Buddy, o robô fofinho que quer morar na sua casa

Robô Buddy
A campanha para financiar o Buddy já arrecadou quase quatro vezes a meta inicial

*Por Claudia Tozetto

Já pensou em poder dormir aqueles cinco minutinhos a mais enquanto alguém vai acordar seus filhos para ir à escola? E poder verificar, à distância, se você esqueceu o fogão ligado ao sair de casa? Um novo robô chamado Buddy, que será lançado pela Blue Frog Robotics no ano que vem, será capaz de fazer todas essas tarefas. Mais do que um assistente doméstico, porém, ele quer se tornar parte da sua família. “Nós criamos o Buddy para ser o primeiro robô de companhia a entrar em nossas casas. Ele vai mudar nossas vidas”, diz Rodolphe Hasselvander, cofundador e CEO da Blue Frog.

O pequeno robô branco tem 54 centímetros de altura e um tablet posicionado no lugar da cabeça. A tela apresenta um rosto animado — com direito a olhos, nariz, boca e até sobrancelhas –, que muda de expressão conforme a conversa com os moradores da casa. O Buddy não tem braços ou pernas, mas traz uma câmera na cabeça e cinco sensores no corpo, o suficiente para desviar dos móveis pelo caminho. Ele entende comandos por voz e até fala com seus donos em diversos idiomas, inclusive em português.

Veja o vídeo em inglês:

A inspiração para o visual do Buddy veio não só dos filmes de ficção científica, como Star Wars, mas também dos robôs que aparecem em animações para crianças. Por ser usado dentro de casa, uma das preocupações da equipe era de criar algo que não intimidasse os moradores. “O Buddy tem um ‘cabeção’ e olhos expressivos. Ele é uma mistura entre um cachorro, um iPad, o Wall-E e a Eva”, diz Hasselvander, citando os dois personagens principais do filme Wall-E, lançado em 2008 pela Pixar.

O Buddy é resultado de um trabalho de 15 anos de pesquisa de Hasselvander. Desde 2007, ele é gerente do Centro de Robótica Integrada da França (CRIIF, na sigla em francês) e criou a Blue Frog para levar a tecnologia da universidade para o mercado na forma de robôs amigáveis e baratos, que possam ser usados por qualquer pessoa. “Já desenvolvi diferentes robôs para atender vários tipos de usuários, como famílias, crianças e idosos, e aprendi quais funções são realmente úteis”, diz Hasselvander.

Para chegar ao mercado, porém, o Buddy ainda tem um longo caminho pela frente. A startup francesa começou, há um mês, uma campanha no site Indiegogo para levar fundos para iniciar a produção do robô. A seis dias do fim da campanha, o Buddy já levantou mais de 350 mil dólares, quase quatro vezes superior à meta inicial, que era de 100 mil dólares. Até o momento, 550 pessoas contribuíram para o projeto. O dinheiro extra será usado no desenvolvimento de novos recursos e acessórios para o Buddy.

Buddy também ajuda no cuidado com idosos
Buddy também ajuda no cuidado com idosos

A versatilidade do robozinho é o motivo principal para atrair tanta gente para a campanha. O Buddy será programado para executar múltiplas tarefas relacionadas à vida doméstica. Ele pode manter a casa segura, já que vigia o ambiente e notifica o dono em caso de movimentações suspeitas ou se detectar fumaça ou vazamento. Ele também reconhece os moradores e pode ajudar cada um deles a lembrar de seus compromissos, além de tocar música, fotografar, filmar e ler suas receitas favoritas. No caso dos idosos, o Buddy pode detectar quedas e falta de atividade – e enviar um alerta para o smartphone do parente ou cuidador mais próximo.

Outros recursos devem chegar ao Buddy em breve, já que seu sistema operacional é baseado no Android, do Google. Isso vai permitir que desenvolvedores independentes criem novas funções e acessórios. “Temos o grande sonho de democratizar o campo da robótica”, dizem os executivos da empresa, no Indiegogo. Entre os acessórios que já foram desenvolvidos pela Blue Frog e que estarão disponíveis no ano que vem está uma estação para carregar a bateria do robô e um braço-projetor. Com ele, os donos do robô poderão exibir seu filme favorito em qualquer superfície.

O Buddy vai custar a partir de 759 dólares quando chegar às lojas, no final de 2016. Os Estados Unidos, além de países na Ásia e na Europa, estarão entre os primeiros a receberem o produto. Ainda não há previsão de lançamento do Buddy no Brasil.

Fotos: Divulgação

A mulher que quis botar ordem no Reddit

ellenpao

Por Karla Lopez*

Já ouviu falar do Reddit? É uma salada de bobagens divertidas, como vídeos de gatinhos, misturada com links sérios, como matérias sobre a corrida presidencial americana. Você pode nunca ter entrado no site na vida, mas o conteúdo dele já apareceu no seu Facebook, no seu site preferido, na TV…

Essa fonte inesgotável de entretenimento é o que faz do Reddit um dos sites mais populares da web, acima do Netflix e do Pinterest. Com mais de 170 milhões de usuários (os Redditors), o site conta com milhares de seções (os SubReddits) que dividem o conteúdo em temas que vão desde de “Tatuagem” até “Coisas que pensei no chuveiro”.

O ingrediente mágico do Reddit é uma comunidade forte e ativa, que vota para dar visibilidade aos artigos que eles acham merecer ganhar a primeira página e gera em torno de sete bilhões de visualizações de páginas por mês. Só que lá todo mundo é anônimo. Essa é a grande força do Reddit: enquanto o Facebook tem buscado cada vez mais reforçar a identidade real dos usuários, o Reddit está no lado oposto — lá todo mundo pode fazer e dizer o que bem entender.

Por causa disso, há seções como “Ódio as mulheres”. “Batendo em nerds”, “Racismo”, “Abuso de animais”, entre outros ainda piores e com nomes menos óbvios. Nessas seções você encontra fotos, vídeos e relatos. Dá vontade de vomitar.

A desculpa dos fundadores é a boa e velha “Seres humanos serão humanos”, associada ao direito da liberdade de expressão.

Tudo bem, mas o Reddit é um meio com influência: o que aparece lá vira post em blogs, que vira hashtag no Twitter, que depois é falado e repetido incessantemente na TV, na mesa do bar, no escritório… Quanto mais lixo flutua por lá, mais gente é exposta não só a esse discurso de ódio, mas a coisas ilegais como pornografia infantil e incitação à violência.

Até que Ellen Pao veio para botar ordem na casa.

A executiva ficou famosa no Vale do Silício ao processar um famoso fundo de investimento de risco por discriminação por gênero, pedindo 100 milhões de dólares de indenização. O valor foi calculado com base em salários, promoções e bônus que ela alega ter perdido para colegas homens e brancos com a mesma posição, mas com performance abaixo da dela.

Ellen é formada em engenharia elétrica em Princeton e fez Direito e MBA em Harvard. Mas nada disso a protegeu das mesmas baboseiras que você ou uma amiga já deve ter ouvido no escritório.

No julgamento, Ellen disse ter sofrido assédio sexual e moral como retaliação por terminar um relacionamento com um colega de trabalho casado.

Segundo ela, a equipe costumava dizer que “mulher corta o barato” no trabalho. (Confesso que já ouvi essa várias vezes).

A firma, claro, contou uma versão diferente: disse que ela era não era boa no que fazia, que ela achava ser mais do que realmente entregava e que não sabia trabalhar em equipe. Agora imagina trabalhar em equipe com um time que fica dizendo que você “corta o barato” porque é mulher? E ser produtiva em um trabalho em que um chefe quer te punir por não ser mais amante do amigo dele? Difícil.

O julgamento contou com seis mulheres e seis homens e eles decidiram em favor do empregador, o que eu achei super triste, mas pelo menos o circo todo acendeu várias discussões sobre sexismo no Vale.

Ellen começou a trabalhar no Reddit em 2013 e virou CEO interina em 2014. Ela tomou decisões muito legais, como acabar com negociação de salário na contratação dos empregados, baseada em alguns estudos que dizem que mulheres sempre saem perdendo nesse tipo de situação.

Depois de oito meses na função, ela começou a expandir a audiência do site além do jovem americano branco, que é o público mais clássico do site. Isso gerou revolta nos usuários, que começaram uma campanha de insultos baseados em sexo e raça, além de comparações com Hittler e uma petição com mais de 200 mil assinaturas exigindo sua demissão.

O Reddit é uma mídia online como qualquer outra, vive de publicidade. A intenção dos executivos e investidores é lucrar, mas como vender publicidade pra esse tipo de conteúdo? Quem vai querer anunciar na seção “Odeio Preto” ou “Mulher é tudo vagabunda”? Além de ser imoral e ilegal, é ruim para os negócios, e $$$ é uma língua o Vale do Silício entende muito bem.

Com essa diretriz no começo do ano Ellen liderou o fechamento de algumas seções controversas, como o subreddit “Transfag” (que insultava transsexuals) e “fatpeoplehate” (que insultava pessoas gordas). No começo de julho Victoria Taylor, diretora de comunicações responsável pela seção de perguntas e respostas (uma das mais populares do site) foi demitida de forma muito estranha, e com isso os protestos ficaram ainda inflamados, pintando uma imagem de que sob o comando de Ellen, o Reddit não se preocupava mais com a comunidade de usuários. Os Redditors chegaram a fechar partes populares do site, em protesto à demissão de Victoria, e a culpa toda, segundo eles, foi de Ellen.

Ninguém pode dizer que os ataques foram surpresa. O Reddit é famoso por dar tração a campanhas para desmoralizar mulheres, como a feita contra a crítica de videogames Anita Sarkeesian e a desenvolvedora Zoe Quinn, que recebeu o nome de “Gamergate”.

Vamos combinar que um board que permite que uma empresa vire um viveiro de racismo e sexismo não ia ser capaz de proteger uma CEO mulher e oriental da pressão dos usuários, né? Foi o que aconteceu. Ela foi demitida.

Nesse momento está a maior confusão. Yishan Wong, ex-CEO, acusa um dos fundadores te ter demitido a diretora de comunicações Victoria Taylor e se esconder atrás de Ellen Pao, para que ela levasse a culpa. E onde ele postou essa e outras acusações contra a empresa? No próprio Reddit. E a imprensa também está perdidinha no meio do fogo cruzado.

A pergunta que fica é: será que ela foi queimada em praça pública por fazer o que nenhum homem antes dela teve colhões, que era colocar freios nos trolls do Reddit?

klo

*Karla Lopez é paulistana, corintiana e vive andando. Queria ser programadora, mas virou radialista. Parte teimosia, parte acaso, acabou co-fundadora de uma empresa de impressão 3d. Está no Vale do Silício há alguns anos mas ainda não entende nada.

Foto: Christopher Michel/Flickr

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A mulher que alguns gamers amam odiar

*Por Renata Honorato

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Anita Sarkeesian causa emoções fortes. No dia 13 de outubro, a Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos, recebeu um email afirmando que a instituição seria palco do maior massacre da história do país caso ela fizesse sua palestra no centro estudantil. Ela buscou proteção da polícia, que disse não poder evitar a entrada de pessoas com armas na universidade, por conta de uma lei local. Diante de uma possível tragédia, Anita desistiu do evento.

O que Anita fez para receber esse tipo de ódio? Ela defende a igualdade de gênero nos videogames.

Ela é a responsável pelo canal de Youtube Feminist FrequencySua série de vídeos “Tropes vs. Women in Video Games” discute a imagem da mulher nos jogos eletrônicos e faz perguntas como: é correto que figuras femininas sejam representadas frequentemente como uma princesa em busca de resgate ou como uma garota de programa que deve ser espancada pelo protagonista? O debate alimentado por Anita anda irritando alguns “entusiastas”, que escondidos sob o anonimato usam a Internet para expor o seu ódio e fazer ameaças de morte, que estão sendo investigadas pelo FBI.

O episódio de Utah não é isolado. Em março, Anita recebeu um prêmio durante o Game Developers Choice Awards, considerado o Oscar dos videogames, pela sua contribuição à indústria e pela importante discussão que levanta a partir de seus vídeos e palestras. Na ocasião, os organizadores do evento receberam um e-mail dizendo que uma bomba seria detonada durante a premiação. Em agosto, Anita fugiu de sua própria casa depois que seu endereço foi divulgado no Twitter por um usuário que prometeu matá-la. Isso sem falar nos incontáveis jogos online nos quais a ativista aparece sendo estuprada e violentada em simulações absurdas. 

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17 mulheres que fizeram da Internet o que ela é hoje

Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

Ela não é a única mulher a desagradar parte da comunidade gamer. A desenvolvedora de games Zoe Quinn viu sua vida se transformar em um inferno por causa de um boato que dizia que ela teria transado com jornalistas especializados em games para receber boas avaliações para o seu jogo. A fofoca foi o gatilho para que “justiceiros” se movimentassem na rede e orquestrassem uma onda de ataques surreais e absurdos contra ela. Fizeram piadas sobre estupro no Twitter e a ofenderam de forma totalmente irresponsável em fóruns e redes sociais.

Anita pode ter cancelado sua palestra em Utah, mas ela deixou claro que não pretende parar. Em seu Twitter, ela escreveu: “Vou continuar meu trabalho. Vou continuar a falar. Toda a indústria de games tem que se posicionar contra o assédio contra mulheres.”

Os games, como qualquer outra manifestação cultural de arte, expressam os valores de seus criadores. E isso é realmente algo preocupante. Os mais otimistas, contudo, acreditam em mudança e até afirmam que os jogos caminharão na mesma direção do cinema, que também enfrentou, décadas atrás, os mesmos dilemas da igualdade de gênero. Eu torço para que eles estejam certos. E você?


renatahonorato*Renata Honorato – Jornalista, cobriu por uma década o mercado de games. Depois de ouvir inúmeras vezes a frase “vai lavar louça”, pensou bem, comprou um máquina de lavar a dita-cuja e continuou escrevendo sobre “joguinhos”, agora com mais tempo, para pagar as contas.

Foto: Divulgação Feminist Frequency

Privacidade: o que você e George Clooney têm em comum?

*Por Julia Costa Teles

Aconteceu o que parecia impossível: George Clooney se casou. O ator de Hollywood monopolizou os holofotes no fim de semana ao oficializar sua união com Amal Alamuddin, uma advogada britânica de origem libanesa, em  um evento de três dias em Veneza, na Itália. Mas fora o cenário cinematográfico, os convidados famosos e o vestido Oscar de La Renta da noiva, o casamento de Clooney chamou atenção pela sua política de segurança da informação. Sim, você leu certo, segurança da informação.

Uma regra foi imposta ao convidados: deixar seus celulares no hotel ou em um quiosque na festa. Mas não é que fosse proibido fotografar: todos ganharam um celular descartável e uma máquina de fotográfica com códigos de rastreamento embutidos. Se alguém publicasse uma foto nas redes sociais ou, pior, vendesse a imagem, o casal saberia quem foi o responsável. Assim, Clooney e Amal conseguiram manter o controle sobre o que era divulgado a respeito de seu casamento, já que as fotos oficiais tinham sido prometidas a revistas de celebridades.

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Esse recente episódio reforça algo que muitas de nós já percebemos. Para evitar que aquela foto íntima apareça em lugares indesejados, é preciso estar no comando. E, no caso das celebridades, traçar verdadeiros planos de guerra como o de Clooney. Este exemplo, somado aos casos cada vez mais frequentes de pornografia de vingança e de cyberstalking, um novo tipo de crime cibernético que consiste no uso de ferramentas tecnológicas para perseguir uma pessoa devido à exposição de conteúdo privado, prova que não somos tão diferentes assim das celebridades. Um estudo recente da empresa de software de segurança McAfee mostrou que nós, reles mortais brasileiras, não estamos mais seguras que os famosos no nosso anonimato.

A pesquisa foi feita no início do ano no país e diz respeito à nossa forma de se relacionar em tempos de internet. Segundo o estudo, feito com 500 pessoas, 62% enviam ou recebem conteúdo privado, incluindo vídeos, fotos, e-mails e mensagens em seus celulares, enquanto 65% dos que recebem afirmaram armazenar esse conteúdo em seus aparelhos. Além disso, 54% dos entrevistados disseram utilizar seus telefones para compartilhar ou dividir mensagens de texto, e-mails ou fotos íntimas de conteúdo sexual, e 22% afirma ter feito vídeos de conteúdo sexual com seus dispositivos móveis.

Dos entrevistados pela McAfee, 82% disseram proteger seus smartphones com senha ou código de acesso, o que é ótimo. No entanto, 43% também assumiram que compartilham as senhas com seus parceiros ou parceiras e 49% usam a mesma senha em vários dispositivos, o que não é recomendado pelos especialistas em segurança da informação. Além de senhas, 60% dividem com os parceiros o conteúdo do smartphone e 63% compartilham também as contas de e-mail.

A pesquisa diz mais: entre aqueles que assumem enviar conteúdo íntimo, 76% mandam para parceiros, enquanto 17% compartilham com desconhecidos. Mesmo assim, 91% das pessoas diz confiar que seus parceiros não enviarão conteúdo íntimo ou informações privadas para outras pessoas. Porém, 75% diz que pede para o/a parceiro/a apagar os dados quando terminam um relacionamento.

Segundo o estudo, a faixa etária entre 18 a 24 anos é a mais preocupada em acompanhar o que o/a parceiro/a faz na internet: 79% dos entrevistados olham o celular do outro para ver o conteúdo armazenado nele, incluindo mensagens e fotos. As pessoas que assumem entrar na conta do Facebook do/a companheiro/a pelo menos uma vez por dia somam 27%, enquanto 39% dos entrevistados admitiram bisbilhotar o/a ex nas redes sociais.

Ou seja, enquanto os vazamentos de fotos estiverem restritos às celebridades, você pode se sentir segura sem estar de fato. Porém, já que agir como George Clooney é praticamente impossível se você não é um todo-poderoso de Hollywood, o melhor mesmo é refletir sobre seu próprio comportamento na web e aprender a se proteger.

Veja o infográfico completo da McAfee:

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Como você pode proteger suas fotos íntimas

Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web
Jennifer Lawrence foi uma das atrizes que tiveram suas fotos íntimas expostas na Web

Por Bruno Cardoso*

Trinta e um de Agosto de dois mil e quatorze entrará para a história como o dia do “The Fappening” (em português, algo como “Dia da Punhetação”). O termo ridículo ganhou notoriedade após uma série de fotos mulheres famosas como Jennifer Lawrence, Kate Upton, Aubrey Plaza e Selena Gomez terem sido publicadas no que muitos consideram um dos locais mais desagradáveis da Internet: o fórum 4chan. Basta dizer que, ao navegar no submundo do 4chan, as suas chances de se ofender beiram 100%, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que alguém (ou mais de um alguém, de acordo com o que sugere a evidência disponível até o momento) obteve acesso a fotos íntimas de atrizes, atletas, modelos e demais pessoas famosas (sim, eu estou explicitamente evitando o uso da palavra “celebridade”) e publicou tais fotos para todo mundo ver.

É possível que uma falha do iCloud da Apple tenha contribuido para esse fiasco, mas não há nenhuma prova conclusiva sobre isso, portanto não vou entrar nesse mérito. Vou apenas dizer que sim, havia um problema no iCloud que permitia que pessoas tentassem diversas senhas para um determinado usuário sem que a conta fosse bloqueada por tentativas inválidas, mas isso já foi corrigido e é pouco provável que tenha sido essa a causa de todo o bafáfá.

Entenda mais sobre segurança de dados e criptografia no nosso artigo sobre o Heartbleed

De toda forma, aconteceu o que aconteceu e a Internet ficou de pernas pro ar com reações entre o “quem mandou tirar foto pelada?” e o “hã?”. Para a primeira eu respondo: ninguém mandou, mas todo mundo nesse planeta tem o direito de tirar quantas fotos quiser, pelado(a) ou não, sem que alguém venha e roube ditas fotos. Para a segunda reação eu digo: “Exato”. No frigir dos ovos, foi isso o que aconteceu: alguém roubou fotos íntimas de pessoas famosas e publicou na Internet para todo mundo ver. Não é a primeira vez que isso acontece e nem será a última. E isso não é exclusividade de pessoas famosas, diga-se. Temos casos e mais casos de não-famosos que “caíram na net”. Não sou qualificado para dissertar sobre as implicações sociológicas desse fenômeno, mas posso oferecer algumas dicas para que você ao menos evite que isso aconteça com você.

Antes de mais nada, deixe-me deixar absolutamente claro que eu não acho que as pessoas não deveriam tirar fotos comprometedoras. O corpo é seu e você tira quantas fotos você quiser e compartilha com quem bem entender. Porém, suas fotos comprometedoras (por qualquer definição que você tenha para a palavra) estarão tão seguras quanto a pessoa que recebe tal material quiser que elas estejam. Se você resolveu enviar qualquer tipo de foto/vídeo/SMS/WhatsApp/SnapChat para terceiros, saiba que esse material saiu do seu controle e não há absolutamente nada que você possa fazer sobre isso.

Pausa para falar sobre serviços que prometem anonimato. Não confie em SnapChat Secret/Tinder/Grindr e afins. Não são tão anônimos assim.

Certo! Mas e se eu quiser tirar umas fotos picantes (de acordo com a sua definição de picante, claro) com o meu namorado(a) / marido(a) / companheira(o) sem compartilhar com ninguém? Antes de mais nada, certifique-se que essas fotos não serão enviadas para “a nuvem” sem que você tenha conhecimento. Se você possui um iPhone, certifique-se que suas fotos não estão sendo enviadas automaticamente para o iCloud. No iPhone, vá em Ajustes > iCloud > Fotos e desmarque a opção “Meu Compartilhamento de Fotos”:

Se você tem o Dropbox no seu telefone, verifique se suas fotos não estão sendo automaticamente enviadas. Abra o aplicativo, vá em “Settings”  (“Configurações” em português) e desmarque a opção Camera Upload:

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A idéia é a mesma para Android / Windows Phone e para qualquer outro serviço de backup na “nuvem” do tipo Google Drive e Microsoft One Drive.

Se você já tem coisas no seu computador que você não quer compartilhar – intencionalmente ou não – com terceiros, considere criptografar seus arquivos. Para os usuários de Mac, um software como o Knox é uma boa opção. O Knox cria uma espécie de disco virtual que requer uma senha para ser acessado. Uma vez que o disco virtual está ativo, basta jogar seus arquivos confidenciais para dentro dele como se fosse um pendrive e pronto.

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Para Windows, recomendo o Gpg4win. Basta baixar, instalar e clicar com o botão direito na pasta ou arquivo que você quer proteger:

gpg4win

Além disso tudo, é sempre bom seguir as regras de ouro da Internet:

  • Não utilize a mesma senha em mais de um lugar. Use um gerenciador de senhas (1Password para Mac / KeePass para Windows, por exemplo) e crie senhas únicas e fortes para cada conta.
  • Use autenticação em duas etapas em todos os lugares possíveis. Google, Facebook, Twitter, Dropbox, Yahoo, Outlook.com, LinkedIn e muitos outros serviços oferecem essa funcionalidade. Ela exige um outro método de autenticação além da sua senha, portanto mesmo que alguém obtenha a sua senha, esse alguém não conseguiria ter acesso à sua conta.
  • Lembre-se que na Internet tudo é pra sempre. Uma vez lá, não tem como voltar atrás.

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brunoc*Bruno Cardoso é flamenguista, pai da Ollie e consultor de Segurança da Informação há dez anos.

 

 

Crédito das fotos: Gage Skidmore/Flickr/Reprodução/Arquivo Pessoal

Secret, privacidade e a web profunda

Por Eden Cardim*

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crédito da foto: Nuno Martins

Já vivemos na segunda geração de redes sociais e temos uma certa familiaridade com elas. A principal característica dos usuários dessas redes é a construção de uma espécie de personagem digital que conversa com um público específico. Quase todos fazem isso em algum nível, alguns mais, outros menos. A boa construção do personagem é o que determina o seu sucesso na rede, inclusive, os de maior sucesso são fictícios e até certo ponto anônimos, tais como “OCriador e a “Dilma Bolada“.

Essa semana, descobri e instalei o aplicativo Secret no meu Android e fiquei instantaneamente maravilhado. A premissa é simples, trata-se de uma rede social, como outra qualquer, exceto pelo fato de que todos os usuários são anônimos. A única informação divulgada a seu respeito é se você pertence ao meu grupo de amigos de facebook, se é um amigo de amigo e a sua proximidade. O anonimato tem mostrado um efeito radical no conteúdo publicado pelos usuários, que eu atribuo ao fato de que a construção do personagem simplesmente não existe. Se o grande diferencial do twitter é que ele obriga as pessoas a serem concisas e objetivas com suas publicações, agora é possível recriar o personagem inteiro a cada publicação, ele nasce e morre ali mesmo, junto com o post. Segundo o co-fundador David Mark Byttow, ex-funcionário do Google, o fato de você saber que são amigos falando coisas que eles nunca te contariam caso fossem identificados, é o grande diferencial do Secret. As pessoas têm usado o app com diversos propósitos: como confissionário, como lugar para fazer perguntas e dar respostas a questões controversas, e é claro, para publicar, falar e curtir conteúdo adulto. Afinal de contas há um ditado popular no mundo digital que diz que tudo na Internet tem um único propósito: sexo.

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Moralismos à parte, o anonimato cria uma realidade completamente nova para os usuários de Internet e a popularização do aplicativo deixa claro que o poder de se comunicar irrestritamente é uma necessidade humana que ainda tem muito espaço para ser preenchida. Com tão pouco tempo de vida, o aplicativo está gerando debates acalorados sobre privacidade e  liberdade civil na Internet. Inclusive já existem várias denúncias de difamação  girando em torno de publicações que expõem adolescentes, principalmente meninas, como alvo de um tipo de bullying muito mais agressivo e destruidor por ser anônimo. Além disso, não é difícil cruzar com posts que fazem apologia à homofobia, racismo, pedofilia e tráfico de drogas. As brigas judiciais envolvendo o app podem inaugurar a aplicação das leis de privacidade do Marco Civil no Brasil.

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Apesar dessa febre por aplicativos que nos tornam “invisíveis”, a tendência ao anonimato  é bastante antiga. A informação na Internet é, na verdade, parecida com um iceberg; a ponta é o conteúdo comum a qual todos tem acesso no dia-a-dia, chamada de WWW (World-Wide Web), mas o grande volume de informação que trafega na Internet está escondida sob a superfície e se chama “Deep Web” (web profunda). Estima-se que a Deep Web é cerca de 500 vezes maior que a WWW em volume de dados, que não são indexáveis pelos mecanismos de busca tradicionais como Google, Bing e Yahoo. Boa parte da informação está distribuida em redes par-a-par (peer-to-peer ou P2P), que basicamente criptografa e replica os dados entre vários computadores de forma que nenhum indivíduo específico seja o único responsável pelo armazenamento e distribuição de informação.

Hoje em dia a forma mais segura de navegar pela Internet anonimamente é usando o TOR, um browser que permite que você acesse qualquer website sem que ninguém saiba de onde vem o acesso. Trata-se de um browser, similar ao Google Chrome ou Safari, porém ele implementa uma tecnologia adicional que permite seu uso como intermediário para outras pessoas. Sempre que você acessa um website, a informação é dividida e criptografada, trafegando por diversas máquinas de outras pessoas que também estejam usando o browser do TOR. O caminho que a informação percorre é escolhido aleatoriamente a cada acesso e a cada clique, por isso o site reconhece o seu acesso como se tivesse vindo de um lugar diferente. O mesmo se aplica ao caminho inverso: você pode abrir um website anônimo que só será acessível dentro do TOR e ninguém saberá onde ele está hospedado. O anonimato fornecida pelo TOR é tão eficiente que um dos websites da web profunda mais poderosos, chamado “Silk Road“, ficou conhecido como o “Amazon das drogas ilícitas”. O FBI levou 3 anos para encontrá-lo. Durante esse período o serviço arrecadou $1,2 milhão por mês e só foi encontrado porque seu dono entrou por acidente numa rede comum fora do TOR.

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Você sabe como proteger a sua privacidade no Facebook?

Dessa forma, informações que seriam geralmente controversas podem ser consultadas sem o constrangimento que as pessoas normalmente sentiriam. É possível criar pseudônimos em fóruns de discussão pública tendo a certeza de que ninguém jamais conseguirá rastrear o originador das publicações.  O potencial é enorme, já que as pessoas podem pesquisar a respeito de assuntos considerados tabu sem serem discriminadas, tal como sexualidade, drogas, doenças e podem até formar grupos de recuperação de anônimos online. Mesmo em casos mais simples, o anonimato também é útil quando se usa Internet em locais públicos, para garantir que sua informação não será monitorada ou usada para outros propósitos.

A sensação de liberdade obtida pelo anonimato muda completamente a perspectiva da busca por informação. Como ainda estamos compreendendo as implicações desse tipo de comunicação, existe um debate acirrado a respeito do uso dessas tecnologias, elas podem ser usadas de maneira perfeitamente inócua e também de maneira ilícita. Cabe a você definir os limites de até onde vai sua própria moralidade e sempre fazer bom uso da tecnologia como entender melhor.

 

eden cardim*Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

De onde saem os doodles do Google da Copa do Mundo?

*Por Julia Costa Teles

Do alto do número 3477 da Avenida Faria Lima, em São Paulo, um grupo de quatro designers passa seus últimos dias no Brasil. Da sala transformada em laboratório de criação saíram os mais de 60 diferentes logotipos do Google (chamados de doodles) que celebraram a Copa do Mundo. E alguns mais estão por vir até a final, no domingo 13 de julho.

Essa foi a primeira vez na história do Google que os doodlers – como são chamados o grupo de 20 funcionários responsáveis por recriar os logotipos da empresa – trabalharam fora do quartel-general da empresa, em Mountain View, na Califórnia. No Brasil, eles estão representados por Matthew Cruickshank, Leon Hong, Sophie Diao e Ryan Germik.

O primeiro doodle nasceu em 1998, quando os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin resolveram modificar o logotipo da empresa para avisar seus clientes de que estariam fora do escritório participando do festival Burning Man. Dois anos mais tarde, um doodle comemorando o Dia da Bastilha foi tão bem recebido que a empresa resolveu criar um departamento dedicado a celebrar eventos e datas comemorativas.

Segundo Cruickshank, o objetivo da experiência da Copa do Mundo era aproximar os doodlers da cultura e do povo brasileiro. Com isso, a rotina dos quatro mudou por completo. Eles, que em geral fazem seus desenhos com três meses de antecedência e trabalham em cima de lista pré-planejada de efemérides, passaram a criar doodles freneticamente de um dia para outro, às vezes mais de um por dia, para acompanhar o ritmo dos jogos. Além disso, o grupo assumiu o compromisso de representar todas as 32 seleções pelo menos uma vez.

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A inspiração vem da própria competição, das referências locais e das redes sociais. No quartel-general montado pela equipe do Google Brasil, eles têm acesso, em três televisões, ao Google Trends – site de monitoramento de tendências da internet -, às redes sociais dos jogadores, aos jogos quando eles acontecem e ao noticiário no resto do tempo. Além disso, pela hashtag #GoogleDoodles eles recebem sugestões dos fãs. Veja na galeria:

Espalhadas pelo local estão bandeiras de vários países, tabelas da Copa, o álbum de figurinhas oficial da Fifa, um toca-discos com vinis de MPB, camisetas, chuteiras, troféus, rascunhos e mais rascunhos de doodles e um quadro branco. Mas é no computador que as homenagens ganham vida. A grande maioria é feita em Flash, e todo mundo contribui um pouco com as habilidades que possui.

O Google, diferente de outras marcas, optou por apenas retratar a parte boa da Copa. Por isso ninguém viu um doodle sobre a mordida de Suárez, o lance que deixou Neymar de fora ou o 7X1 na semifinal entre Alemanha e Brasil. Cruickshank reconhece que o episódio da mordida daria um doodle engraçado, mas que o objetivo não é polemizar, e sim festejar.

Os mais de 60 doodles feitos para a Copa do Mundo enaltecem o Brasil como país sede, brincaram com as situações do cotidiano – trabalhar quando chefe está por perto e ver o jogo quando ele não está – e relembraram Copas passadas como a de 2010 com Polvo Paul, o maior vidente da história da competição.

Sobre a final, ele lamenta não ter um Brasil e Argentina para desenhar: “Nós esperávamos ver o Brasil e a Argentina na final porque queríamos ver entusiasmo e a paixão pelo futebol, mas acho que as partidas foram justas e todos os times jogaram muito bem. Estamos muito animados para ver quem irá ganhar.” E a respeito do doodle que vai representar a final do torneio, ele adianta algumas ideias: “Podemos mostrar destaques de todo o mês ou talvez fazer algo completamente diferente sobre os times. Independente do que fizermos, esperamos que todos os fãs de futebol ao redor do mundo se divirtam”, afirma o doodler.

Até domingo, alguns doodles mais vão surgir. Se você perdeu algum, saiba que Google fez o favor de reunir todos em uma só página.

Crédito das fotos: Julia Costa Teles

 

Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

*por Bárbara Castro

Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais sobre trabalho e gênero no setor de TI o que mais ouvia era “Mas não existe discriminação contra as mulheres. Convivemos muito bem”. Essa fala reativa geralmente abria a conversa com meus entrevistados tão logo eu explicasse que eu queria entender, entre outras coisas, como se desenrolavam as relações entre profissionais homens e mulheres já que elas são minoria no setor. Elas compõem cerca de 20% do total dos profissionais de TI no Brasil.

A ideia de igualdade de tratamentos e de oportunidades, no entanto, era acompanhada por discursos que reforçavam diferenças: as mulheres seriam melhores atendendo clientes, as mulheres seriam melhores trabalhando como analistas, as mulheres seriam menos capazes de programar. Entre outros achados, pude notar que a discriminação das capacidades técnicas das mulheres cria uma divisão sexual do trabalho dentro do setor: enquanto eles cuidam da parte hard da TI, elas cuidam da soft. Algumas das mulheres com as quais conversei sofriam porque não conseguiam se realizar profissionalmente: elas eram sutilmente impedidas de programar porque sempre eram realocadas nas tarefas de gerenciamento de equipe e de relacionamento com o cliente – o que não as levava, no entanto, a ganhar mais do que eles. Uma frase comum entre os profissionais do setor é que “elas sabem como atrair novos clientes, sabem como manter seu interesse vivo”.

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Não demorou para eu perceber que o papel sedutor que se atribuía às mulheres, papel este essencial para a manutenção dos negócios de uma empresa, não apenas alimentava a desconfiança que seus colegas possuíam nas suas capacidades técnicas como também respingava nas relações de trabalho cotidianas. Insinuações homofóbicas e histórias de assédio sexual sempre apareciam nas entrevistas com as mulheres. “Mas são mais piadinhas, a gente tem que aprender a conviver”, a maioria dizia. A homofobia se apoiava na ideia preconceituosa de que mulher que atua nesse setor é masculinizada e, portanto, lésbica. O assédio se apoiava na ideia de que uma mulher que está em um ambiente masculinizado está disponível.

Muitas das minhas entrevistadas contaram como usavam táticas muito específicas para apagarem a referência de que eram mulheres: seja banindo elementos estéticos que algumas gostavam de usar, como esmalte, maquiagem, joias, roupas florais e coloridas; seja adotando uma personalidade mais dura e menos emotiva; seja anulando a construção de uma relação de amizade e companheirismo para evitar qualquer possibilidade de interpretação errada dos homens. Elas faziam, como define a filósofa Judith Butler, uma performance de gênero que apagava as marcas que costumamos atribuir ao universo feminino e conseguiam, assim, ter sobrevida em um espaço altamente masculinizado.

Algumas das meninas contaram que mentiam sobre ter namorados para mostrar que eram “sérias” e que evitavam falar sobre paquera mesmo quando estavam fora da empresa para que seus colegas não interpretassem suas falas erroneamente e as lessem como disponíveis. Muitas me diziam que mesmo quando apagavam o gênero no local de trabalho, sofriam, porque aí eram vistas como “um deles” e incluídas nas piadas sexistas e nos comentários grosseiros sobre as mulheres do escritório.

As armaduras que elas construíam para sobreviver no dia-a-dia de trabalho eram uma reação ao ambiente machista e discriminatório no qual atuavam e ao qual buscavam se adaptar da melhor maneira possível. Mas essas estratégias, que à primeira vista podem parecer como a solução da lavoura ao leitor mais apressado, são a tradução de um ambiente corporativo que pouco se preocupa em equalizar as relações de gênero no trabalho e a combater o preconceito, a discriminação e o assédio.

As acusações de sexismo ao Github, que vieram à tona nas últimas semanas, evidenciam esse modelo de gestão de recursos humanos nas empresas: apesar do desligamento do Presidente da empresa após as denúncias de discriminação de gênero, não houve preocupação em tornar a história mais transparente nem ao menos foi exposto um novo plano de conduta empresarial que evitasse que casos como aquele se repetissem. Para abafar o problema, ele foi particularizado, tratado como exceção, uma fórmula que pode ajudar a salvar a reputação da empresa emergencialmente, mas que é muito pouco efetiva no combate às raízes do problema.

Outro caso recente envia ao público uma mensagem semelhante: a violenta agressão pública do CEO da RadiumOne à sua namorada, sua continuidade no cargo e na condução dos negócios da companhia. Mais uma vez, o caso foi resolvido com seu afastamento apenas quando a pressão pública cresceu sobre a empresa e sobre seus parceiros de negócios – e oito meses após o caso ter sido divulgado. Apesar de o caso de violência ter ocorrido fora da empresa, que mensagem ela pode passar às mulheres que nela atuam quando decidem que não há uma crise de imagem quando seu CEO trata uma mulher com violência? O que se pode esperar da condução de um caso de violência de gênero dentro do ambiente de trabalho de uma empresa que envia uma mensagem como essa?

Apesar da solução encontrada nos dois casos, é importante pensarmos em como ela foi fruto da pressão de fora e do quanto foi gerenciada como uma crise de imagem. A maneira como foram conduzidos enquanto exceções, desvios raros de conduta e casos isolados só ajuda a reforçar a ideia de que os constantes casos de discriminação e a desigualdade de gênero presentes no mundo corporativo são fruto de um delírio coletivo. O remédio para estes problemas está longe de ser solucionado com pedidos de desculpas como os divulgados por essas empresas.

Admitir que a diferença entre os sexos ainda gera desigualdade no mercado de trabalho e construir políticas reais de combate ao assédio e à discriminação seriam a única maneira de essas e outras empresas construírem um ambiente de trabalho equitativo e igualitário. Uma pena que ambas não tenham aproveitado a oportunidade.

Bárbara Castro*Bárbara Castro é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e desenvolveu parte de sua pesquisa na Open University, na Inglaterra. Em sua tese, estudou as relações de trabalho e gênero no setor de TI.

Esposas do Silício

Por Flávia Stefani*

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ilustração por Thiago Thomé*

 

Do nosso grupo de tech wives, eu diria que Anne é a mais bonita. O que para ela não faz muita diferença —o que Anne considera importante mesmo é a sua carreira. Ela trabalha em uma empresa de aparelhos médicos de ponta de linha, está estudando para se tornar uma neurocirurgiã em Stanford (após ter feito duas outras faculdades) e é filha de um dos principais cirurgiões de câncer dos EUA. Aos 28 anos, Anne é também a mais nova do grupo. O restante de nós tem aproximadamente a mesma idade, entre 30 e 33 anos, e a mesma ocupação: ex-alguma coisa. Denise é ex-relações públicas da Slate. Julie é ex-empresária de médio porte. Eu sou ex-redatora publicitária. Somos diferentes como bananas e maçãs, mas cumprimos o mesmo papel que milhares de outras mulheres no norte da California: nossos maridos trabalham em empresas de tecnologia no Vale do Silício. E nenhuma de nós tem emprego fixo.

As middle class Silicon Valley housewives, como secretamente me refiro a nós quatro, conheceram-se em Nova York, em algum dos poucos eventos de trabalho da Apple nos quais os cônjuges ou plus one eram bem-vindos. Na minha experiência, eventos assim são raros: festas de final de ano, e, se muito, um aniversariozinho. As demais atividades que as empresas de tecnologia promovem são restritas a funcionários. Semana passada, Fábio, meu marido, aprendeu a imprimir em letterpress e depois fez um tour de duas horas pelos pubs do Tenderloin, bairro de São Francisco famoso pela comida “étnica” (como é chamada a culinária estrangeira) e pela quantidade alarmante de moradores de rua. Há alguns meses, ele foi voluntário na cozinha de um dos “sopões” mais antigos de São Francisco: passou o dia picando cenouras, aipo e batatas. No fim da tarde, ele se reuniu com os colegas em um dos pubs e bebeu e comeu por conta da empresa. Nenhum cônjuge foi convidado.

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Atividades assim, ou outings, como eles dizem, acontecem mês sim, mês não, e são diversas demais para categorizar: bourbon brunchs, visitas a museus, aulas de arco de flecha, curso de cerâmica, exotic food-tastings. Um programa mais divertido que o outro ao qual todo funcionário deve comparecer sozinho, sem a família. O meu interesse por políticas corporativas é pequeno demais para averiguar se essa restrição existe por motivo de custos ou se o principal objetivo de tais atividades é a interação entre os funcionários, o que talvez justifique a ausência de cônjuges. Além disso, eu sempre trabalhei em agências de publicidade, onde eventos como esses não existem, logo não tenho uma explicação oficial. Só sei que a mensagem é clara: “Misturem família e trabalho somente na festa de fim de ano; no restante do tempo, vocês são nossos.” Dependendo do cargo do funcionário na empresa, a interseção família X trabalho não acontece nem mesmo em tais festas. Eu me lembro de ver Gaby, mulher de Richard, chefe do meu marido, na confraternização de Natal de 2013. Ela passou a noite em um lado do salão, bebendo em companhia da secretária do escritório, enquanto Richard se divertia e contava piadas aos subordinados do outro lado.

Além das atividades corporativas, que alienam, ou, dizendo de uma maneira mais publicitária, enriquecem a vida pessoal e o senso artístico de apenas uma das partes do casal, há um outro elemento, mais sutil, que distancia os cônjuges do Vale do Silício: o segredo. À medida que o funcionário de uma empresa de tecnologia vai progredindo na carreira, ele vai tendo acesso a informações confidenciais sobre o lançamento de produtos e serviços, informações que ele é obrigado por lei a não compartilhar com mais ninguém. Se outras famílias seguem essa regra à risca eu não sei dizer, mas aqui em casa é assim: o meu marido não pode discutir determinados assuntos comigo. Por exemplo: o trabalho que tem feito nos últimos seis meses. Voltando para casa após uma semana longa, Fábio não pode me contar nada sobre a nova ferramenta que passou centenas de horas aperfeiçoando. De maneira quase desapercebida e “para a nossa proteção”, o trabalho que ele realiza, que é o motivo pelo qual nos mudamos para a Califórnia, acaba se colocando entre nós. O segredo é tamanho que eu não posso sequer visitar a sala de trabalho dele. Mandei flores outro dia, mas nunca saberei se deixaram o ambiente mais bonito porque eu não faço ideia de como seja o ambiente. Longe de ser uma característica exclusiva das empresas de tecnologia —imagino que advogados de pessoas famosas, pessoas ligadas a chefes de estado, VPs de grandes laboratórios, donos de redes de televisão, dentre outros, também tenham que velar por certas informações confidenciais—, a expressão “casado com o trabalho” faz bastante sentido no Vale do Silício. De atividades extracurriculares a informações sigilosas, a maior parte dos esforços do meu marido vai sem dúvida para a empresa onde ele trabalha —antes a Apple, hoje o Twitter.

Quando o time de design de iAds, a plataforma de publicidade móvel da Apple na qual o Fábio trabalhava, foi inteiro transferido de Nova York para o Vale do Silício há dois anos, nós, as então tech wives do Brooklyn, passamos a fazer parte de um time mais amplo: o das tech wives do norte da Califórnia. A diferença é que agora, além dos fatores desemprego e marido geek em empresa de tecnologia, nós temos uma outra renúncia em comum: a vida estimulante que tínhamos em Nova York. Julie e Denise têm mais razões para sentir falta da cidade do que eu; ambas nasceram e cresceram lá, ambas têm família em Manhattan. Mas eu fui certamente a que mais se debateu com a mudança. Eu já vivia em Nova York há quase cinco anos quando conheci meu marido. Nova York não é a norma para mim, como imagino que seja para elas: eu trabalhei em outras cidades antes, em outros países, inclusive, e acordar lá todos os dias quando eu poderia acordar em qualquer outro lugar do mundo era uma escolha consciente, e que me fazia feliz. A principal motivação para continuar em um emprego que eu sabia que não me levaria a lugar nenhum era o fato de que tal emprego me permitia viver na cidade dos meus sonhos. Eu nunca quis nada na vida como quis envelhecer lá, logo a ideia de partir para o oeste aos 28 anos para acompanhar o meu marido não foi exatamente bem-vinda. Foi a primeira vez que eu falei em divórcio. Não foi a última.

A vida de uma tech wife californiana que trabalha em casa é mais ou menos assim: você não trabalha em casa. O seu trabalho é ocupar o tempo com qualquer atividade que ajude a não jogar todas as frustrações no casamento. Yoga. Crossfit. Aulas de filosofia. Workshop de meditação. Você lê o dobro do que normalmente leria se tivesse um emprego, em parte porque tem mais tempo para ler, em parte porque é importante que as outras pessoas pensem que “Ok, ela fica o dia todo em casa, mas pelo menos ela continua a par das coisas.” Você passa mais tempo na Internet do que é saudável para qualquer ser humano. Você transforma a sua casa em um mural do Pinterest. Você chama os cachorros da vizinhança pelo nome. Você se pergunta se ter um filho ajudaria a atribuir mais valor ao que faz. Ou, no caso, ao que não faz —você não sabe mais a diferença. Você sente saudade da moça que trabalhava catorze horas por dia, que pagava sozinha o próprio aluguel, a mulher que não era casada com ninguém, que não tinha que se sacrificar por ninguém. Em algum momento da transição de redatora em Nova York para dona de casa do Vale, essa mulher adormeceu. Não é beijo de sapo ou príncipe encantado que irá despertá-la, mas uma carta do departamento de imigração dos Estados Unidos.

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Eu não posso voltar a trabalhar, no Vale ou em qualquer outra cidade americana, enquanto o meu greencard não sair. A esperança dos advogados de imigração do Twitter é que saia esse ano, mas estou há tanto tempo nesse exílio que às vezes sinto que a minha realidade nunca mais vai mudar. Existe vida inteligente em outros planetas? Que dia eu vou poder voltar a trabalhar? Será que alguém vai querer me contratar após todos esses anos? Perguntas que só o tempo será capaz de responder.

Se eu pudesse voltar a trabalhar, não seria em uma empresa de tecnologia. Eu sou uma escritora. Entrar para o time dos geeks, ser CEO da Apple, Google ou Twitter nunca foi o meu sonho. Mas é o de muitas garotas que conheço. Algumas se atrevem, inclusive, a verbalizar esse desejo. Sarah, de 29 anos, é designer no Twitter desde a fundação da start-up, em 2006. Semana passada, por iniciativa dela, todo o departamento de design e pesquisa do Twitter se reuniu por uma hora para discutir a questão da liderança feminina na empresa, que atualmente é bastante desigual. “Eu fico feliz por poder levantar essas questões lá dentro,” ela me disse ontem enquanto almoçávamos. “Algumas empresas aqui no Vale instruem os funcionários a não trazer certos assuntos à tona pelo desconforto que eles podem gerar.” Se o meu maior desafio hoje é esperar pelo greencard, o desafio de moças como Sarah parece ser um pouco mais árduo: elas precisam forçar a própria entrada em um ambiente que claramente não as trata com igualdade. Dos tempos da corrida do ouro à IPO do Twitter no ano passado, a Califórnia, com toda a sua beleza natural, ainda é um vale (ou deserto) hostil para as mulheres ligadas à indústria de tecnologia.

Eu saio de casa apressada para me encontrar com Julie em uma praça no centro da cidade. Marcamos de tomar um café juntas até que o ônibus que diariamente leva e traz os funcionários do Google chegue ao ponto, a duas quadras dali. Dave, o marido de Julie, vem nesse ônibus. Eles irão juntos a uma apresentação de balé no city hall. Eu pergunto em tom de brincadeira o que Julie fez para conseguir esse milagre, já que não é segredo para ninguém que Dave odeia balé. “Eu abri mão da minha vida para estar aqui com com ele,” ela diz enquanto sopra a bebida. “Ele pode passar duas horas comigo no balé.”

 

flaviastefani * Flávia Stefani é uma escritora completa e corajosa, co-fundadora da e-mag Confeitaria, questionadora nata, mulher colorida e devoradora de letras. Hoje mora em São Francisco, depois de ter passado por São Paulo, Nova York e Londres.

Foto: arquivo pessoal.

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.