15 out 2014

Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

por Natasha Madov

3 min. de leitura
Quando a firma paga para você ser mãe mais tarde

egg

Quer colocar sua carreira em primeiro lugar antes de ter filhos? Se você trabalha (ou quer trabalhar) para a Apple ou o Facebook nos Estados Unidos, deu sorte. As duas empresas estão oferecendo um novo benefício extra para suas funcionárias: elas pagam pelo congelamento dos seus óvulos.

Ambas empresas vão dar até US$ 20 mil a cada funcionária que quiser passar pelo procedimento, segundo o canal de TV NBC*. Cada ciclo de extração de óvulos custa US$ 10 mil, mais US$ 500 por ano pela manutenção.

Como seguros-saúde não costumam cobrir procedimentos de fertilização in vitro, a novidade foi vista como um modo de atrair mais mulheres, já que o ambiente corporativo do Vale do Silício é notadamente masculino

Leia também: Esposas do Silício

O congelamento de óvulos faria parte de um já parrudo pacote de benefícios dessas empresas. O Facebook, por exemplo, oferece quatro meses de licença remunerada tanto para pais quanto mães (quando o padrão nos Estados Unidos é três meses sem pagamento, e nem é garantido por lei), auxílio-creche, um bônus de US$ 4 mil para gastar como quiser com o bebê e flexibilidade para trabalhar em casa alguns dias por semana. O Facebook, não custa lembrar, é onde a Sheryl Sandberg do movimento “Faça Acontecer” trabalha.

O resto das empresas de tecnologia é igualmente generoso em seus pacotes de benefícios*

O problema é que congelar óvulos não é garantia de conseguir engravidar mais tarde. A própria Associação Americana de Medicina Reprodutiva só deixou de considerar a técnica como experimental há dois anos, segundo a NBC. Antes, ela era mais usada em casos de pacientes com câncer cujo tratamento poderia deixá-las inférteis.

Uma pesquisa do ano passado mostrou que uma mulher que congele seus óvulos com 21 anos tem 43% de chance de engravidar quando usá-los*, não importa a idade; aos 38, 34%; aos 45, 12%.*.  Outro estudo diz que não importa a idade no momento do congelamento, a chance de engravidar com óvulos congelados após os 30 anos é de 25%*.

Claro que é melhor que nada, mas mesmo os médicos que recomendam a técnica dizem que é melhor congelar no mínimo 20 óvulos (o que exige dois ciclos de extração) e quanto mais cedo, melhor.  Leia como funciona o congelamento de óvulos.

O procedimento tem sido bastante procurado porque é visto como uma espécie de seguro-bebê: a lógica é que se não dá para ter filhos agora, pelo menos você fez tudo que podia para ter essa possibilidade lá na frente.

Tá, mas…

À primeira vista, parece um ótimo benefício para quem está angustiada com seu relógio biológico, mas ele me deu uma sensação de estranhamento. Claro que é interessante para a Apple e o Facebook que suas funcionárias dediquem a maior parte de seu tempo, em seus anos de pico de fertilidade, a seus empregadores e não a bebês que vão deixá-las insones e preocupadas.

É como se eles estivessem pagando às suas funcionárias para adiar a maternidade. Não estou sozinha nessa sensação: ”Quem escolher ter filhos pode ser estigmatizada como pouco comprometida com sua carreira. Do mesmo modo que os benefícios típicos de empresas de tecnologia como almoços e lavanderia gratuitos servem para manter os empregados mais tempo dentro do escritório, o mesmo pode acontecer com o congelamento de óvulos, que adia a licença maternidade e a responsabilidade com os filhos,” escreve o New York Times*

“Me preocupo como esse benefício vai ser ser usado pelas mulheres entre 20 e 30 e poucos anos,” disse Seema Mohapatra, uma especialista em bioética ouvida pelo mesmo artigo do New York Times. “Elas podem pensar: ‘Se eu quero ser vista como uma profissional séria e chegar a vice-presidente, eu não posso tirar licença-maternidade. Eles estão me oferecendo essa apólice de seguro ou então eu vou ser vista como alguém que só quer ser mãe,’” disse ela ao jornal.

A Apple pelo menos jura que sua intenção é das melhores. “Nós queremos empoderar as mulheres da Apple a fazer o melhor trabalho de suas vidas enquanto elas cuidam de seus entes queridos e criam suas famílias,” disse um porta-voz da companhia em uma declaração ao Techcrunch*

O melhor que qualquer empresa pode fazer por suas funcionárias é apoiar suas escolhas, sejam elas ser solteira, adiar a maternidade ou constituir família, sem medo de represálias ou serem preteridas em promoções. Uma política nesse sentido vai valer bem mais que vinte mil dólares.

*Links em inglês

Crédito da foto: Fertility Research Centre, G G Hospital, Chennai