Secret, privacidade e a web profunda

Por Eden Cardim*

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crédito da foto: Nuno Martins

Já vivemos na segunda geração de redes sociais e temos uma certa familiaridade com elas. A principal característica dos usuários dessas redes é a construção de uma espécie de personagem digital que conversa com um público específico. Quase todos fazem isso em algum nível, alguns mais, outros menos. A boa construção do personagem é o que determina o seu sucesso na rede, inclusive, os de maior sucesso são fictícios e até certo ponto anônimos, tais como “OCriador e a “Dilma Bolada“.

Essa semana, descobri e instalei o aplicativo Secret no meu Android e fiquei instantaneamente maravilhado. A premissa é simples, trata-se de uma rede social, como outra qualquer, exceto pelo fato de que todos os usuários são anônimos. A única informação divulgada a seu respeito é se você pertence ao meu grupo de amigos de facebook, se é um amigo de amigo e a sua proximidade. O anonimato tem mostrado um efeito radical no conteúdo publicado pelos usuários, que eu atribuo ao fato de que a construção do personagem simplesmente não existe. Se o grande diferencial do twitter é que ele obriga as pessoas a serem concisas e objetivas com suas publicações, agora é possível recriar o personagem inteiro a cada publicação, ele nasce e morre ali mesmo, junto com o post. Segundo o co-fundador David Mark Byttow, ex-funcionário do Google, o fato de você saber que são amigos falando coisas que eles nunca te contariam caso fossem identificados, é o grande diferencial do Secret. As pessoas têm usado o app com diversos propósitos: como confissionário, como lugar para fazer perguntas e dar respostas a questões controversas, e é claro, para publicar, falar e curtir conteúdo adulto. Afinal de contas há um ditado popular no mundo digital que diz que tudo na Internet tem um único propósito: sexo.

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Moralismos à parte, o anonimato cria uma realidade completamente nova para os usuários de Internet e a popularização do aplicativo deixa claro que o poder de se comunicar irrestritamente é uma necessidade humana que ainda tem muito espaço para ser preenchida. Com tão pouco tempo de vida, o aplicativo está gerando debates acalorados sobre privacidade e  liberdade civil na Internet. Inclusive já existem várias denúncias de difamação  girando em torno de publicações que expõem adolescentes, principalmente meninas, como alvo de um tipo de bullying muito mais agressivo e destruidor por ser anônimo. Além disso, não é difícil cruzar com posts que fazem apologia à homofobia, racismo, pedofilia e tráfico de drogas. As brigas judiciais envolvendo o app podem inaugurar a aplicação das leis de privacidade do Marco Civil no Brasil.

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Apesar dessa febre por aplicativos que nos tornam “invisíveis”, a tendência ao anonimato  é bastante antiga. A informação na Internet é, na verdade, parecida com um iceberg; a ponta é o conteúdo comum a qual todos tem acesso no dia-a-dia, chamada de WWW (World-Wide Web), mas o grande volume de informação que trafega na Internet está escondida sob a superfície e se chama “Deep Web” (web profunda). Estima-se que a Deep Web é cerca de 500 vezes maior que a WWW em volume de dados, que não são indexáveis pelos mecanismos de busca tradicionais como Google, Bing e Yahoo. Boa parte da informação está distribuida em redes par-a-par (peer-to-peer ou P2P), que basicamente criptografa e replica os dados entre vários computadores de forma que nenhum indivíduo específico seja o único responsável pelo armazenamento e distribuição de informação.

Hoje em dia a forma mais segura de navegar pela Internet anonimamente é usando o TOR, um browser que permite que você acesse qualquer website sem que ninguém saiba de onde vem o acesso. Trata-se de um browser, similar ao Google Chrome ou Safari, porém ele implementa uma tecnologia adicional que permite seu uso como intermediário para outras pessoas. Sempre que você acessa um website, a informação é dividida e criptografada, trafegando por diversas máquinas de outras pessoas que também estejam usando o browser do TOR. O caminho que a informação percorre é escolhido aleatoriamente a cada acesso e a cada clique, por isso o site reconhece o seu acesso como se tivesse vindo de um lugar diferente. O mesmo se aplica ao caminho inverso: você pode abrir um website anônimo que só será acessível dentro do TOR e ninguém saberá onde ele está hospedado. O anonimato fornecida pelo TOR é tão eficiente que um dos websites da web profunda mais poderosos, chamado “Silk Road“, ficou conhecido como o “Amazon das drogas ilícitas”. O FBI levou 3 anos para encontrá-lo. Durante esse período o serviço arrecadou $1,2 milhão por mês e só foi encontrado porque seu dono entrou por acidente numa rede comum fora do TOR.

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Dessa forma, informações que seriam geralmente controversas podem ser consultadas sem o constrangimento que as pessoas normalmente sentiriam. É possível criar pseudônimos em fóruns de discussão pública tendo a certeza de que ninguém jamais conseguirá rastrear o originador das publicações.  O potencial é enorme, já que as pessoas podem pesquisar a respeito de assuntos considerados tabu sem serem discriminadas, tal como sexualidade, drogas, doenças e podem até formar grupos de recuperação de anônimos online. Mesmo em casos mais simples, o anonimato também é útil quando se usa Internet em locais públicos, para garantir que sua informação não será monitorada ou usada para outros propósitos.

A sensação de liberdade obtida pelo anonimato muda completamente a perspectiva da busca por informação. Como ainda estamos compreendendo as implicações desse tipo de comunicação, existe um debate acirrado a respeito do uso dessas tecnologias, elas podem ser usadas de maneira perfeitamente inócua e também de maneira ilícita. Cabe a você definir os limites de até onde vai sua própria moralidade e sempre fazer bom uso da tecnologia como entender melhor.

 

eden cardim*Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

Heartbleed, a varinha mágica do Amazon Dash, capas de discos no Google Earth e mais nos links da semana

Veja o que compartilhamos de mais legal na página do Facebook do Ada:

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Reprodução: Guardian

– Quem é louco por música não pode deixar de ver essa: o jornal inglês Guardian mostrou capas de disco de rock em suas localizações no Google Street View. Tem Beatles (Abbey Road, claro!), Oasis, Rush, Bob Dylan, Eminem, PJ Harvey, Pink Floyd…

– Metade da equipe do Ada (no caso, eu) tem o maior bode de fazer supermercado. Então, ouvimos falar no Amazon Dash, uma espécie de “varinha mágica” que escaneia os produtos que estão quase acabando na despensa e aceita comandos de voz e cria uma lista de compras digital que é entregue na sua casa no dia seguinte. Quando eu já estava animando que não ia precisar mais enfrentar fila do Pão de Açúcar, descobri que o serviço ainda está restrito a poucas cidades da Costa Oeste dos Estados Unidos. Mas virou total sonho de consumo. Veja como ele funciona no vídeo abaixo em inglês:

– Continuamos acompanhando o Marco Civil da Internet: o texto foi para o Senado e Renato Cruz, do jornal O Estado de São Paulo, analisou as mudanças pelas quais o projeto de lei está passando.

Crédito: Reprodução heartbleed.com

– E não, não esquecemos da maior dor de cabeça da semana, o Heartbleed. uma falha de segurança que afetou quase a maioria dos sites e serviços de Internet que usamos todos os dias. Nosso colaborador Eden Cardim explicou super bem explicadinho o que é esse bug e o que você poderia fazer para se defender dele, mas no Facebook nós compartilhamos duas listas super úteis de sites que foram afetados pelo Heartbleed (em inglês). Olhe aqui e aqui e vá mudar sua senha!

E se você ainda está curiosa para entender como esse bug funciona, a gente achou essa explicação da HQ xkcd genial:

Reprodução: xkcd.com

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O que é o Marco Civil da Internet

Por Eden Cardim*

yay-internet-jen-mussariNesta terça-feira (25) foi aprovado o Marco Civil da Internet, um projeto de lei que regulamenta o uso da Internet no Brasil. São três os temas principais que o projeto discute:

  • Liberdade de expressão

  • Neutralidade de rede

  • Respeito à privacidade

Com o Marco Civil, a Internet passa a ser regulamentada por um conjunto de leis que querem garantir a livre disseminação de informação e estabelecer direitos e deveres de quem usa e fornece serviços através da Internet.

O projeto começou em 2009 através de uma colaboração online no blog Cultura Digital, em reação ao projeto de lei de crimes cibernéticos do deputado Eduardo Azeredo. A proposta do deputado propunha uma série de restrições ao uso da Internet. O projeto previa de um a três anos de reclusão por cada acesso a conteúdo digital protegido por direito autoral, o que significa que você que baixou episódios de Game of Thrones e Breaking Bad poderia ser condenada a até seis anos de cadeia, junto com todos os estudantes de faculdade que imprimem e fotocopiam livros para suas aulas nas universidades brasileiras. Mas o Marco Civil foi sendo construído de uma forma colaborativa, por vários setores da sociedade, e hoje é considerada uma lei bastante avançada.

Vamos a cada um dos temas:

1) Liberdade e acesso 

O tema pegou fogo quando Aaron Swartz, um programador norte-americano, foi indiciado por baixar milhões de dados de um repositório de documentos acadêmicos, através da rede interna do MIT. Detalhe, ele tinha permissão para acessar todos esses documentos. Até hoje não se sabe o que Aaron queria fazer com esse tanto de informação. Isso pode não parecer relevante para um usuário casual de Internet, mas são gênios como Aaron que criam ferramentas tecnológicas que tanto apreciamos no dia-a-dia. Aaron foi, por exemplo, um dos criadores da tecnologia RSS, que é o que move aplicativos como o falecido Google Reader, seu substituto póstumo, o Feedly e o mecanismo de publicação de atualizações de quase todos os blogs em existência.

Fazer esse tipo de pessoa viver à sombra de uma lei que pode colocá-la na cadeia por 35 anos pelo mero fato de acessar informação não é bom pra ninguém, por isso Aaron preferiu o suicídio. Esse é apenas um dos casos onde a liberdade na Internet é prejudicada pelo fato de não existir uma legislação específica: o judiciário utiliza analogias com leis tradicionais. No caso de Aaron, julgaram que ele havia “roubado” os documentos.  Como foi aprovado, o Marco Civil não vai criminalizar a livre expressão de ideias e conteúdos na rede.

2) Por uma rede “neutra”

O Marco Civil também trata o tema da “neutralidade de rede”. Já percebeu como as vezes o Youtube ou o Netflix ficam mais lentos do que outras páginas? Isso acontece porque as operadoras de conexão banda larga muitas vezes restringem a velocidade de navegação em sites específicos, o que é mais barato do que aumentar a infra-estrutura. Basicamente, o Marco Civil diz que estas empresas (como a Net ou Telefônica) não poderão mais alterar a velocidade contratada baseada no conteúdo que consumimos online. A consequência dessa lei é mais profunda do que parece. Sem regulamentação, as operadoras podem fazer acertos com sites específicos, pra que eles tenham prioridade, e no final das contas, as únicas páginas agradáveis de visitar seriam as que pagam as operadoras. Além disso, as empresas poderiam vir a oferecer “pacotes”, onde o conteúdo de websites não contratados ficaria bloqueado, transformando a Internet em algo parecido com TV a cabo: tudo ficaria mais caro e menos acessível. A neutralidade de rede elimina de vez a possibilidade disso acontecer no futuro.

3) Mas e a privacidade?

Outro tema que é tratado pelo Marco Civil é o da privacidade e da preservação de intimidade. Agora, os serviços de hospedagem são obrigados a remover conteúdo de caráter privado, como vídeos íntimos. A regulamentação dificulta os casos conhecidos como “pornografia de vingança”, onde um ex-namorado raivoso publica vídeos íntimos da ex-namorada. Agora, os serviços de hospedagem ficam obrigados e remover esse tipo de conteúdo com apenas uma notificação simples, que pode ser por email, não precisa mais existir um processo legal e burocrático. Mas isso será facilitado apenas em casos de conteúdos de natureza íntima; outros pedidos de retirada de material da rede precisam passar por um processo judicial mais demorado, justamente para evitar censura.

Ainda existem várias questões mais detalhadas e polêmicas para se tratar, mas o Marco Civil é considerado um projeto de lei pioneiro no mundo e coloca o Brasil numa posição de destaque em termos de política tecnológica. Até o criador da Web, Tim Berners-Lee, escreveu um artigo apoiando a lei. Vale lembrar que o projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e passar pela sanção da presidente Dilma Rousseff para ser efetivado.

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Mitos e verdades sobre o Marco Civil da Internet

eden cardim

 *Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

 

(Crédito do gif: Jen Mussari/yayinternet.com)