De onde saem os doodles do Google da Copa do Mundo?

*Por Julia Costa Teles

Do alto do número 3477 da Avenida Faria Lima, em São Paulo, um grupo de quatro designers passa seus últimos dias no Brasil. Da sala transformada em laboratório de criação saíram os mais de 60 diferentes logotipos do Google (chamados de doodles) que celebraram a Copa do Mundo. E alguns mais estão por vir até a final, no domingo 13 de julho.

Essa foi a primeira vez na história do Google que os doodlers – como são chamados o grupo de 20 funcionários responsáveis por recriar os logotipos da empresa – trabalharam fora do quartel-general da empresa, em Mountain View, na Califórnia. No Brasil, eles estão representados por Matthew Cruickshank, Leon Hong, Sophie Diao e Ryan Germik.

O primeiro doodle nasceu em 1998, quando os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin resolveram modificar o logotipo da empresa para avisar seus clientes de que estariam fora do escritório participando do festival Burning Man. Dois anos mais tarde, um doodle comemorando o Dia da Bastilha foi tão bem recebido que a empresa resolveu criar um departamento dedicado a celebrar eventos e datas comemorativas.

Segundo Cruickshank, o objetivo da experiência da Copa do Mundo era aproximar os doodlers da cultura e do povo brasileiro. Com isso, a rotina dos quatro mudou por completo. Eles, que em geral fazem seus desenhos com três meses de antecedência e trabalham em cima de lista pré-planejada de efemérides, passaram a criar doodles freneticamente de um dia para outro, às vezes mais de um por dia, para acompanhar o ritmo dos jogos. Além disso, o grupo assumiu o compromisso de representar todas as 32 seleções pelo menos uma vez.

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A inspiração vem da própria competição, das referências locais e das redes sociais. No quartel-general montado pela equipe do Google Brasil, eles têm acesso, em três televisões, ao Google Trends – site de monitoramento de tendências da internet -, às redes sociais dos jogadores, aos jogos quando eles acontecem e ao noticiário no resto do tempo. Além disso, pela hashtag #GoogleDoodles eles recebem sugestões dos fãs. Veja na galeria:

Espalhadas pelo local estão bandeiras de vários países, tabelas da Copa, o álbum de figurinhas oficial da Fifa, um toca-discos com vinis de MPB, camisetas, chuteiras, troféus, rascunhos e mais rascunhos de doodles e um quadro branco. Mas é no computador que as homenagens ganham vida. A grande maioria é feita em Flash, e todo mundo contribui um pouco com as habilidades que possui.

O Google, diferente de outras marcas, optou por apenas retratar a parte boa da Copa. Por isso ninguém viu um doodle sobre a mordida de Suárez, o lance que deixou Neymar de fora ou o 7X1 na semifinal entre Alemanha e Brasil. Cruickshank reconhece que o episódio da mordida daria um doodle engraçado, mas que o objetivo não é polemizar, e sim festejar.

Os mais de 60 doodles feitos para a Copa do Mundo enaltecem o Brasil como país sede, brincaram com as situações do cotidiano – trabalhar quando chefe está por perto e ver o jogo quando ele não está – e relembraram Copas passadas como a de 2010 com Polvo Paul, o maior vidente da história da competição.

Sobre a final, ele lamenta não ter um Brasil e Argentina para desenhar: “Nós esperávamos ver o Brasil e a Argentina na final porque queríamos ver entusiasmo e a paixão pelo futebol, mas acho que as partidas foram justas e todos os times jogaram muito bem. Estamos muito animados para ver quem irá ganhar.” E a respeito do doodle que vai representar a final do torneio, ele adianta algumas ideias: “Podemos mostrar destaques de todo o mês ou talvez fazer algo completamente diferente sobre os times. Independente do que fizermos, esperamos que todos os fãs de futebol ao redor do mundo se divirtam”, afirma o doodler.

Até domingo, alguns doodles mais vão surgir. Se você perdeu algum, saiba que Google fez o favor de reunir todos em uma só página.

Crédito das fotos: Julia Costa Teles

 

O Tinder no segundo tempo

por Maíla Sandoval*

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ilustração por Thiago Thomé*

Tudo começou quando uma amiga entrou no Blender no ano passado. Eu sempre fui dessas de não entender casais cibernéticos. Eu era até competente em manter contato pela internet, mas me vangloriava por conhecer pessoalmente todo mundo em meu Facebook.

Então essa minha amiga decidiu que queria namorar e entrou no Blender. Eu, cética decidi propor uma aposta de que aquilo era um grande bacanal e que eu podia provar. Criei meu perfil. Isso foi perto do Carnaval. De início, foi frustrante. Ninguém dali me interessava o suficiente para engajar uma conversa. Percebi que a dancinha do acasalamento ali seria muito diferente das que tinha testemunhado no Grindr dos meus amigos.

Com o acesso liberado entre todos os perfis, sem qualquer tipo de filtro, comecei a receber mensagens deste tipo:

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Acontece que por mais que não recusemos uma baixaria de qualidade, acredito que nós, mulheres (ou pelo menos eu e minhas amigas), não conseguimos aceitar abordagens que subjuguem nossa inteligência ou que, simplesmente, denunciem o “copie e cole”.

Não conseguia interagir com ninguém. Argh. Mas eu tinha uma teoria para provar. A aposta, eu já tinha perdido.  Escolhi um perfil mais ou menos agradável e iniciei uma conversa. O papo foi bem, promovido ao Whatsapp, e depois de um mês de esparsas conversas marcamos um encontro e, agora, encurto a história dizendo que fomos ao Empanadas e que não rolou. (Dica para os rapazes: atualize suas fotos).

Desisti de provar qualquer teoria, online dating não era pra mim, sou do tipo xavequeira cara a cara. Até que… Fiat Tinder.

Foi no dia dos pais que minha prima mostrou o Tinder para a família. Foi no wifi do restaurante que ela demonstrou o divertido jogo  que eliminava o caráter aleatório desta cyber-balada. Só podem conversar os que se curtem mutualmente. Gênio! Quase como na vida, você só dá papo pra quem quer.  E ainda por cima, vinha com o cobertorzinho pro ego cada vez que aparecia a notificação “it’s a match!“

O jogo, tão viciante quanto Candy Crush, ainda põe na sua mão a decisão entre mandar uma mensagem ou keep playing. Keep playing! Iniciei algumas investidas pelo chat, uma ou outra promovidas ao Facebook ou Whatsapp, e a eficácia do aplicativo foi se revelando. As conversas pareciam fluir melhor, a partir do interesse mútuo confirmado.  As pessoas ali não pareciam profissionais do cyber-dating. Pareciam todo o tipo de pessoa. Era mesmo como estar na balada, com a vantagem de saber gostos e amigos em comum logo de cara.

Foi um mês depois, quando viajei sozinha ao Uruguai, num dia bem chuvoso, que tive meu primeiro Tinder-date. Foi demais, rápido, sem muita enrolação e um jeito diferente de conhecer uma cidade que não era a minha.

Voltei pro Brasil com aquele gás, motivada a finalmente conhecer os “tindos“ da minha lista. Foram cinco experiências muito distintas, fiz amigos e tive micro-relacionamentos que me tornaram advogada fervorosa da “ferramenta“. Conheci casais formados pelo Tinder, conheci pessoas que passavam o Tinder-rodo.  Acabou meu preconceito, ficou fácil. Cada um usa como quer. Eu dizia a todas as minhas amigas: “Você vai curtir!”.

A adesão em massa da galera trouxe o divertido movimento dos efêmeros Tumblrs sobre o Tinder (tinderland, tindereatorre, tindernasuecia) – a captura de tela é mesmo uma ferramenta pro humor. Todos rimos, pois éramos parte daquilo.

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Viajo muito pelo Brasil a trabalho e criei o passatempo de sempre espiar os tindos locais, e cada vez mais percebia que, apesar das novas combinações, eu já não tinha energia para iniciar ou dar continuidade às conversas. Dei um tempo. Fiquei sem entrar e de vez em quando recebia uma notificação de que meu perfil não mais seria mostrado, caso eu não aparecesse… de novo, quase como na vida, tem que dar as caras pra continuar na cena.

Em abril, tirei férias, e entrei no Tinder-California. Dei risada da imensa quantidade de tindos com tigres (tinderguyswithtigers), mas no final, peguei dicas de todas as cidades com os meus matches e acabei conhecendo um deles em São Francisco. Tinder continua uma ferramenta eficaz para o turismo customizado, não deixem de experimentar.

Voltei pra São Paulo. Encontrei amigas que, após traumáticos términos, tinham recém aderido ao aplicativo e começavam a se divertir com seus matches. Além disso, a proximidade do mundial de futebol deu uma renovada no “catálogo“. Fiquei curiosa. Voltei pro Tinder.

Iniciei a pesquisa, e com curtidas retrancadas, já não era mais o mesmo pra mim. Conversei com alguns mais, mas não me motivei. Recém separados foi o que mais encontrei por lá desta vez. Além deles, ficaram  cyber–solteiros profissionais, que sempre conheceram pessoas pela internet.  A peteca não ficava mais no ar.

Notei que minhas amigas também foram perdendo a empolgação e  o Tinder foi criando sua própria definição. Não é um vício que perdura. Dificilmente encontraremos o Tinder Anônimos por aí. Ele é eficaz de verdade para quem quer se reabilitar de um pé na bunda, ou do fim de um casamento muito longo, e não sabe como, nem onde reaprender a paquerar.

Então, parece que não é pra mim. Não é por não acreditar em cyber-relacionamentos, muito pelo contrário, o aplicativo me ensinou que existe faísca na internet. A verdade  é que pessoas “olho no olho” como eu ficam em grande desvantagem nesta cyber-balada. Meus melhores xavecos são ao vivo. As mensagens de texto acabam com minhas pausas dramáticas.

Mas não, não deletarei o Tinder por enquanto, pois ainda não existe guia de viagens melhor. Sem contar que, logo menos, vêm as Olimpíadas e posso ficar curiosa novamente!

maila*Maíla Sandoval é bailarina sem fronteiras com alma de golfinho. Esconde do grande público que é autora do @palavragrelhada e integrante da Banda Literária. Paulistana criada, nasceu com rodinhas nos pés e não recusa a oportunidade de conhecer lugares novos. Torcedora fanática dos Diablos de Avellaneda.

foto: arquivo pessoal

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.

Discriminação e assédio na tecnologia: uma história de falsas exceções

*por Bárbara Castro

Quando iniciei minha pesquisa de doutorado em Ciências Sociais sobre trabalho e gênero no setor de TI o que mais ouvia era “Mas não existe discriminação contra as mulheres. Convivemos muito bem”. Essa fala reativa geralmente abria a conversa com meus entrevistados tão logo eu explicasse que eu queria entender, entre outras coisas, como se desenrolavam as relações entre profissionais homens e mulheres já que elas são minoria no setor. Elas compõem cerca de 20% do total dos profissionais de TI no Brasil.

A ideia de igualdade de tratamentos e de oportunidades, no entanto, era acompanhada por discursos que reforçavam diferenças: as mulheres seriam melhores atendendo clientes, as mulheres seriam melhores trabalhando como analistas, as mulheres seriam menos capazes de programar. Entre outros achados, pude notar que a discriminação das capacidades técnicas das mulheres cria uma divisão sexual do trabalho dentro do setor: enquanto eles cuidam da parte hard da TI, elas cuidam da soft. Algumas das mulheres com as quais conversei sofriam porque não conseguiam se realizar profissionalmente: elas eram sutilmente impedidas de programar porque sempre eram realocadas nas tarefas de gerenciamento de equipe e de relacionamento com o cliente – o que não as levava, no entanto, a ganhar mais do que eles. Uma frase comum entre os profissionais do setor é que “elas sabem como atrair novos clientes, sabem como manter seu interesse vivo”.

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Não demorou para eu perceber que o papel sedutor que se atribuía às mulheres, papel este essencial para a manutenção dos negócios de uma empresa, não apenas alimentava a desconfiança que seus colegas possuíam nas suas capacidades técnicas como também respingava nas relações de trabalho cotidianas. Insinuações homofóbicas e histórias de assédio sexual sempre apareciam nas entrevistas com as mulheres. “Mas são mais piadinhas, a gente tem que aprender a conviver”, a maioria dizia. A homofobia se apoiava na ideia preconceituosa de que mulher que atua nesse setor é masculinizada e, portanto, lésbica. O assédio se apoiava na ideia de que uma mulher que está em um ambiente masculinizado está disponível.

Muitas das minhas entrevistadas contaram como usavam táticas muito específicas para apagarem a referência de que eram mulheres: seja banindo elementos estéticos que algumas gostavam de usar, como esmalte, maquiagem, joias, roupas florais e coloridas; seja adotando uma personalidade mais dura e menos emotiva; seja anulando a construção de uma relação de amizade e companheirismo para evitar qualquer possibilidade de interpretação errada dos homens. Elas faziam, como define a filósofa Judith Butler, uma performance de gênero que apagava as marcas que costumamos atribuir ao universo feminino e conseguiam, assim, ter sobrevida em um espaço altamente masculinizado.

Algumas das meninas contaram que mentiam sobre ter namorados para mostrar que eram “sérias” e que evitavam falar sobre paquera mesmo quando estavam fora da empresa para que seus colegas não interpretassem suas falas erroneamente e as lessem como disponíveis. Muitas me diziam que mesmo quando apagavam o gênero no local de trabalho, sofriam, porque aí eram vistas como “um deles” e incluídas nas piadas sexistas e nos comentários grosseiros sobre as mulheres do escritório.

As armaduras que elas construíam para sobreviver no dia-a-dia de trabalho eram uma reação ao ambiente machista e discriminatório no qual atuavam e ao qual buscavam se adaptar da melhor maneira possível. Mas essas estratégias, que à primeira vista podem parecer como a solução da lavoura ao leitor mais apressado, são a tradução de um ambiente corporativo que pouco se preocupa em equalizar as relações de gênero no trabalho e a combater o preconceito, a discriminação e o assédio.

As acusações de sexismo ao Github, que vieram à tona nas últimas semanas, evidenciam esse modelo de gestão de recursos humanos nas empresas: apesar do desligamento do Presidente da empresa após as denúncias de discriminação de gênero, não houve preocupação em tornar a história mais transparente nem ao menos foi exposto um novo plano de conduta empresarial que evitasse que casos como aquele se repetissem. Para abafar o problema, ele foi particularizado, tratado como exceção, uma fórmula que pode ajudar a salvar a reputação da empresa emergencialmente, mas que é muito pouco efetiva no combate às raízes do problema.

Outro caso recente envia ao público uma mensagem semelhante: a violenta agressão pública do CEO da RadiumOne à sua namorada, sua continuidade no cargo e na condução dos negócios da companhia. Mais uma vez, o caso foi resolvido com seu afastamento apenas quando a pressão pública cresceu sobre a empresa e sobre seus parceiros de negócios – e oito meses após o caso ter sido divulgado. Apesar de o caso de violência ter ocorrido fora da empresa, que mensagem ela pode passar às mulheres que nela atuam quando decidem que não há uma crise de imagem quando seu CEO trata uma mulher com violência? O que se pode esperar da condução de um caso de violência de gênero dentro do ambiente de trabalho de uma empresa que envia uma mensagem como essa?

Apesar da solução encontrada nos dois casos, é importante pensarmos em como ela foi fruto da pressão de fora e do quanto foi gerenciada como uma crise de imagem. A maneira como foram conduzidos enquanto exceções, desvios raros de conduta e casos isolados só ajuda a reforçar a ideia de que os constantes casos de discriminação e a desigualdade de gênero presentes no mundo corporativo são fruto de um delírio coletivo. O remédio para estes problemas está longe de ser solucionado com pedidos de desculpas como os divulgados por essas empresas.

Admitir que a diferença entre os sexos ainda gera desigualdade no mercado de trabalho e construir políticas reais de combate ao assédio e à discriminação seriam a única maneira de essas e outras empresas construírem um ambiente de trabalho equitativo e igualitário. Uma pena que ambas não tenham aproveitado a oportunidade.

Bárbara Castro*Bárbara Castro é Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e desenvolveu parte de sua pesquisa na Open University, na Inglaterra. Em sua tese, estudou as relações de trabalho e gênero no setor de TI.

#testamos: Amazon FireTV

*por Arthur Soares

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Foi em 2004 que começou o meu cuidado meticuloso com a minha biblioteca de músicas do iTunes; prometi a mim mesmo que aquilo seria uma herança para os meus filhos. Dava um trabalho absurdo manter a coleção organizada: baixar os discos, organizar os arquivos, achar as capas, colocar a ordem certa das faixas, gênero, artista… um trampo! Tudo isso mudou quando conheci o Spotify, um sistema de streaming de música com uma biblioteca gigante e super fácil de usar. A minha relação com música – e principalmente com a minha coleção de música – mudou totalmente. Parei de gastar tempo buscando, organizando e catalogando tudo, e comecei a focar a maior parte do tempo em realmente degustar e escutar o que queria. Fiquei bastante empolgado quando a Amazon anunciou o lançamento da FireTV, porque senti que finalmente um dispositivo poderia ser capaz de oferecer esse tipo de experiência para filmes e séries.

Há alguns anos eu optei por não ter mais TV a cabo e me virar apenas com downloads e sistemas de vídeo sob demanda como o Netflix, por exemplo. Nesses últimos anos, já brinquei com várias opções para deixar tudo mais simples de usar, como a AppleTV, aplicativos das TVs inteligentes da Samsung e até um computador Mac Mini (aquele pequeno da Apple) ligado diretamente na minha televisão. Sou geek e vivo sempre na busca incessável para achar a solução perfeita, por isso achei incrível a simplicidade da FireTV.

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Mas o que é a Amazon FireTV? Um dispositivo (na categoria dos set top boxes) que você pluga na sua TV, conecta no Wi-Fi da sua casa e te oferece tudo o que há de disponível na plataforma de conteúdo da Amazon, chamada AmazonPrime, por enquanto indisponível para o Brasil. Essencialmente, não é tão diferente assim da AppleTV, mas foi pensada para melhorar três pontos importantes: velocidade, busca e acessibilidade. O preço de venda é similar aos concorrentes, mas é o primeiro que consegue ter a melhor experiência. Vamos por partes.

A experiência Amazon

Uma das coisas que mais tem me chamado atenção à respeito dos últimos lançamentos da Amazon, é a atenção que eles têm dado aos novos usuários. O tio, a mãe, a avó; aqueles que não dominam a tecnologia mas gostariam de fazer uso dela têm pouquíssimas barreiras de entrada. Isso acontece desde o Kindle e se repete com o FireTV: compramos o aparelho pelo site da Amazon e ele milagrosamente já vem configurado com a sua conta, sem precisar conectar nada com nada : )

Outro exemplo incrível é o tablet FireHDX, lançada em setembro do ano passado, que vem com uma função chamada “Mayday”. É um botão que, ao apertá-lo, te conecta com um funcionário da Amazon (uma pessoa, mesmo) em menos de 15 segundos. Funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano (!).  Nesse sentido, uma das funções mais úteis da FireTV é a busca por voz disponível no controle remoto do aparelho. Pode parecer pouco significante, mas lembre-se como a busca naqueles controlinhos pode ser incrivelmente frustrante.

Primeiras impressões

Foi tudo muito fácil: liguei o cabo de força na tomada e o cabo HDMI na TV (aquele mesmo que você usa para ligar a televisão LCD direto no seu computador). A primeira coisa que a FireTV me pediu foi para identificar a rede Wi-Fi. Não preciso comentar sobre a apresentação e design, estão extremamente bem resolvidos. Ao iniciar, um tutorial em vídeo ensinando a utilizá-la começou a tocar. Foi ótimo, em menos de dois minutos já possuía uma noção geral de todas as funções. A interface é simples, separada em duas colunas. O dispositivo é incrivelmente rápido. Muito mais rápido que AppleTV ou qualquer outro que já mexi.

Conteúdo

Da mesma forma que a Amazon lançou o Kindle para vender livros eletrônicos, ela também lançou a FireTV para vender o Amazon Prime, a plataforma de vídeo deles. A velocidade de tudo é alta: do final do tutorial até começar um filme, foram menos de cinco segundos. Sabe por que? Porque a FireTV já veio configurada com a minha conta, não me pediu senha nem nada. Inclusive já veio com os dados do cartão de crédito do meu One-Click payment, aquela função perigosa da Amazon que te permite comprar livros e um monte de coisas com um só clique.

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Um ponto interessante é a abordagem esperta a games. Conseguiram chamar a atenção do jogador meio-termo, aquela pessoa que curte jogar no seu smartphone e tablet, e até sente falta de algo numa TV maior, mas não tem vontade de investir U$ 300-500 em um console exclusivo e mais U$ 30-50 por jogo. A grande sacada: por mais U$ 39,99 você pode comprar o Game Controller, um joypad muito similar ao do Xbox ou PS4. Nele você pode rodar os jogos mais legais de Android.

A busca de voz funciona apenas para conteúdo de dentro do AmazonPrime. Encontrei uma exceção estranha, buscas por clipes de música te jogam para o Vevo e Hulu, que são aplicativos de terceiros. O mesmo não ocorreu com Netflix. Talvez haja alguma parceria específica.

Alguns dias depois

Já estou com a FireTV há alguns dias e posso dar uma opinião mais concreta. Acredito que tem um potencial incrível para demonstrar como será o futuro da TV e Set-top boxes. Para o Brasil, ainda não é uma solução pronta, já que é preciso trazer o aparelho dos Estados Unidos e para conseguir acessar o conteúdo (apps, jogos e filmes da plataforma Amazon Prime) é preciso realizar uma série de gambiarras.

O conceito de aplicativos para televisão não é novo. SmartTVs já fazem isso e a Apple oferecia marginalmente com o AirPlay na AppleTV. Acredito que a FireTV seja a primeira implementação com uma boa perspectiva de como o futuro será.

A FireTV é, sem dúvidas, um grande passo pro que teremos de novidades para as TVs em breve. Vamos esperar e ver o que Google e Apple farão.

 

arthur * Arthur Soares é consultor de tecnologia e design. Compartilha suas obsessões em http://artsoar.es

Foto: arquivo pessoal

Esposas do Silício

Por Flávia Stefani*

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ilustração por Thiago Thomé*

 

Do nosso grupo de tech wives, eu diria que Anne é a mais bonita. O que para ela não faz muita diferença —o que Anne considera importante mesmo é a sua carreira. Ela trabalha em uma empresa de aparelhos médicos de ponta de linha, está estudando para se tornar uma neurocirurgiã em Stanford (após ter feito duas outras faculdades) e é filha de um dos principais cirurgiões de câncer dos EUA. Aos 28 anos, Anne é também a mais nova do grupo. O restante de nós tem aproximadamente a mesma idade, entre 30 e 33 anos, e a mesma ocupação: ex-alguma coisa. Denise é ex-relações públicas da Slate. Julie é ex-empresária de médio porte. Eu sou ex-redatora publicitária. Somos diferentes como bananas e maçãs, mas cumprimos o mesmo papel que milhares de outras mulheres no norte da California: nossos maridos trabalham em empresas de tecnologia no Vale do Silício. E nenhuma de nós tem emprego fixo.

As middle class Silicon Valley housewives, como secretamente me refiro a nós quatro, conheceram-se em Nova York, em algum dos poucos eventos de trabalho da Apple nos quais os cônjuges ou plus one eram bem-vindos. Na minha experiência, eventos assim são raros: festas de final de ano, e, se muito, um aniversariozinho. As demais atividades que as empresas de tecnologia promovem são restritas a funcionários. Semana passada, Fábio, meu marido, aprendeu a imprimir em letterpress e depois fez um tour de duas horas pelos pubs do Tenderloin, bairro de São Francisco famoso pela comida “étnica” (como é chamada a culinária estrangeira) e pela quantidade alarmante de moradores de rua. Há alguns meses, ele foi voluntário na cozinha de um dos “sopões” mais antigos de São Francisco: passou o dia picando cenouras, aipo e batatas. No fim da tarde, ele se reuniu com os colegas em um dos pubs e bebeu e comeu por conta da empresa. Nenhum cônjuge foi convidado.

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Atividades assim, ou outings, como eles dizem, acontecem mês sim, mês não, e são diversas demais para categorizar: bourbon brunchs, visitas a museus, aulas de arco de flecha, curso de cerâmica, exotic food-tastings. Um programa mais divertido que o outro ao qual todo funcionário deve comparecer sozinho, sem a família. O meu interesse por políticas corporativas é pequeno demais para averiguar se essa restrição existe por motivo de custos ou se o principal objetivo de tais atividades é a interação entre os funcionários, o que talvez justifique a ausência de cônjuges. Além disso, eu sempre trabalhei em agências de publicidade, onde eventos como esses não existem, logo não tenho uma explicação oficial. Só sei que a mensagem é clara: “Misturem família e trabalho somente na festa de fim de ano; no restante do tempo, vocês são nossos.” Dependendo do cargo do funcionário na empresa, a interseção família X trabalho não acontece nem mesmo em tais festas. Eu me lembro de ver Gaby, mulher de Richard, chefe do meu marido, na confraternização de Natal de 2013. Ela passou a noite em um lado do salão, bebendo em companhia da secretária do escritório, enquanto Richard se divertia e contava piadas aos subordinados do outro lado.

Além das atividades corporativas, que alienam, ou, dizendo de uma maneira mais publicitária, enriquecem a vida pessoal e o senso artístico de apenas uma das partes do casal, há um outro elemento, mais sutil, que distancia os cônjuges do Vale do Silício: o segredo. À medida que o funcionário de uma empresa de tecnologia vai progredindo na carreira, ele vai tendo acesso a informações confidenciais sobre o lançamento de produtos e serviços, informações que ele é obrigado por lei a não compartilhar com mais ninguém. Se outras famílias seguem essa regra à risca eu não sei dizer, mas aqui em casa é assim: o meu marido não pode discutir determinados assuntos comigo. Por exemplo: o trabalho que tem feito nos últimos seis meses. Voltando para casa após uma semana longa, Fábio não pode me contar nada sobre a nova ferramenta que passou centenas de horas aperfeiçoando. De maneira quase desapercebida e “para a nossa proteção”, o trabalho que ele realiza, que é o motivo pelo qual nos mudamos para a Califórnia, acaba se colocando entre nós. O segredo é tamanho que eu não posso sequer visitar a sala de trabalho dele. Mandei flores outro dia, mas nunca saberei se deixaram o ambiente mais bonito porque eu não faço ideia de como seja o ambiente. Longe de ser uma característica exclusiva das empresas de tecnologia —imagino que advogados de pessoas famosas, pessoas ligadas a chefes de estado, VPs de grandes laboratórios, donos de redes de televisão, dentre outros, também tenham que velar por certas informações confidenciais—, a expressão “casado com o trabalho” faz bastante sentido no Vale do Silício. De atividades extracurriculares a informações sigilosas, a maior parte dos esforços do meu marido vai sem dúvida para a empresa onde ele trabalha —antes a Apple, hoje o Twitter.

Quando o time de design de iAds, a plataforma de publicidade móvel da Apple na qual o Fábio trabalhava, foi inteiro transferido de Nova York para o Vale do Silício há dois anos, nós, as então tech wives do Brooklyn, passamos a fazer parte de um time mais amplo: o das tech wives do norte da Califórnia. A diferença é que agora, além dos fatores desemprego e marido geek em empresa de tecnologia, nós temos uma outra renúncia em comum: a vida estimulante que tínhamos em Nova York. Julie e Denise têm mais razões para sentir falta da cidade do que eu; ambas nasceram e cresceram lá, ambas têm família em Manhattan. Mas eu fui certamente a que mais se debateu com a mudança. Eu já vivia em Nova York há quase cinco anos quando conheci meu marido. Nova York não é a norma para mim, como imagino que seja para elas: eu trabalhei em outras cidades antes, em outros países, inclusive, e acordar lá todos os dias quando eu poderia acordar em qualquer outro lugar do mundo era uma escolha consciente, e que me fazia feliz. A principal motivação para continuar em um emprego que eu sabia que não me levaria a lugar nenhum era o fato de que tal emprego me permitia viver na cidade dos meus sonhos. Eu nunca quis nada na vida como quis envelhecer lá, logo a ideia de partir para o oeste aos 28 anos para acompanhar o meu marido não foi exatamente bem-vinda. Foi a primeira vez que eu falei em divórcio. Não foi a última.

A vida de uma tech wife californiana que trabalha em casa é mais ou menos assim: você não trabalha em casa. O seu trabalho é ocupar o tempo com qualquer atividade que ajude a não jogar todas as frustrações no casamento. Yoga. Crossfit. Aulas de filosofia. Workshop de meditação. Você lê o dobro do que normalmente leria se tivesse um emprego, em parte porque tem mais tempo para ler, em parte porque é importante que as outras pessoas pensem que “Ok, ela fica o dia todo em casa, mas pelo menos ela continua a par das coisas.” Você passa mais tempo na Internet do que é saudável para qualquer ser humano. Você transforma a sua casa em um mural do Pinterest. Você chama os cachorros da vizinhança pelo nome. Você se pergunta se ter um filho ajudaria a atribuir mais valor ao que faz. Ou, no caso, ao que não faz —você não sabe mais a diferença. Você sente saudade da moça que trabalhava catorze horas por dia, que pagava sozinha o próprio aluguel, a mulher que não era casada com ninguém, que não tinha que se sacrificar por ninguém. Em algum momento da transição de redatora em Nova York para dona de casa do Vale, essa mulher adormeceu. Não é beijo de sapo ou príncipe encantado que irá despertá-la, mas uma carta do departamento de imigração dos Estados Unidos.

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Eu não posso voltar a trabalhar, no Vale ou em qualquer outra cidade americana, enquanto o meu greencard não sair. A esperança dos advogados de imigração do Twitter é que saia esse ano, mas estou há tanto tempo nesse exílio que às vezes sinto que a minha realidade nunca mais vai mudar. Existe vida inteligente em outros planetas? Que dia eu vou poder voltar a trabalhar? Será que alguém vai querer me contratar após todos esses anos? Perguntas que só o tempo será capaz de responder.

Se eu pudesse voltar a trabalhar, não seria em uma empresa de tecnologia. Eu sou uma escritora. Entrar para o time dos geeks, ser CEO da Apple, Google ou Twitter nunca foi o meu sonho. Mas é o de muitas garotas que conheço. Algumas se atrevem, inclusive, a verbalizar esse desejo. Sarah, de 29 anos, é designer no Twitter desde a fundação da start-up, em 2006. Semana passada, por iniciativa dela, todo o departamento de design e pesquisa do Twitter se reuniu por uma hora para discutir a questão da liderança feminina na empresa, que atualmente é bastante desigual. “Eu fico feliz por poder levantar essas questões lá dentro,” ela me disse ontem enquanto almoçávamos. “Algumas empresas aqui no Vale instruem os funcionários a não trazer certos assuntos à tona pelo desconforto que eles podem gerar.” Se o meu maior desafio hoje é esperar pelo greencard, o desafio de moças como Sarah parece ser um pouco mais árduo: elas precisam forçar a própria entrada em um ambiente que claramente não as trata com igualdade. Dos tempos da corrida do ouro à IPO do Twitter no ano passado, a Califórnia, com toda a sua beleza natural, ainda é um vale (ou deserto) hostil para as mulheres ligadas à indústria de tecnologia.

Eu saio de casa apressada para me encontrar com Julie em uma praça no centro da cidade. Marcamos de tomar um café juntas até que o ônibus que diariamente leva e traz os funcionários do Google chegue ao ponto, a duas quadras dali. Dave, o marido de Julie, vem nesse ônibus. Eles irão juntos a uma apresentação de balé no city hall. Eu pergunto em tom de brincadeira o que Julie fez para conseguir esse milagre, já que não é segredo para ninguém que Dave odeia balé. “Eu abri mão da minha vida para estar aqui com com ele,” ela diz enquanto sopra a bebida. “Ele pode passar duas horas comigo no balé.”

 

flaviastefani * Flávia Stefani é uma escritora completa e corajosa, co-fundadora da e-mag Confeitaria, questionadora nata, mulher colorida e devoradora de letras. Hoje mora em São Francisco, depois de ter passado por São Paulo, Nova York e Londres.

Foto: arquivo pessoal.

Thiago Thomé (aka Liquidpig) viveu por anos em São Francisco e é formado pela California College of Arts. Hoje mora em São Paulo, é designer, ilustrador e editor de arte da Confeitaria.

O que é o Heartbleed

O tempo fechou, pessoal. Crédito: reprodução Giphy - http://giphy.com/gifs/HsP5b2vJrzm8
O tempo fechou, pessoal. Crédito: reprodução Giphy – http://giphy.com/gifs/HsP5b2vJrzm8

Por Eden Cardim*

Crédito: Reprodução heartbleed.com
Crédito: Reprodução heartbleed.com

Privacidade e segurança da informação foram sempre questões fundamentais nas nossas vidas, mesmo antes da era da informação. Uma coisa da qual me recordo bem no colegial era que as meninas guardavam seus diários com a vida.

Haviam as que não se contentavam apenas em escrever detalhes pessoais dentro dos diários, e escreviam também em público, através de uma forma rudimentar de criptografia. Elas criavam uma tabelinha com símbolos que mapeavam pras letras do alfabeto (algo como ♥ = a, ★ = b, ▲ = c, etc.), numa espécie de equivalente da pedra de roseta, e assim poderiam enviar recados secretos pra outras pessoas, sem correr o risco de um intermediário ler o conteúdo. Apenas as pessoas em posse da tabela entenderiam o significado, e essa tabela ficava guardada dentro do diário, que ficava trancado com uma chave. Por conta disso, toda a turma se interessava em roubar o diário (e a chave).

Hoje em dia, substituimos os diários por emails e aplicativos, e todos eles usam a mesma técnica de criptografia para proteger suas informações. A diferença é que as tabelas de conversão são gigantescas e um humano não conseguiria traduzir tudo em tempo hábil e até os computadores precisam de uma chave numérica equivalente à tranca do diário, chamada de “certificado digital”, para montar a tabela corretamente e traduzir o conteúdo.

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Sem o certificado, levaria alguns milhares de anos para um computador comum decifrar a informação. Todo esse processo é realizado por um software que segue um padrão de criptografia chamado “SSL”. Existem várias versões desse software, e uma delas é o “OpenSSL”, que é amplamente utilizado em serviços de hospedagem na internet.

Na terça-feira (8), foi descoberta uma falha grave no OpenSSL, introduzida acidentalmente há dois anos atrás, e foi chamada de Heartbleed. Essa falha afeta praticamente todos os sites na internet e é talvez a mais grave desde o bug do milênio, porque ela permite que qualquer pessoa na internet roube a chave dos sites que você usa, que é onde ficam as suas senhas e informações pessoais. Já existe uma solução para o problema e todos os sites respeitáveis estão correndo para atualizar o software e remover a ameaça. Infelizmente, não se sabe se alguém já havia descoberto a falha antes da data em que ela foi divulgada amplamente na internet. Por isso, é possível que alguém tenha observado o tráfego das suas informações durante os dois anos em que ela existe.

Uma forma de saber se os sites que você usa ainda está vulnerável, é acessar o http://filippo.io/Heartbleed/. Se ele for indicado como vulnerável, pare de usá-lo até o problema ser solucionado. Infelizmente, não basta o site atualizar o software dele, sua informação pode já estar exposta. Por via das dúvidas, troque todas as senhas de todos os serviços que você usa, lembrando sempre das dicas básicas de segurança e privacidade:

• Use sempre senhas com números e símbolos (como $ e #) intercalados com letras maiúsculas e minúsculas e pelo menos 8 caracteres. Isso dificulta o trabalho de quem tenta descobrir sua senha por tentativa e erro;

• Nunca compartilhe senhas entre aplicativos, alguém que descobrir a sua senha em um site vai tentar usar a mesma senha nos outros. Se você usa a mesma senha do banco no Facebook, pare tudo e vá trocar a senha do banco, agora!

• Desconfie sempre de modificações visuais nos sites que você usa com frequência e procure o cadeado na barra de navegação do site. É comum que invasores clonem seu site predileto na tentativa de te convencer a digitar sua senha no formulário deles;

• Proteja a senha do seu email primário como se fosse a chave do diário no colegial. Quase todos os sites oferecem a funcionalidade “esqueci minha senha” que dependem de confirmação por email. Alguém que obtiver acesso ao seu email poderá trocar as senhas de todos os aplicativos online que você usa;

• Troque suas senhas com frequência, existem aplicativos que te ajudam com isso, como o 1Password e o Lastpass (que já se adiantou e está avisando seus clientes sobre quais senhas devem ser alteradas);

• Procure encerrar as contas em sites que você não usa mais.

Essas práticas podem parecer exagero e você pode sentir vontade de não seguir alguma delas. É exatamente isso que os bisbilhoteiros de plantão procuram. Lembre-se também, que falhas de segurança são divulgadas todos os dias, desde que computadores existem, mas a maioria não é tão grave quanto o Heartbleed. Não vale a pena deixar de aproveitar a tecnologia por conta disso, mas vale a pena se precaver.

 eden cardim*Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

O que é o Marco Civil da Internet

Por Eden Cardim*

yay-internet-jen-mussariNesta terça-feira (25) foi aprovado o Marco Civil da Internet, um projeto de lei que regulamenta o uso da Internet no Brasil. São três os temas principais que o projeto discute:

  • Liberdade de expressão

  • Neutralidade de rede

  • Respeito à privacidade

Com o Marco Civil, a Internet passa a ser regulamentada por um conjunto de leis que querem garantir a livre disseminação de informação e estabelecer direitos e deveres de quem usa e fornece serviços através da Internet.

O projeto começou em 2009 através de uma colaboração online no blog Cultura Digital, em reação ao projeto de lei de crimes cibernéticos do deputado Eduardo Azeredo. A proposta do deputado propunha uma série de restrições ao uso da Internet. O projeto previa de um a três anos de reclusão por cada acesso a conteúdo digital protegido por direito autoral, o que significa que você que baixou episódios de Game of Thrones e Breaking Bad poderia ser condenada a até seis anos de cadeia, junto com todos os estudantes de faculdade que imprimem e fotocopiam livros para suas aulas nas universidades brasileiras. Mas o Marco Civil foi sendo construído de uma forma colaborativa, por vários setores da sociedade, e hoje é considerada uma lei bastante avançada.

Vamos a cada um dos temas:

1) Liberdade e acesso 

O tema pegou fogo quando Aaron Swartz, um programador norte-americano, foi indiciado por baixar milhões de dados de um repositório de documentos acadêmicos, através da rede interna do MIT. Detalhe, ele tinha permissão para acessar todos esses documentos. Até hoje não se sabe o que Aaron queria fazer com esse tanto de informação. Isso pode não parecer relevante para um usuário casual de Internet, mas são gênios como Aaron que criam ferramentas tecnológicas que tanto apreciamos no dia-a-dia. Aaron foi, por exemplo, um dos criadores da tecnologia RSS, que é o que move aplicativos como o falecido Google Reader, seu substituto póstumo, o Feedly e o mecanismo de publicação de atualizações de quase todos os blogs em existência.

Fazer esse tipo de pessoa viver à sombra de uma lei que pode colocá-la na cadeia por 35 anos pelo mero fato de acessar informação não é bom pra ninguém, por isso Aaron preferiu o suicídio. Esse é apenas um dos casos onde a liberdade na Internet é prejudicada pelo fato de não existir uma legislação específica: o judiciário utiliza analogias com leis tradicionais. No caso de Aaron, julgaram que ele havia “roubado” os documentos.  Como foi aprovado, o Marco Civil não vai criminalizar a livre expressão de ideias e conteúdos na rede.

2) Por uma rede “neutra”

O Marco Civil também trata o tema da “neutralidade de rede”. Já percebeu como as vezes o Youtube ou o Netflix ficam mais lentos do que outras páginas? Isso acontece porque as operadoras de conexão banda larga muitas vezes restringem a velocidade de navegação em sites específicos, o que é mais barato do que aumentar a infra-estrutura. Basicamente, o Marco Civil diz que estas empresas (como a Net ou Telefônica) não poderão mais alterar a velocidade contratada baseada no conteúdo que consumimos online. A consequência dessa lei é mais profunda do que parece. Sem regulamentação, as operadoras podem fazer acertos com sites específicos, pra que eles tenham prioridade, e no final das contas, as únicas páginas agradáveis de visitar seriam as que pagam as operadoras. Além disso, as empresas poderiam vir a oferecer “pacotes”, onde o conteúdo de websites não contratados ficaria bloqueado, transformando a Internet em algo parecido com TV a cabo: tudo ficaria mais caro e menos acessível. A neutralidade de rede elimina de vez a possibilidade disso acontecer no futuro.

3) Mas e a privacidade?

Outro tema que é tratado pelo Marco Civil é o da privacidade e da preservação de intimidade. Agora, os serviços de hospedagem são obrigados a remover conteúdo de caráter privado, como vídeos íntimos. A regulamentação dificulta os casos conhecidos como “pornografia de vingança”, onde um ex-namorado raivoso publica vídeos íntimos da ex-namorada. Agora, os serviços de hospedagem ficam obrigados e remover esse tipo de conteúdo com apenas uma notificação simples, que pode ser por email, não precisa mais existir um processo legal e burocrático. Mas isso será facilitado apenas em casos de conteúdos de natureza íntima; outros pedidos de retirada de material da rede precisam passar por um processo judicial mais demorado, justamente para evitar censura.

Ainda existem várias questões mais detalhadas e polêmicas para se tratar, mas o Marco Civil é considerado um projeto de lei pioneiro no mundo e coloca o Brasil numa posição de destaque em termos de política tecnológica. Até o criador da Web, Tim Berners-Lee, escreveu um artigo apoiando a lei. Vale lembrar que o projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e passar pela sanção da presidente Dilma Rousseff para ser efetivado.

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eden cardim

 *Eden Cardim é formado em ciência da computação, especialista em engenharia de software, entusiasta de software livre, misturador de tecnologia com arte e criador de felinos. Foto: Arquivo pessoal.

 

(Crédito do gif: Jen Mussari/yayinternet.com)