A mulher que alguns gamers amam odiar

*Por Renata Honorato

anita sarkeesian

Anita Sarkeesian causa emoções fortes. No dia 13 de outubro, a Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos, recebeu um email afirmando que a instituição seria palco do maior massacre da história do país caso ela fizesse sua palestra no centro estudantil. Ela buscou proteção da polícia, que disse não poder evitar a entrada de pessoas com armas na universidade, por conta de uma lei local. Diante de uma possível tragédia, Anita desistiu do evento.

O que Anita fez para receber esse tipo de ódio? Ela defende a igualdade de gênero nos videogames.

Ela é a responsável pelo canal de Youtube Feminist FrequencySua série de vídeos “Tropes vs. Women in Video Games” discute a imagem da mulher nos jogos eletrônicos e faz perguntas como: é correto que figuras femininas sejam representadas frequentemente como uma princesa em busca de resgate ou como uma garota de programa que deve ser espancada pelo protagonista? O debate alimentado por Anita anda irritando alguns “entusiastas”, que escondidos sob o anonimato usam a Internet para expor o seu ódio e fazer ameaças de morte, que estão sendo investigadas pelo FBI.

O episódio de Utah não é isolado. Em março, Anita recebeu um prêmio durante o Game Developers Choice Awards, considerado o Oscar dos videogames, pela sua contribuição à indústria e pela importante discussão que levanta a partir de seus vídeos e palestras. Na ocasião, os organizadores do evento receberam um e-mail dizendo que uma bomba seria detonada durante a premiação. Em agosto, Anita fugiu de sua própria casa depois que seu endereço foi divulgado no Twitter por um usuário que prometeu matá-la. Isso sem falar nos incontáveis jogos online nos quais a ativista aparece sendo estuprada e violentada em simulações absurdas. 

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Ela não é a única mulher a desagradar parte da comunidade gamer. A desenvolvedora de games Zoe Quinn viu sua vida se transformar em um inferno por causa de um boato que dizia que ela teria transado com jornalistas especializados em games para receber boas avaliações para o seu jogo. A fofoca foi o gatilho para que “justiceiros” se movimentassem na rede e orquestrassem uma onda de ataques surreais e absurdos contra ela. Fizeram piadas sobre estupro no Twitter e a ofenderam de forma totalmente irresponsável em fóruns e redes sociais.

Anita pode ter cancelado sua palestra em Utah, mas ela deixou claro que não pretende parar. Em seu Twitter, ela escreveu: “Vou continuar meu trabalho. Vou continuar a falar. Toda a indústria de games tem que se posicionar contra o assédio contra mulheres.”

Os games, como qualquer outra manifestação cultural de arte, expressam os valores de seus criadores. E isso é realmente algo preocupante. Os mais otimistas, contudo, acreditam em mudança e até afirmam que os jogos caminharão na mesma direção do cinema, que também enfrentou, décadas atrás, os mesmos dilemas da igualdade de gênero. Eu torço para que eles estejam certos. E você?


renatahonorato*Renata Honorato – Jornalista, cobriu por uma década o mercado de games. Depois de ouvir inúmeras vezes a frase “vai lavar louça”, pensou bem, comprou um máquina de lavar a dita-cuja e continuou escrevendo sobre “joguinhos”, agora com mais tempo, para pagar as contas.

Foto: Divulgação Feminist Frequency