Como você pode proteger suas fotos íntimas

Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web
Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web

Por Bruno Cardoso*

Trinta e um de Agosto de dois mil e quatorze entrará para a história como o dia do “The Fappening” (em português, algo como “Dia da Punhetação”). O termo ridículo ganhou notoriedade após uma série de fotos mulheres famosas como Jennifer Lawrence, Kate Upton, Aubrey Plaza e Selena Gomez terem sido publicadas no que muitos consideram um dos locais mais desagradáveis da Internet: o fórum 4chan. Basta dizer que, ao navegar no submundo do 4chan, as suas chances de se ofender beiram 100%, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que alguém (ou mais de um alguém, de acordo com o que sugere a evidência disponível até o momento) obteve acesso a fotos íntimas de atrizes, atletas, modelos e demais pessoas famosas (sim, eu estou explicitamente evitando o uso da palavra “celebridade”) e publicou tais fotos para todo mundo ver.

É possível que uma falha do iCloud da Apple tenha contribuido para esse fiasco, mas não há nenhuma prova conclusiva sobre isso, portanto não vou entrar nesse mérito. Vou apenas dizer que sim, havia um problema no iCloud que permitia que pessoas tentassem diversas senhas para um determinado usuário sem que a conta fosse bloqueada por tentativas inválidas, mas isso já foi corrigido e é pouco provável que tenha sido essa a causa de todo o bafáfá.

Entenda mais sobre segurança de dados e criptografia no nosso artigo sobre o Heartbleed

De toda forma, aconteceu o que aconteceu e a Internet ficou de pernas pro ar com reações entre o “quem mandou tirar foto pelada?” e o “hã?”. Para a primeira eu respondo: ninguém mandou, mas todo mundo nesse planeta tem o direito de tirar quantas fotos quiser, pelado(a) ou não, sem que alguém venha e roube ditas fotos. Para a segunda reação eu digo: “Exato”. No frigir dos ovos, foi isso o que aconteceu: alguém roubou fotos íntimas de pessoas famosas e publicou na Internet para todo mundo ver. Não é a primeira vez que isso acontece e nem será a última. E isso não é exclusividade de pessoas famosas, diga-se. Temos casos e mais casos de não-famosos que “caíram na net”. Não sou qualificado para dissertar sobre as implicações sociológicas desse fenômeno, mas posso oferecer algumas dicas para que você ao menos evite que isso aconteça com você.

Antes de mais nada, deixe-me deixar absolutamente claro que eu não acho que as pessoas não deveriam tirar fotos comprometedoras. O corpo é seu e você tira quantas fotos você quiser e compartilha com quem bem entender. Porém, suas fotos comprometedoras (por qualquer definição que você tenha para a palavra) estarão tão seguras quanto a pessoa que recebe tal material quiser que elas estejam. Se você resolveu enviar qualquer tipo de foto/vídeo/SMS/WhatsApp/SnapChat para terceiros, saiba que esse material saiu do seu controle e não há absolutamente nada que você possa fazer sobre isso.

Pausa para falar sobre serviços que prometem anonimato. Não confie em SnapChat Secret/Tinder/Grindr e afins. Não são tão anônimos assim.

Certo! Mas e se eu quiser tirar umas fotos picantes (de acordo com a sua definição de picante, claro) com o meu namorado(a) / marido(a) / companheira(o) sem compartilhar com ninguém? Antes de mais nada, certifique-se que essas fotos não serão enviadas para “a nuvem” sem que você tenha conhecimento. Se você possui um iPhone, certifique-se que suas fotos não estão sendo enviadas automaticamente para o iCloud. No iPhone, vá em Ajustes > iCloud > Fotos e desmarque a opção “Meu Compartilhamento de Fotos”:

Se você tem o Dropbox no seu telefone, verifique se suas fotos não estão sendo automaticamente enviadas. Abra o aplicativo, vá em “Settings”  (“Configurações” em português) e desmarque a opção Camera Upload:

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A idéia é a mesma para Android / Windows Phone e para qualquer outro serviço de backup na “nuvem” do tipo Google Drive e Microsoft One Drive.

Se você já tem coisas no seu computador que você não quer compartilhar – intencionalmente ou não – com terceiros, considere criptografar seus arquivos. Para os usuários de Mac, um software como o Knox é uma boa opção. O Knox cria uma espécie de disco virtual que requer uma senha para ser acessado. Uma vez que o disco virtual está ativo, basta jogar seus arquivos confidenciais para dentro dele como se fosse um pendrive e pronto.

super_sekret

Knox_Preferences

Para Windows, recomendo o Gpg4win. Basta baixar, instalar e clicar com o botão direito na pasta ou arquivo que você quer proteger:

gpg4win

Além disso tudo, é sempre bom seguir as regras de ouro da Internet:

  • Não utilize a mesma senha em mais de um lugar. Use um gerenciador de senhas (1Password para Mac / KeePass para Windows, por exemplo) e crie senhas únicas e fortes para cada conta.
  • Use autenticação em duas etapas em todos os lugares possíveis. Google, Facebook, Twitter, Dropbox, Yahoo, Outlook.com, LinkedIn e muitos outros serviços oferecem essa funcionalidade. Ela exige um outro método de autenticação além da sua senha, portanto mesmo que alguém obtenha a sua senha, esse alguém não conseguiria ter acesso à sua conta.
  • Lembre-se que na Internet tudo é pra sempre. Uma vez lá, não tem como voltar atrás.

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brunoc*Bruno Cardoso é flamenguista, pai da Ollie e consultor de Segurança da Informação há dez anos.

 

 

Crédito das fotos: Gage Skidmore/Flickr/Reprodução/Arquivo Pessoal

O que é o Marco Civil da Internet

Por Eden Cardim*

yay-internet-jen-mussariNesta terça-feira (25) foi aprovado o Marco Civil da Internet, um projeto de lei que regulamenta o uso da Internet no Brasil. São três os temas principais que o projeto discute:

  • Liberdade de expressão

  • Neutralidade de rede

  • Respeito à privacidade

Com o Marco Civil, a Internet passa a ser regulamentada por um conjunto de leis que querem garantir a livre disseminação de informação e estabelecer direitos e deveres de quem usa e fornece serviços através da Internet.

O projeto começou em 2009 através de uma colaboração online no blog Cultura Digital, em reação ao projeto de lei de crimes cibernéticos do deputado Eduardo Azeredo. A proposta do deputado propunha uma série de restrições ao uso da Internet. O projeto previa de um a três anos de reclusão por cada acesso a conteúdo digital protegido por direito autoral, o que significa que você que baixou episódios de Game of Thrones e Breaking Bad poderia ser condenada a até seis anos de cadeia, junto com todos os estudantes de faculdade que imprimem e fotocopiam livros para suas aulas nas universidades brasileiras. Mas o Marco Civil foi sendo construído de uma forma colaborativa, por vários setores da sociedade, e hoje é considerada uma lei bastante avançada.

Vamos a cada um dos temas:

1) Liberdade e acesso 

O tema pegou fogo quando Aaron Swartz, um programador norte-americano, foi indiciado por baixar milhões de dados de um repositório de documentos acadêmicos, através da rede interna do MIT. Detalhe, ele tinha permissão para acessar todos esses documentos. Até hoje não se sabe o que Aaron queria fazer com esse tanto de informação. Isso pode não parecer relevante para um usuário casual de Internet, mas são gênios como Aaron que criam ferramentas tecnológicas que tanto apreciamos no dia-a-dia. Aaron foi, por exemplo, um dos criadores da tecnologia RSS, que é o que move aplicativos como o falecido Google Reader, seu substituto póstumo, o Feedly e o mecanismo de publicação de atualizações de quase todos os blogs em existência.

Fazer esse tipo de pessoa viver à sombra de uma lei que pode colocá-la na cadeia por 35 anos pelo mero fato de acessar informação não é bom pra ninguém, por isso Aaron preferiu o suicídio. Esse é apenas um dos casos onde a liberdade na Internet é prejudicada pelo fato de não existir uma legislação específica: o judiciário utiliza analogias com leis tradicionais. No caso de Aaron, julgaram que ele havia “roubado” os documentos.  Como foi aprovado, o Marco Civil não vai criminalizar a livre expressão de ideias e conteúdos na rede.

2) Por uma rede “neutra”

O Marco Civil também trata o tema da “neutralidade de rede”. Já percebeu como as vezes o Youtube ou o Netflix ficam mais lentos do que outras páginas? Isso acontece porque as operadoras de conexão banda larga muitas vezes restringem a velocidade de navegação em sites específicos, o que é mais barato do que aumentar a infra-estrutura. Basicamente, o Marco Civil diz que estas empresas (como a Net ou Telefônica) não poderão mais alterar a velocidade contratada baseada no conteúdo que consumimos online. A consequência dessa lei é mais profunda do que parece. Sem regulamentação, as operadoras podem fazer acertos com sites específicos, pra que eles tenham prioridade, e no final das contas, as únicas páginas agradáveis de visitar seriam as que pagam as operadoras. Além disso, as empresas poderiam vir a oferecer “pacotes”, onde o conteúdo de websites não contratados ficaria bloqueado, transformando a Internet em algo parecido com TV a cabo: tudo ficaria mais caro e menos acessível. A neutralidade de rede elimina de vez a possibilidade disso acontecer no futuro.

3) Mas e a privacidade?

Outro tema que é tratado pelo Marco Civil é o da privacidade e da preservação de intimidade. Agora, os serviços de hospedagem são obrigados a remover conteúdo de caráter privado, como vídeos íntimos. A regulamentação dificulta os casos conhecidos como “pornografia de vingança”, onde um ex-namorado raivoso publica vídeos íntimos da ex-namorada. Agora, os serviços de hospedagem ficam obrigados e remover esse tipo de conteúdo com apenas uma notificação simples, que pode ser por email, não precisa mais existir um processo legal e burocrático. Mas isso será facilitado apenas em casos de conteúdos de natureza íntima; outros pedidos de retirada de material da rede precisam passar por um processo judicial mais demorado, justamente para evitar censura.

Ainda existem várias questões mais detalhadas e polêmicas para se tratar, mas o Marco Civil é considerado um projeto de lei pioneiro no mundo e coloca o Brasil numa posição de destaque em termos de política tecnológica. Até o criador da Web, Tim Berners-Lee, escreveu um artigo apoiando a lei. Vale lembrar que o projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e passar pela sanção da presidente Dilma Rousseff para ser efetivado.

Leia também:
Mitos e verdades sobre o Marco Civil da Internet

eden cardim

 *Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

 

(Crédito do gif: Jen Mussari/yayinternet.com)