolhido aleatoriamente a cada acesso e a cada clique, por isso o site reconhece o seu acesso como se tivesse vindo de um lugar diferente. O mesmo se aplica ao caminho inverso: você pode abrir um website anônimo que só será acessível dentro do TOR e ninguém saberá onde ele está hospedado. O anonimato fornecida pelo TOR é tão eficiente que um dos websites da web profunda mais poderosos, chamado “Silk Road“, ficou conhecido como o “Amazon das drogas ilícitas”. O FBI levou 3 anos para encontrá-lo. Durante esse período o serviço arrecadou $1,2 milhão por mês e só foi encontrado porque seu dono entrou por acidente numa rede comum fora do TOR.

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Dessa forma, informações que seriam geralmente controversas podem ser consultadas sem o constrangimento que as pessoas normalmente sentiriam. É possível criar pseudônimos em fóruns de discussão pública tendo a certeza de que ninguém jamais conseguirá rastrear o originador das publicações.  O potencial é enorme, já que as pessoas podem pesquisar a respeito de assuntos considerados tabu sem serem discriminadas, tal como sexualidade, drogas, doenças e podem até formar grupos de recuperação de anônimos online. Mesmo em casos mais simples, o anonimato também é útil quando se usa Internet em locais públicos, para garantir que sua informação não será monitorada ou usada para outros propósitos.

A sensação de liberdade obtida pelo anonimato muda completamente a perspectiva da busca por informação. Como ainda estamos compreendendo as implicações desse tipo de comunicação, existe um debate acirrado a respeito do uso dessas tecnologias, elas podem ser usadas de maneira perfeitamente inócua e também de maneira ilícita. Cabe a você definir os limites de até onde vai sua própria moralidade e sempre fazer bom uso da tecnologia como entender melhor.

 

eden cardim*Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

Por que não vamos mais escrever sobre o Tinder

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O Ada nasceu há alguns meses da nossa vontade, Diana e Natasha, de ser útil a um grupo que não tinha voz nos atuais meios de comunicação: a mulher que usa tecnologia. Queríamos prestar serviço e ajudar na reflexão de como o mundo digital impacta o dia a dia e as nossas relações.

Tínhamos percebido que alguns serviços e aplicativos estavam abrindo novas possibilidades em várias frentes para todas nós: estamos mais produtivas, mais conectadas, mais informadas. E um dos serviços, lá atrás, que chamou a nossa atenção para isso foi o Tinder.

(Momento transparência: a Diana me apresentou o aplicativo , eu usei durante meses, até conhecer meu namorado ali mesmo e por motivos óbvios, deixar de usá-lo. Ou seja, podemos ser consideradas ~cases de sucesso~ do Tinder.)

O app transformou todo o processo de conhecer e paquerar alguém pela internet em uma grande brincadeira, e deu mais voz e participação às mulheres que serviços anteriores. Sua popularização também tirou um pouco do estigma que ainda perdurava nos chamados “sites de encontros”.

A gente sabe, pelos nossos números de audiência, que o app é popular e que todo mundo, se não usa, adora falar dele. A própria ideia de poder conhecer alguém em um “catálogo de gente” (como eu, Natasha, gosto de me referir ao Tinder) é extremamente sedutora, ainda que canse depois de um tempo.

Até que  chegou aos nossos ouvidos a notícia que o Tinder estava sendo acusado de discriminação e assédio sexual. “Ai, mais um”, pensamos. Como tínhamos publicado há pouco tempo este artigo ótimo da Bárbara Castro, achamos que não valia a pena entrar no assunto de novo. E mais uma coisa: gostamos de separar o produto da empresa. O dono pode ser um imbecil, mas o produto é bom, inovador e popular, então vamos continuar falando dele e prestando serviço, certo?

Errado. Porque depois de um tempo descobrimos  que Whitney Wolfe, a ex-vice-presidente de marketing (aos 24 anos!) que está processando a empresa, perdeu o título de cofundadora porque ter uma mulher tão jovem como sócia “fazia o Tinder não parecer uma empresa séria”. Para quem lê em inglês, aqui está a queixa completa de Whitney.

Segundo a ação judicial, muito do que faz o Tinder ser tão popular com as mulheres (mais do que a maioria dos sites e serviços online de namoro) são ideias trazidas por essa menina de 24 anos que, por ter se envolvido romanticamente com seu chefe, perdeu sua participação societária no negócio.

Os sócios se defenderam em um comunicado dizendo que a queixa da moça tem uma série de imprecisões e erros, e que nunca discriminaram nenhum funcionário por idade ou gênero, mas não ofereceram provas nem contra argumentos às acusações.

É claro que lamentamos (até porque o Tinder sempre bomba os nossos acessos) mas ficou difícil separar o produto de seus criadores. Se o Tinder é um grande sucesso entre as mulheres – conectadas, tecnológicas ou não -, temos certeza que é porque muitas delas contribuiram com processo de criação e crescimento da empresa. Seja escrevendo o código mágico desse aplicativo que fez todo mundo dar uma chance ao algoritmo, seja indicando o poder do cardápio humano para esquecer um coração partido. Sem mulheres (lindas, feias, gordas, casadas, velhas e novas) os matches não aconteceriam, então nos parece no mínimo irônico menosprezar o gênero que compõe quase 50% da sua base de usuários.

Então aqui vai o nosso recado, querido Tinder: se uma “empresa séria” pode prescindir de mulheres na sua liderança, vocês estão criando uma tecnologia burra e inconsistente. Não vamos incentivar um boicote geral ao aplicativo, porque isso vai muito da consciência de cada uma. De nossa parte, vamos continuar acompanhando a cobertura do caso, mas não iremos mais falar do app no Ada até ficar claro o que aconteceu.

Um abraço,

Natasha e Diana

Foto: Diana Assennato Botello

O Tinder no segundo tempo

por Maíla Sandoval*

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ilustração por Thiago Thomé*

Tudo começou quando uma amiga entrou no Blender no ano passado. Eu sempre fui dessas de não entender casais cibernéticos. Eu era até competente em manter contato pela internet, mas me vangloriava por conhecer pessoalmente todo mundo em meu Facebook.

Então essa minha amiga decidiu que queria namorar e entrou no Blender. Eu, cética decidi propor uma aposta de que aquilo era um grande bacanal e que eu podia provar. Criei meu perfil. Isso foi perto do Carnaval. De início, foi frustrante. Ninguém dali me interessava o suficiente para engajar uma conversa. Percebi que a dancinha do acasalamento ali seria muito diferente das que tinha testemunhado no Grindr dos meus amigos.

Com o acesso liberado entre todos os perfis, sem qualquer tipo de filtro, comecei a receber mensagens deste tipo:

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Acontece que por mais que não recusemos uma baixaria de qualidade, acredito que nós, mulheres (ou pelo menos eu e minhas amigas), não conseguimos aceitar abordagens que subjuguem nossa inteligência ou que, simplesmente, denunciem o “copie e cole”.

Não conseguia interagir com ninguém. Argh. Mas eu tinha uma teoria para provar. A aposta, eu já tinha perdido.  Escolhi um perfil mais ou menos agradável e iniciei uma conversa. O papo foi bem, promovido ao Whatsapp, e depois de um mês de esparsas conversas marcamos um encontro e, agora, encurto a história dizendo que fomos ao Empanadas e que não rolou. (Dica para os rapazes: atualize suas fotos).

Desisti de provar qualquer teoria, online dating não era pra mim, sou do tipo xavequeira cara a cara. Até que… Fiat Tinder.

Foi no dia dos pais que minha prima mostrou o Tinder para a família. Foi no wifi do restaurante que ela demonstrou o divertido jogo  que eliminava o caráter aleatório desta cyber-balada. Só podem conversar os que se curtem mutualmente. Gênio! Quase como na vida, você só dá papo pra quem quer.  E ainda por cima, vinha com o cobertorzinho pro ego cada vez que aparecia a notificação “it’s a match!“

O jogo, tão viciante quanto Candy Crush, ainda põe na sua mão a decisão entre mandar uma mensagem ou keep playing. Keep playing! Iniciei algumas investidas pelo chat, uma ou outra promovidas ao Facebook ou Whatsapp, e a eficácia do aplicativo foi se revelando. As conversas pareciam fluir melhor, a partir do interesse mútuo confirmado.  As pessoas ali não pareciam profissionais do cyber-dating. Pareciam todo o tipo de pessoa. Era mesmo como estar na balada, com a vantagem de saber gostos e amigos em comum logo de cara.

Foi um mês depois, quando viajei sozinha ao Uruguai, num dia bem chuvoso, que tive meu primeiro Tinder-date. Foi demais, rápido, sem muita enrolação e um jeito diferente de conhecer uma cidade que não era a minha.

Voltei pro Brasil com aquele gás, motivada a finalmente conhecer os “tindos“ da minha lista. Foram cinco experiências muito distintas, fiz amigos e tive micro-relacionamentos que me tornaram advogada fervorosa da “ferramenta“. Conheci casais formados pelo Tinder, conheci pessoas que passavam o Tinder-rodo.  Acabou meu preconceito, ficou fácil. Cada um usa como quer. Eu dizia a todas as minhas amigas: “Você vai curtir!”.

A adesão em massa da galera trouxe o divertido movimento dos efêmeros Tumblrs sobre o Tinder (tinderland, tindereatorre, tindernasuecia) – a captura de tela é mesmo uma ferramenta pro humor. Todos rimos, pois éramos parte daquilo.

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Viajo muito pelo Brasil a trabalho e criei o passatempo de sempre espiar os tindos locais, e cada vez mais percebia que, apesar das novas combinações, eu já não tinha energia para iniciar ou dar continuidade às conversas. Dei um tempo. Fiquei sem entrar e de vez em quando recebia uma notificação de que meu perfil não mais seria mostrado, caso eu não aparecesse… de novo, quase como na vida, tem que dar as caras pra continuar na cena.

Em abril, tirei férias, e entrei no Tinder-California. Dei risada da imensa quantidade de tindos com tigres (tinderguyswithtigers), mas no final, peguei dicas de todas as cidades com os meus matches e acabei conhecendo um deles em São Francisco. Tinder continua uma ferramenta eficaz para o turismo customizado, não deixem de experimentar.

Voltei pra São Paulo. Encontrei amigas que, após traumáticos términos, tinham recém aderido ao aplicativo e começavam a se divertir com seus matches. Além disso, a proximidade do mundial de futebol deu uma renovada no “catálogo“. Fiquei curiosa. Voltei pro Tinder.

Iniciei a pesquisa, e com curtidas retrancadas, já não era mais o mesmo pra mim. Conversei com alguns mais, mas não me motivei. Recém separados foi o que mais encontrei por lá desta vez. Além deles, ficaram  cyber–solteiros profissionais, que sempre conheceram pessoas pela internet.  A peteca não ficava mais no ar.

Notei que minhas amigas também foram perdendo a empolgação e  o Tinder foi criando sua própria definição. Não é um vício que perdura. Dificilmente encontraremos o Tinder Anônimos por aí. Ele é eficaz de verdade para quem quer se reabilitar de um pé na bunda, ou do fim de um casamento muito longo, e não sabe como, nem onde reaprender a paquerar.

Então, parece que não é pra mim. Não é por não acreditar em cyber-relacionamentos, muito pelo contrário, o aplicativo me ensinou que existe faísca na internet. A verdade  é que pessoas “olho no olho” como eu ficam em grande desvantagem nesta cyber-balada. Meus melhores xavecos são ao vivo. As mensagens de texto acabam com minhas pausas dramáticas.

Mas não, não deletarei o Tinder por enquanto, pois ainda não existe guia de viagens melhor. Sem contar que, logo menos, vêm as Olimpíadas e posso ficar curiosa novamente!

maila*Maíla Sandoval é bailarina sem fronteiras com alma de golfinho. Esconde do grande público que é autora do @palavragrelhada e integrante da Banda Literária. Paulistana criada, nasceu com rodinhas nos pés e não recusa a oportunidade de conhecer lugares novos. Torcedora fanática dos Diablos de Avellaneda.

foto: arquivo pessoal

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.

Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

*por Bárbara Castro

Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais sobre trabalho e gênero no setor de TI o que mais ouvia era “Mas não existe discriminação contra as mulheres. Convivemos muito bem”. Essa fala reativa geralmente abria a conversa com meus entrevistados tão logo eu explicasse que eu queria entender, entre outras coisas, como se desenrolavam as relações entre profissionais homens e mulheres já que elas são minoria no setor. Elas compõem cerca de 20% do total dos profissionais de TI no Brasil.

A ideia de igualdade de tratamentos e de oportunidades, no entanto, era acompanhada por discursos que reforçavam diferenças: as mulheres seriam melhores atendendo clientes, as mulheres seriam melhores trabalhando como analistas, as mulheres seriam menos capazes de programar. Entre outros achados, pude notar que a discriminação das capacidades técnicas das mulheres cria uma divisão sexual do trabalho dentro do setor: enquanto eles cuidam da parte hard da TI, elas cuidam da soft. Algumas das mulheres com as quais conversei sofriam porque não conseguiam se realizar profissionalmente: elas eram sutilmente impedidas de programar porque sempre eram realocadas nas tarefas de gerenciamento de equipe e de relacionamento com o cliente – o que não as levava, no entanto, a ganhar mais do que eles. Uma frase comum entre os profissionais do setor é que “elas sabem como atrair novos clientes, sabem como manter seu interesse vivo”.

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Não demorou para eu perceber que o papel sedutor que se atribuía às mulheres, papel este essencial para a manutenção dos negócios de uma empresa, não apenas alimentava a desconfiança que seus colegas possuíam nas suas capacidades técnicas como também respingava nas relações de trabalho cotidianas. Insinuações homofóbicas e histórias de assédio sexual sempre apareciam nas entrevistas com as mulheres. “Mas são mais piadinhas, a gente tem que aprender a conviver”, a maioria dizia. A homofobia se apoiava na ideia preconceituosa de que mulher que atua nesse setor é masculinizada e, portanto, lésbica. O assédio se apoiava na ideia de que uma mulher que está em um ambiente masculinizado está disponível.

Muitas das minhas entrevistadas contaram como usavam táticas muito específicas para apagarem a referência de que eram mulheres: seja banindo elementos estéticos que algumas gostavam de usar, como esmalte, maquiagem, joias, roupas florais e coloridas; seja adotando uma personalidade mais dura e menos emotiva; seja anulando a construção de uma relação de amizade e companheirismo para evitar qualquer possibilidade de interpretação errada dos homens. Elas faziam, como define a filósofa Judith Butler, uma performance de gênero que apagava as marcas que costumamos atribuir ao universo feminino e conseguiam, assim, ter sobrevida em um espaço altamente masculinizado.

Algumas das meninas contaram que mentiam sobre ter namorados para mostrar que eram “sérias” e que evitavam falar sobre paquera mesmo quando estavam fora da empresa para que seus colegas não interpretassem suas falas erroneamente e as lessem como disponíveis. Muitas me diziam que mesmo quando apagavam o gênero no local de trabalho, sofriam, porque aí eram vistas como “um deles” e incluídas nas piadas sexistas e nos comentários grosseiros sobre as mulheres do escritório.

As armaduras que elas construíam para sobreviver no dia-a-dia de trabalho eram uma reação ao ambiente machista e discriminatório no qual atuavam e ao qual buscavam se adaptar da melhor maneira possível. Mas essas estratégias, que à primeira vista podem parecer como a solução da lavoura ao leitor mais apressado, são a tradução de um ambiente corporativo que pouco se preocupa em equalizar as relações de gênero no trabalho e a combater o preconceito, a discriminação e o assédio.

As acusações de sexismo ao Github, que vieram à tona nas últimas semanas, evidenciam esse modelo de gestão de recursos humanos nas empresas: apesar do desligamento do Presidente da empresa após as denúncias de discriminação de gênero, não houve preocupação em tornar a história mais transparente nem ao menos foi exposto um novo plano de conduta empresarial que evitasse que casos como aquele se repetissem. Para abafar o problema, ele foi particularizado, tratado como exceção, uma fórmula que pode ajudar a salvar a reputação da empresa emergencialmente, mas que é muito pouco efetiva no combate às raízes do problema.

Outro caso recente envia ao público uma mensagem semelhante: a violenta agressão pública do CEO da RadiumOne à sua namorada, sua continuidade no cargo e na condução dos negócios da companhia. Mais uma vez, o caso foi resolvido com seu afastamento apenas quando a pressão pública cresceu sobre a empresa e sobre seus parceiros de negócios – e oito meses após o caso ter sido divulgado. Apesar de o caso de violência ter ocorrido fora da empresa, que mensagem ela pode passar às mulheres que nela atuam quando decidem que não há uma crise de imagem quando seu CEO trata uma mulher com violência? O que se pode esperar da condução de um caso de violência de gênero dentro do ambiente de trabalho de uma empresa que envia uma mensagem como essa?

Apesar da solução encontrada nos dois casos, é importante pensarmos em como ela foi fruto da pressão de fora e do quanto foi gerenciada como uma crise de imagem. A maneira como foram conduzidos enquanto exceções, desvios raros de conduta e casos isolados só ajuda a reforçar a ideia de que os constantes casos de discriminação e a desigualdade de gênero presentes no mundo corporativo são fruto de um delírio coletivo. O remédio para estes problemas está longe de ser solucionado com pedidos de desculpas como os divulgados por essas empresas.

Admitir que a diferença entre os sexos ainda gera desigualdade no mercado de trabalho e construir políticas reais de combate ao assédio e à discriminação seriam a única maneira de essas e outras empresas construírem um ambiente de trabalho equitativo e igualitário. Uma pena que ambas não tenham aproveitado a oportunidade.

Bárbara Castro*Bárbara Castro é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e desenvolveu parte de sua pesquisa na Open University, na Inglaterra. Em sua tese, estudou as relações de trabalho e gênero no setor de TI.

#testamos: Amazon FireTV

*por Arthur Soares

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Foi em 2004 que começou o meu cuidado meticuloso com a minha biblioteca de músicas do iTunes; prometi a mim mesmo que aquilo seria uma herança para os meus filhos. Dava um trabalho absurdo manter a coleção organizada: baixar os discos, organizar os arquivos, achar as capas, colocar a ordem certa das faixas, gênero, artista… um trampo! Tudo isso mudou quando conheci o Spotify, um sistema de streaming de música com uma biblioteca gigante e super fácil de usar. A minha relação com música – e principalmente com a minha coleção de música – mudou totalmente. Parei de gastar tempo buscando, organizando e catalogando tudo, e comecei a focar a maior parte do tempo em realmente degustar e escutar o que queria. Fiquei bastante empolgado quando a Amazon anunciou o lançamento da FireTV, porque senti que finalmente um dispositivo poderia ser capaz de oferecer esse tipo de experiência para filmes e séries.

Há alguns anos eu optei por não ter mais TV a cabo e me virar apenas com downloads e sistemas de vídeo sob demanda como o Netflix, por exemplo. Nesses últimos anos, já brinquei com várias opções para deixar tudo mais simples de usar, como a AppleTV, aplicativos das TVs inteligentes da Samsung e até um computador Mac Mini (aquele pequeno da Apple) ligado diretamente na minha televisão. Sou geek e vivo sempre na busca incessável para achar a solução perfeita, por isso achei incrível a simplicidade da FireTV.

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Mas o que é a Amazon FireTV? Um dispositivo (na categoria dos set top boxes) que você pluga na sua TV, conecta no Wi-Fi da sua casa e te oferece tudo o que há de disponível na plataforma de conteúdo da Amazon, chamada AmazonPrime, por enquanto indisponível para o Brasil. Essencialmente, não é tão diferente assim da AppleTV, mas foi pensada para melhorar três pontos importantes: velocidade, busca e acessibilidade. O preço de venda é similar aos concorrentes, mas é o primeiro que consegue ter a melhor experiência. Vamos por partes.

A experiência Amazon

Uma das coisas que mais tem me chamado atenção à respeito dos últimos lançamentos da Amazon, é a atenção que eles têm dado aos novos usuários. O tio, a mãe, a avó; aqueles que não dominam a tecnologia mas gostariam de fazer uso dela têm pouquíssimas barreiras de entrada. Isso acontece desde o Kindle e se repete com o FireTV: compramos o aparelho pelo site da Amazon e ele milagrosamente já vem configurado com a sua conta, sem precisar conectar nada com nada : )

Outro exemplo incrível é o tablet FireHDX, lançada em setembro do ano passado, que vem com uma função chamada “Mayday”. É um botão que, ao apertá-lo, te conecta com um funcionário da Amazon (uma pessoa, mesmo) em menos de 15 segundos. Funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano (!).  Nesse sentido, uma das funções mais úteis da FireTV é a busca por voz disponível no controle remoto do aparelho. Pode parecer pouco significante, mas lembre-se como a busca naqueles controlinhos pode ser incrivelmente frustrante.

Primeiras impressões

Foi tudo muito fácil: liguei o cabo de força na tomada e o cabo HDMI na TV (aquele mesmo que você usa para ligar a televisão LCD direto no seu computador). A primeira coisa que a FireTV me pediu foi para identificar a rede Wi-Fi. Não preciso comentar sobre a apresentação e design, estão extremamente bem resolvidos. Ao iniciar, um tutorial em vídeo ensinando a utilizá-la começou a tocar. Foi ótimo, em menos de dois minutos já possuía uma noção geral de todas as funções. A interface é simples, separada em duas colunas. O dispositivo é incrivelmente rápido. Muito mais rápido que AppleTV ou qualquer outro que já mexi.

Conteúdo

Da mesma forma que a Amazon lançou o Kindle para vender livros eletrônicos, ela também lançou a FireTV para vender o Amazon Prime, a plataforma de vídeo deles. A velocidade de tudo é alta: do final do tutorial até começar um filme, foram menos de cinco segundos. Sabe por que? Porque a FireTV já veio configurada com a minha conta, não me pediu senha nem nada. Inclusive já veio com os dados do cartão de crédito do meu One-Click payment, aquela função perigosa da Amazon que te permite comprar livros e um monte de coisas com um só clique.

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Um ponto interessante é a abordagem esperta a games. Conseguiram chamar a atenção do jogador meio-termo, aquela pessoa que curte jogar no seu smartphone e tablet, e até sente falta de algo numa TV maior, mas não tem vontade de investir U$ 300-500 em um console exclusivo e mais U$ 30-50 por jogo. A grande sacada: por mais U$ 39,99 você pode comprar o Game Controller, um joypad muito similar ao do Xbox ou PS4. Nele você pode rodar os jogos mais legais de Android.

A busca de voz funciona apenas para conteúdo de dentro do AmazonPrime. Encontrei uma exceção estranha, buscas por clipes de música te jogam para o Vevo e Hulu, que são aplicativos de terceiros. O mesmo não ocorreu com Netflix. Talvez haja alguma parceria específica.

Alguns dias depois

Já estou com a FireTV há alguns dias e posso dar uma opinião mais concreta. Acredito que tem um potencial incrível para demonstrar como será o futuro da TV e Set-top boxes. Para o Brasil, ainda não é uma solução pronta, já que é preciso trazer o aparelho dos Estados Unidos e para conseguir acessar o conteúdo (apps, jogos e filmes da plataforma Amazon Prime) é preciso realizar uma série de gambiarras.

O conceito de aplicativos para televisão não é novo. SmartTVs já fazem isso e a Apple oferecia marginalmente com o AirPlay na AppleTV. Acredito que a FireTV seja a primeira implementação com uma boa perspectiva de como o futuro será.

A FireTV é, sem dúvidas, um grande passo pro que teremos de novidades para as TVs em breve. Vamos esperar e ver o que Google e Apple farão.

 

arthur * Arthur Soares é consultor de tecnologia e design. Compartilha suas obsessões em http://artsoar.es

Foto: arquivo pessoal

Esposas do Silício

Por Flávia Stefani*

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ilustração por Thiago Thomé*

 

Do nosso grupo de tech wives, eu diria que Anne é a mais bonita. O que para ela não faz muita diferença —o que Anne considera importante mesmo é a sua carreira. Ela trabalha em uma empresa de aparelhos médicos de ponta de linha, está estudando para se tornar uma neurocirurgiã em Stanford (após ter feito duas outras faculdades) e é filha de um dos principais cirurgiões de câncer dos EUA. Aos 28 anos, Anne é também a mais nova do grupo. O restante de nós tem aproximadamente a mesma idade, entre 30 e 33 anos, e a mesma ocupação: ex-alguma coisa. Denise é ex-relações públicas da Slate. Julie é ex-empresária de médio porte. Eu sou ex-redatora publicitária. Somos diferentes como bananas e maçãs, mas cumprimos o mesmo papel que milhares de outras mulheres no norte da California: nossos maridos trabalham em empresas de tecnologia no Vale do Silício. E nenhuma de nós tem emprego fixo.

As middle class Silicon Valley housewives, como secretamente me refiro a nós quatro, conheceram-se em Nova York, em algum dos poucos eventos de trabalho da Apple nos quais os cônjuges ou plus one eram bem-vindos. Na minha experiência, eventos assim são raros: festas de final de ano, e, se muito, um aniversariozinho. As demais atividades que as empresas de tecnologia promovem são restritas a funcionários. Semana passada, Fábio, meu marido, aprendeu a imprimir em letterpress e depois fez um tour de duas horas pelos pubs do Tenderloin, bairro de São Francisco famoso pela comida “étnica” (como é chamada a culinária estrangeira) e pela quantidade alarmante de moradores de rua. Há alguns meses, ele foi voluntário na cozinha de um dos “sopões” mais antigos de São Francisco: passou o dia picando cenouras, aipo e batatas. No fim da tarde, ele se reuniu com os colegas em um dos pubs e bebeu e comeu por conta da empresa. Nenhum cônjuge foi convidado.

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Atividades assim, ou outings, como eles dizem, acontecem mês sim, mês não, e são diversas demais para categorizar: bourbon brunchs, visitas a museus, aulas de arco de flecha, curso de cerâmica, exotic food-tastings. Um programa mais divertido que o outro ao qual todo funcionário deve comparecer sozinho, sem a família. O meu interesse por políticas corporativas é pequeno demais para averiguar se essa restrição existe por motivo de custos ou se o principal objetivo de tais atividades é a interação entre os funcionários, o que talvez justifique a ausência de cônjuges. Além disso, eu sempre trabalhei em agências de publicidade, onde eventos como esses não existem, logo não tenho uma explicação oficial. Só sei que a mensagem é clara: “Misturem família e trabalho somente na festa de fim de ano; no restante do tempo, vocês são nossos.” Dependendo do cargo do funcionário na empresa, a interseção família X trabalho não acontece nem mesmo em tais festas. Eu me lembro de ver Gaby, mulher de Richard, chefe do meu marido, na confraternização de Natal de 2013. Ela passou a noite em um lado do salão, bebendo em companhia da secretária do escritório, enquanto Richard se divertia e contava piadas aos subordinados do outro lado.

Além das atividades corporativas, que alienam, ou, dizendo de uma maneira mais publicitária, enriquecem a vida pessoal e o senso artístico de apenas uma das partes do casal, há um outro elemento, mais sutil, que distancia os cônjuges do Vale do Silício: o segredo. À medida que o funcionário de uma empresa de tecnologia vai progredindo na carreira, ele vai tendo acesso a informações confidenciais sobre o lançamento de produtos e serviços, informações que ele é obrigado por lei a não compartilhar com mais ninguém. Se outras famílias seguem essa regra à risca eu não sei dizer, mas aqui em casa é assim: o meu marido não pode discutir determinados assuntos comigo. Por exemplo: o trabalho que tem feito nos últimos seis meses. Voltando para casa após uma semana longa, Fábio não pode me contar nada sobre a nova ferramenta que passou centenas de horas aperfeiçoando. De maneira quase desapercebida e “para a nossa proteção”, o trabalho que ele realiza, que é o motivo pelo qual nos mudamos para a Califórnia, acaba se colocando entre nós. O segredo é tamanho que eu não posso sequer visitar a sala de trabalho dele. Mandei flores outro dia, mas nunca saberei se deixaram o ambiente mais bonito porque eu não faço ideia de como seja o ambiente. Longe de ser uma característica exclusiva das empresas de tecnologia —imagino que advogados de pessoas famosas, pessoas ligadas a chefes de estado, VPs de grandes laboratórios, donos de redes de televisão, dentre outros, também tenham que velar por certas informações confidenciais—, a expressão “casado com o trabalho” faz bastante sentido no Vale do Silício. De atividades extracurriculares a informações sigilosas, a maior parte dos esforços do meu marido vai sem dúvida para a empresa onde ele trabalha —antes a Apple, hoje o Twitter.

Quando o time de design de iAds, a plataforma de publicidade móvel da Apple na qual o Fábio trabalhava, foi inteiro transferido de Nova York para o Vale do Silício há dois anos, nós, as então tech wives do Brooklyn, passamos a fazer parte de um time mais amplo: o das tech wives do norte da Califórnia. A diferença é que agora, além dos fatores desemprego e marido geek em empresa de tecnologia, nós temos uma outra renúncia em comum: a vida estimulante que tínhamos em Nova York. Julie e Denise têm mais razões para sentir falta da cidade do que eu; ambas nasceram e cresceram lá, ambas têm família em Manhattan. Mas eu fui certamente a que mais se debateu com a mudança. Eu já vivia em Nova York há quase cinco anos quando conheci meu marido. Nova York não é a norma para mim, como imagino que seja para elas: eu trabalhei em outras cidades antes, em outros países, inclusive, e acordar lá todos os dias quando eu poderia acordar em qualquer outro lugar do mundo era uma escolha consciente, e que me fazia feliz. A principal motivação para continuar em um emprego que eu sabia que não me levaria a lugar nenhum era o fato de que tal emprego me permitia viver na cidade dos meus sonhos. Eu nunca quis nada na vida como quis envelhecer lá, logo a ideia de partir para o oeste aos 28 anos para acompanhar o meu marido não foi exatamente bem-vinda. Foi a primeira vez que eu falei em divórcio. Não foi a última.

A vida de uma tech wife californiana que trabalha em casa é mais ou menos assim: você não trabalha em casa. O seu trabalho é ocupar o tempo com qualquer atividade que ajude a não jogar todas as frustrações no casamento. Yoga. Crossfit. Aulas de filosofia. Workshop de meditação. Você lê o dobro do que normalmente leria se tivesse um emprego, em parte porque tem mais tempo para ler, em parte porque é importante que as outras pessoas pensem que “Ok, ela fica o dia todo em casa, mas pelo menos ela continua a par das coisas.” Você passa mais tempo na Internet do que é saudável para qualquer ser humano. Você transforma a sua casa em um mural do Pinterest. Você chama os cachorros da vizinhança pelo nome. Você se pergunta se ter um filho ajudaria a atribuir mais valor ao que faz. Ou, no caso, ao que não faz —você não sabe mais a diferença. Você sente saudade da moça que trabalhava catorze horas por dia, que pagava sozinha o próprio aluguel, a mulher que não era casada com ninguém, que não tinha que se sacrificar por ninguém. Em algum momento da transição de redatora em Nova York para dona de casa do Vale, essa mulher adormeceu. Não é beijo de sapo ou príncipe encantado que irá despertá-la, mas uma carta do departamento de imigração dos Estados Unidos.

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Eu não posso voltar a trabalhar, no Vale ou em qualquer outra cidade americana, enquanto o meu greencard não sair. A esperança dos advogados de imigração do Twitter é que saia esse ano, mas estou há tanto tempo nesse exílio que às vezes sinto que a minha realidade nunca mais vai mudar. Existe vida inteligente em outros planetas? Que dia eu vou poder voltar a trabalhar? Será que alguém vai querer me contratar após todos esses anos? Perguntas que só o tempo será capaz de responder.

Se eu pudesse voltar a trabalhar, não seria em uma empresa de tecnologia. Eu sou uma escritora. Entrar para o time dos geeks, ser CEO da Apple, Google ou Twitter nunca foi o meu sonho. Mas é o de muitas garotas que conheço. Algumas se atrevem, inclusive, a verbalizar esse desejo. Sarah, de 29 anos, é designer no Twitter desde a fundação da start-up, em 2006. Semana passada, por iniciativa dela, todo o departamento de design e pesquisa do Twitter se reuniu por uma hora para discutir a questão da liderança feminina na empresa, que atualmente é bastante desigual. “Eu fico feliz por poder levantar essas questões lá dentro,” ela me disse ontem enquanto almoçávamos. “Algumas empresas aqui no Vale instruem os funcionários a não trazer certos assuntos à tona pelo desconforto que eles podem gerar.” Se o meu maior desafio hoje é esperar pelo greencard, o desafio de moças como Sarah parece ser um pouco mais árduo: elas precisam forçar a própria entrada em um ambiente que claramente não as trata com igualdade. Dos tempos da corrida do ouro à IPO do Twitter no ano passado, a Califórnia, com toda a sua beleza natural, ainda é um vale (ou deserto) hostil para as mulheres ligadas à indústria de tecnologia.

Eu saio de casa apressada para me encontrar com Julie em uma praça no centro da cidade. Marcamos de tomar um café juntas até que o ônibus que diariamente leva e traz os funcionários do Google chegue ao ponto, a duas quadras dali. Dave, o marido de Julie, vem nesse ônibus. Eles irão juntos a uma apresentação de balé no city hall. Eu pergunto em tom de brincadeira o que Julie fez para conseguir esse milagre, já que não é segredo para ninguém que Dave odeia balé. “Eu abri mão da minha vida para estar aqui com com ele,” ela diz enquanto sopra a bebida. “Ele pode passar duas horas comigo no balé.”

 

flaviastefani * Flávia Stefani é uma escritora completa e corajosa, co-fundadora da e-mag Confeitaria, questionadora nata, mulher colorida e devoradora de letras. Hoje mora em São Francisco, depois de ter passado por São Paulo, Nova York e Londres.

Foto: arquivo pessoal.

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.