A mulher que quis botar ordem no Reddit

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Por Karla Lopez*

Já ouviu falar do Reddit? É uma salada de bobagens divertidas, como vídeos de gatinhos, misturada com links sérios, como matérias sobre a corrida presidencial americana. Você pode nunca ter entrado no site na vida, mas o conteúdo dele já apareceu no seu Facebook, no seu site preferido, na TV…

Essa fonte inesgotável de entretenimento é o que faz do Reddit um dos sites mais populares da web, acima do Netflix e do Pinterest. Com mais de 170 milhões de usuários (os Redditors), o site conta com milhares de seções (os SubReddits) que dividem o conteúdo em temas que vão desde de “Tatuagem” até “Coisas que pensei no chuveiro”.

O ingrediente mágico do Reddit é uma comunidade forte e ativa, que vota para dar visibilidade aos artigos que eles acham merecer ganhar a primeira página e gera em torno de sete bilhões de visualizações de páginas por mês. Só que lá todo mundo é anônimo. Essa é a grande força do Reddit: enquanto o Facebook tem buscado cada vez mais reforçar a identidade real dos usuários, o Reddit está no lado oposto — lá todo mundo pode fazer e dizer o que bem entender.

Por causa disso, há seções como “Ódio as mulheres”. “Batendo em nerds”, “Racismo”, “Abuso de animais”, entre outros ainda piores e com nomes menos óbvios. Nessas seções você encontra fotos, vídeos e relatos. Dá vontade de vomitar.

A desculpa dos fundadores é a boa e velha “Seres humanos serão humanos”, associada ao direito da liberdade de expressão.

Tudo bem, mas o Reddit é um meio com influência: o que aparece lá vira post em blogs, que vira hashtag no Twitter, que depois é falado e repetido incessantemente na TV, na mesa do bar, no escritório… Quanto mais lixo flutua por lá, mais gente é exposta não só a esse discurso de ódio, mas a coisas ilegais como pornografia infantil e incitação à violência.

Até que Ellen Pao veio para botar ordem na casa.

A executiva ficou famosa no Vale do Silício ao processar um famoso fundo de investimento de risco por discriminação por gênero, pedindo 100 milhões de dólares de indenização. O valor foi calculado com base em salários, promoções e bônus que ela alega ter perdido para colegas homens e brancos com a mesma posição, mas com performance abaixo da dela.

Ellen é formada em engenharia elétrica em Princeton e fez Direito e MBA em Harvard. Mas nada disso a protegeu das mesmas baboseiras que você ou uma amiga já deve ter ouvido no escritório.

No julgamento, Ellen disse ter sofrido assédio sexual e moral como retaliação por terminar um relacionamento com um colega de trabalho casado.

Segundo ela, a equipe costumava dizer que “mulher corta o barato” no trabalho. (Confesso que já ouvi essa várias vezes).

A firma, claro, contou uma versão diferente: disse que ela era não era boa no que fazia, que ela achava ser mais do que realmente entregava e que não sabia trabalhar em equipe. Agora imagina trabalhar em equipe com um time que fica dizendo que você “corta o barato” porque é mulher? E ser produtiva em um trabalho em que um chefe quer te punir por não ser mais amante do amigo dele? Difícil.

O julgamento contou com seis mulheres e seis homens e eles decidiram em favor do empregador, o que eu achei super triste, mas pelo menos o circo todo acendeu várias discussões sobre sexismo no Vale.

Ellen começou a trabalhar no Reddit em 2013 e virou CEO interina em 2014. Ela tomou decisões muito legais, como acabar com negociação de salário na contratação dos empregados, baseada em alguns estudos que dizem que mulheres sempre saem perdendo nesse tipo de situação.

Depois de oito meses na função, ela começou a expandir a audiência do site além do jovem americano branco, que é o público mais clássico do site. Isso gerou revolta nos usuários, que começaram uma campanha de insultos baseados em sexo e raça, além de comparações com Hittler e uma petição com mais de 200 mil assinaturas exigindo sua demissão.

O Reddit é uma mídia online como qualquer outra, vive de publicidade. A intenção dos executivos e investidores é lucrar, mas como vender publicidade pra esse tipo de conteúdo? Quem vai querer anunciar na seção “Odeio Preto” ou “Mulher é tudo vagabunda”? Além de ser imoral e ilegal, é ruim para os negócios, e $$$ é uma língua o Vale do Silício entende muito bem.

Com essa diretriz no começo do ano Ellen liderou o fechamento de algumas seções controversas, como o subreddit “Transfag” (que insultava transsexuals) e “fatpeoplehate” (que insultava pessoas gordas). No começo de julho Victoria Taylor, diretora de comunicações responsável pela seção de perguntas e respostas (uma das mais populares do site) foi demitida de forma muito estranha, e com isso os protestos ficaram ainda inflamados, pintando uma imagem de que sob o comando de Ellen, o Reddit não se preocupava mais com a comunidade de usuários. Os Redditors chegaram a fechar partes populares do site, em protesto à demissão de Victoria, e a culpa toda, segundo eles, foi de Ellen.

Ninguém pode dizer que os ataques foram surpresa. O Reddit é famoso por dar tração a campanhas para desmoralizar mulheres, como a feita contra a crítica de videogames Anita Sarkeesian e a desenvolvedora Zoe Quinn, que recebeu o nome de “Gamergate”.

Vamos combinar que um board que permite que uma empresa vire um viveiro de racismo e sexismo não ia ser capaz de proteger uma CEO mulher e oriental da pressão dos usuários, né? Foi o que aconteceu. Ela foi demitida.

Nesse momento está a maior confusão. Yishan Wong, ex-CEO, acusa um dos fundadores te ter demitido a diretora de comunicações Victoria Taylor e se esconder atrás de Ellen Pao, para que ela levasse a culpa. E onde ele postou essa e outras acusações contra a empresa? No próprio Reddit. E a imprensa também está perdidinha no meio do fogo cruzado.

A pergunta que fica é: será que ela foi queimada em praça pública por fazer o que nenhum homem antes dela teve colhões, que era colocar freios nos trolls do Reddit?

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*Karla Lopez é paulistana, corintiana e vive andando. Queria ser programadora, mas virou radialista. Parte teimosia, parte acaso, acabou co-fundadora de uma empresa de impressão 3d. Está no Vale do Silício há alguns anos mas ainda não entende nada.

Foto: Christopher Michel/Flickr

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Aplicativos para um coração partido

(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de julho/2015)

Ao contrário da história, a Internet faz um péssimo trabalho esquecendo pessoas. Na verdade, quanto mais tempo passa, mais ela lembra. Na época em que a nossa timeline cabia em um diário com cadeado, um coração partido se curava com chocolate, amigos e tempo. O tempo, esse magnânimo, levava todos os cadáveres para longe, e ali eles ficavam.

Que saudades. Hoje a Internet é um Walking Dead com 2.94 bilhões de zumbis.

Encontrar o amor na web pode ser difícil, mas se livrar de um é ainda pior. Seja você o pé ou a bunda, o tecido digital das nossas vidas faz com que seja cada vez mais difícil deixar o tempo fazer o que ele faz de melhor: esquecer. Grande parte do esforço na Ciência da Computação é descobrir formas mais rápidas, baratas e simples de automatizar processos e armazenar informações. Isso significa que cada vez mais as nossas memórias guardadas em forma de dados (e em quantidades inimagináveis) passeiam pela rede como carrinhos de bate-bate.

Você pode bloquear uma pessoa da sua rede social, mas isso não significa que ela deixou de ter vida lá dentro. Pra desespero dos nossos corações, os algoritmos (a sequência de instruções que nos levam de cá pra lá na internet) estão cada vez mais inteligentes e as conexões assustadoras. É tipo “A Volta dos Mortos-Vivos” todinha: fulano vai comparecer ao lançamento do livro do seu ex gato e inteligente, aquela periguete fez check in no restaurante hypado da sua ex-namorada, tua colega da yoga foi marcada na foto do batizado dos gêmeos do seu ex-marido… Isso sem contar os estragos que a nossa própria natureza stalker causa madrugadas adentro. Esse constante remexer em escombros é tóxico, mas é claro que a tecnologia pode ajudar.

 

DrunkMode

Antes de cair na noite você seleciona quais são os contatos que você quer proteger de você mesma ao longo da escalada alcólica. Você pode escolher o tempo do bloqueio (de até 12 horas) e se mesmo assim cair em tentação, o app só irá destravar os contatos se você resolver uma equação matemática. Outra função fofa: ele te lembra do seu trajeto na noite anterior (função “migalha-de-pão” <3) e manda alertas pros amigos quando você estiver perto demais da casa do falecido/a.

are you?

BlockYourEx

Esse é um plugin que funciona no Firefox, Google Chrome e Safari como um guardião. Você diz quais perfis sociais do seu ex você quer evitar, dá o nome completo da persona non grata e o app esconde essa vidinha digital de você. Se você tem problemas com desapego, fica tranquila: ele permite cadastrar até 5 exes.

blockyourex

 

Cloak

Já falamos dessa belezinha por aqui; um aplicativo que usa a sua geolocalização para te avisar sobre os perigos do mundo offline. Ele cruza os dados de Foursquare e Instagram para te alertar quando aquela pessoa estiver perto demais.

cloak

 

 

* HellisOtherPeople

Descobrimos essa depois da coluna ter ido para a gráfica: um desenvolvedor americano criou este sistema parecido com o Cloak, cuja proposta é não só notificar sobre pessoas indesejadas, como também te ajudar a fugir delas. Baseado na sua geolocalização, o app se conecta ao Foursquare para identificar onde estão os seus amigos (ou nem tanto) que andam pela região. Os pontos laranjas são os locais a evitar, mas se já for tarde demais, use as rotas de fuga em verde.

 

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Jean Jullien: o #sincerão da Internet

Jean Jullien é um designer gráfico francês bem-humorado e viciado em Internet. As suas ilustrações são leves e satíricas, de uma simplicidade incrível. Ele retrata os nossos excessos, manias e obsessões digitais de um jeito interessante. Ficamos com aquela inevitável sensação de “quem nunca“. E vocês?

Como a internet lida com a morte?

Na Internet, tudo parece efêmero e novo o tempo todo, mas a verdade é que não percebemos as pegadas digitais que deixamos bit a bit, feito migalhas de pão. Sites e serviços armazenam as nossa criações musicais e visuais, opiniões, dados pessoais, produção intelectual e milhares de gigas em dados. Aos poucos, nos tornamos acumuladores digitais desenfreados. Mas o que acontece quando morremos já que, na rede, tudo permanece?

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Já é comum ver perfis em redes sociais sobreviverem à morte de seus donos. Eles se tornaram parte do processo de luto da sociedade contemporânea, e chegam a durar anos sendo alimentados por familiares e amigos saudosos em datas especiais. O Youtube, Twitter, Facebook e Dropbox desenvolveram políticas e ferramentas para ajudar as famílias dos que morreram, mas ainda assim a legislação ainda é um pouco vaga sobre o que pode ou não ser feito com esses dados. Em setembro do ano passado, por exemplo, o Instagram cometeu uma gafe pesada ao soltar um post agendado, pago pela Apple, no perfil da atriz Joan Rivers, falecida havia 15 dias.

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Esses sustos digitais rolam com frequência e, vez ou outra, fantasmas de Facebook sapecam por aí curtindo páginas de marcas que postam em seu nome. Mas há quem deseje permanecer “vivo” e pague por isso: com toda a informação que deixamos disponível, start-ups experimentais conseguem reproduzir padrões de postagem, check ins, curtidas e até interações com amigos, como o projeto LifeNaut. O serviço DeadSoci.al, por exemplo, permite arquivar mensagens (de video, foto, áudio e texto) que são enviadas gradativamente após a morte para as suas pessoas preferidas e ensina a lidar com a morte em várias redes diferentes.

First Message with icon - DeadSocial
“Olá mundo, esta é a primeira mensagem desde que eu morri (…) as próximas mensagens serão enviadas nos meus perfis sociais pelos prórimos 50 anos.”

O aplicativo Vuture te incentiva a guardar momentos especiais enquanto eles acontecem para serem compartilhados depois da sua morte, e o Remembered cobra apenas US$9,95 para manter uma página em sua memória para sempre. Mas se há o risco de ninguém saber quem avisar, o Death Switch ajuda: se você passar mais de 2 meses sem responder suas notificações, o sistema presume que você morreu, avisa geral e passa as suas informações para alguém de sua confiança. Nos Estados Unidos, especialistas em vestígios digitais começaram campanhas de conscientização a respeito da importância de cuidar desse legado.

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No Japão, um país de muitos velhinhos e uma indústria de morte estabelecida com naturalidade, esse planejamento é rotineiro. O Yahoo! Ending, por exemplo, ajuda a organizar funerais previamente contratados, dá instruções do que fazer com o seu histórico na internet, apaga perfis e contas, ensina a escrever testamentos, cancela débitos automáticos e manda até mensagens de despedida para pessoas escolhidas. Mão na roda para quem fica, segurança para quem vai.

Unfriended é a Bruxa de Blair versão Skype

Lá por mil e novecentos e noventa e bolinha (1999, para ser mais exata) um filme independente de baixo orçamento chamado A Bruxa de Blair marcou a história do gênero de terror por algumas inovações: montado a partir de imagens gravadas e abandonadas por um trio de estudantes (na verdade atores) que se embrenharam numa floresta nos Estados Unidos para fazer um documentário sobre uma lenda local de uma bruxa que matava crianças. Também foi um dos primeiro filmes a usar fortemente a Internet para promoção, com um site próprio e materiais extras para reforçar a sensação que se tratava de uma história real.

Quase dezesseis anos depois, agora o filme de terror se passa no Youtube, Skype e mídias sociais. Uma adolescente se mata depois que alguém posta um vídeo dela bêbada no Youtube e um ano depois de sua morte, vem assombrar seu grupo de amigos durante um vídeo chat. Essa é a premissa de Unfriended, com estreia nos EUA prevista para abril.

Vai fazer sucesso que nem A Bruxa de Blair fez em 1999 e criar toda uma nova estética de “terror-via-Skype”? Daqui a alguns meses a gente descobre.

Veja o trailer:

 

Via Recode.