A futurista brasileira que quer imprimir casas

(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de fevereiro/2016)

Tenho medo de não dar tempo”, foi o que a empresaria Anielle Guedes respondeu quando perguntamos o que a fazia perder o sono a noite. Não é para menos: Anielle é CEO e fundadora da Urban 3D, uma empresa que pretende facilitar, baratear e acelerar a construção de moradias sociais através da impressão de materiais. Ao invés de pedreiros, cimento e tijolos, imagine grandes robôs que imprimem paredes e levantam um prédio de cinco andares em poucas semanas, usando bem menos recursos naturais (e humanos) e com 80% de economia. Pelos seus cálculos, um apartamento construído nesses moldes poderia chegar a custar entre 10 e 15 mil reais.

anielle guedes urban 3D

Anielle tem assustadores 22 anos, se formou futurista pela Singularity University (a universidade criada pelo Google + NASA), já palestrou nas Nações Unidas e está acostumada a receber ligações de primeiros ministros e presidentes de países que buscam soluções para moradias sociais. Sua trajetória é exponencial: aos 4 anos ela quis aprender a falar inglês para conversar com todas as pessoas do mundo e aos 13 ela já era tradutora da Anistia Internacional. Basta acompanhar o seu feed do Facebook por 1 dia para entender: ela já mora no futuro, só precisa de paciência para fazer ele chegar ao maior número de pessoas possível.

Apesar de jovem, o seu medo do tempo não é infundado. Anielle sabe que é um peixe pequeno propondo mudanças estruturais, sociais e econômicas em uma das indústrias que mais empregam no mundo. Além disso, o desenvolvimento da tecnologia que ela propõe não é nem um pouco simples e por isso os avanços serão faseados. Muita pesquisa de materiais, protótipos, testes, betas e parcerias comerciais e políticas sólidas precisam acontecer antes dela conseguir imprimir a sua primeira casa. “Mas ao mesmo tempo, em 15 anos a metade das crianças do mundo estarão morando em favelas se a gente não mudar o modelo de urbanização e a forma como a se constrói”, ela desabafa. Conversamos com ela sobre essas e outras dificuldades de viver no futuro:

 

1) Por ora, a principal função da sua empresa é desenvolver pesquisa tecnológica, mas o que você quer mesmo é começar a imprimir casas para abrigar os 3 bilhões de pessoas do mundo que precisam de moradias sociais de qualidade o mais rápido possível. Como você lida com essa intangibilidade, esse “tempo relativo?

A solução é criar produtos intermediários, as pedras fundamentais pra que a gente possa trazer as tecnologias mais avançadas depois. A forma como eu lido com isso é própria de um visionário, no sentido literal da palavra. O visionário é alguém que vislumbra uma tecnologia e vai criando os passos no caminho para poder fazer ela acontecer na realidade. Tem que ter um olho no peixe e o outro no gato, literalmente. No meu caso, a gente vai ter duas ou três tecnologias intermediárias antes de ter a máquina e o sistema construtivo final que a gente imagina. Não é muito fácil. Gera uma certa ansiedade, a gente quer que aconteça logo, mas eu tenho consciência de    que essa é a única forma de empurrar barreiras para fazer esse tipo de coisa acontecer.

 

2) Como você acha que a melhoria das habitações populares poder impactar a sociedade e a história da humanidade como um todo?

Uma das razões da perpetuação do ciclo de pobreza é na verdade a falta de moradia adequada. Não adianta continuar mandando sapato, comida e roupa para a África. Quebrando o ciclo de pobreza a partir do básico, que é a moradia, a gente começa a ter efeitos mais sustentáveis, mexendo em infra-estrutura e olhando para essa solução a longo prazo. A gente chama isso de efeitos integeracionais, talvez não observáveis em primeira geração (apesar de achar que as mudanças são imediatas), mas pensando no futuro, pense neste cenário: uma casa que vem já com painéis solares embutidos e um pequeno jardim vertical para que famílias plantem os seus alimentos (dado que 70% da renda das famílias mais pobres vai direto para isso). Se eu consigo dar acesso a esses outros degraus da pirâmide, algo que era só uma casa, passa a suportar toda a subsistência das pessoas que moram nela. É aí onde a gente passa a ter uma tecnologia que muda as regras do jogo de verdade e que tira as pessoas de uma condição de vulnerabilidade. Quer pirar ainda mais? Então imagine casas feitas de árvores, de ossos… moradias temporárias, feitas de meios naturais, que podem ser mudadas de lugar e que, na hora certa, se dissolvem a voltam para a natureza. Aí você tem um sistema que faz manufatura distribuída, que significa que o que mais importa são os desenhos e as ordens de produção de como fazer aquilo, além do acesso aos recursos de impressão.

 

4) Essa é uma indústria cujo desenvolvimento tecnológico acontece de forma lenta e que empaca em questões básicas como padronização. Muita gente já tentou mudar esse cenário de forma independente. Porque vocês vão conseguir?

O nosso modelo distribuído é a nossa maior vulnerabilidade e o nosso maior ativo ao mesmo tempo. Estamos construindo em partes, desenvolvendo o que a indústria é capaz de absorver, educando o mercado e trabalhando a partir das suas necessidades. Ao mesmo tempo, tem todo um trabalho de mudança de mindset junto à instituições como a ONU, G20 e Banco Mundial para mexer nessas regulamentações. Somos pequenos nesse mundo de gigantes, mas isso nos dá agilidade e independência de poder sentar em todas as mesas que quisermos. Faz 4 mil anos que construímos da mesma forma, já tá na hora de mudar.

 

5) No Brasil, a indústria da construção civil é uma das que mais empregam. Quais as consequências da evolução tecnológica que a sua empresa propõe? É uma mudança bastante significativa, e a automação poderia impactar milhões de famílias. O que muda? O que melhora?

Ela já representa 23% do PIB do Brasil e 1/3 da matriz econômica de uma série de países. Sem dúvidas é uma das indústrias que mais vai ser afetada pela automação. Seja no hardware, ou seja, o processo de colocar um tijolo sobre o outro, seja pela automação de processos mais intelectuais. De fato vamos causar um impacto muito grande, mas esse é um caminho irreversível não só para essa como para várias outras indústrias. O que muda é que agente vai ter uma oferta muito menor de trabalhos mais braçais, uma oferta maior de trabalhos mais especializados (que, no futuro, também serão automatizados). Para ser sincera, o caminho é inevitável: TUDO será automatizado. Se a gente pensar que faz 4 mil anos que construímos da mesma forma, parece até estranho que essas mudanças não aconteçam num ritmo mais rápido, como foi por exemplo com a indústria de automóveis. O processo atual da construção civil não só tem custos elevadíssimos (52% é gasto só com mão de obra) como também gera muitos erros e desperdício de recursos. É uma indústria que precisa urgentemente de produtividade estratégica. O nosso objetivo é começar a trazer a parte de produção para dentro da fábrica, mas também levar a fábrica para dentro do canteiro de obras.