18 jul 2014

Por que não vamos mais escrever sobre o Tinder

por Natasha Madov

3 min. de leitura
Por que não vamos mais escrever sobre o Tinder

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O Ada nasceu há alguns meses da nossa vontade, Diana e Natasha, de ser útil a um grupo que não tinha voz nos atuais meios de comunicação: a mulher que usa tecnologia. Queríamos prestar serviço e ajudar na reflexão de como o mundo digital impacta o dia a dia e as nossas relações.

Tínhamos percebido que alguns serviços e aplicativos estavam abrindo novas possibilidades em várias frentes para todas nós: estamos mais produtivas, mais conectadas, mais informadas. E um dos serviços, lá atrás, que chamou a nossa atenção para isso foi o Tinder.

(Momento transparência: a Diana me apresentou o aplicativo , eu usei durante meses, até conhecer meu namorado ali mesmo e por motivos óbvios, deixar de usá-lo. Ou seja, podemos ser consideradas ~cases de sucesso~ do Tinder.)

O app transformou todo o processo de conhecer e paquerar alguém pela internet em uma grande brincadeira, e deu mais voz e participação às mulheres que serviços anteriores. Sua popularização também tirou um pouco do estigma que ainda perdurava nos chamados “sites de encontros”.

A gente sabe, pelos nossos números de audiência, que o app é popular e que todo mundo, se não usa, adora falar dele. A própria ideia de poder conhecer alguém em um “catálogo de gente” (como eu, Natasha, gosto de me referir ao Tinder) é extremamente sedutora, ainda que canse depois de um tempo.

Até que  chegou aos nossos ouvidos a notícia que o Tinder estava sendo acusado de discriminação e assédio sexual. “Ai, mais um”, pensamos. Como tínhamos publicado há pouco tempo este artigo ótimo da Bárbara Castro, achamos que não valia a pena entrar no assunto de novo. E mais uma coisa: gostamos de separar o produto da empresa. O dono pode ser um imbecil, mas o produto é bom, inovador e popular, então vamos continuar falando dele e prestando serviço, certo?

Errado. Porque depois de um tempo descobrimos  que Whitney Wolfe, a ex-vice-presidente de marketing (aos 24 anos!) que está processando a empresa, perdeu o título de cofundadora porque ter uma mulher tão jovem como sócia “fazia o Tinder não parecer uma empresa séria”. Para quem lê em inglês, aqui está a queixa completa de Whitney.

Segundo a ação judicial, muito do que faz o Tinder ser tão popular com as mulheres (mais do que a maioria dos sites e serviços online de namoro) são ideias trazidas por essa menina de 24 anos que, por ter se envolvido romanticamente com seu chefe, perdeu sua participação societária no negócio.

Os sócios se defenderam em um comunicado dizendo que a queixa da moça tem uma série de imprecisões e erros, e que nunca discriminaram nenhum funcionário por idade ou gênero, mas não ofereceram provas nem contra argumentos às acusações.

É claro que lamentamos (até porque o Tinder sempre bomba os nossos acessos) mas ficou difícil separar o produto de seus criadores. Se o Tinder é um grande sucesso entre as mulheres – conectadas, tecnológicas ou não -, temos certeza que é porque muitas delas contribuiram com processo de criação e crescimento da empresa. Seja escrevendo o código mágico desse aplicativo que fez todo mundo dar uma chance ao algoritmo, seja indicando o poder do cardápio humano para esquecer um coração partido. Sem mulheres (lindas, feias, gordas, casadas, velhas e novas) os matches não aconteceriam, então nos parece no mínimo irônico menosprezar o gênero que compõe quase 50% da sua base de usuários.

Então aqui vai o nosso recado, querido Tinder: se uma “empresa séria” pode prescindir de mulheres na sua liderança, vocês estão criando uma tecnologia burra e inconsistente. Não vamos incentivar um boicote geral ao aplicativo, porque isso vai muito da consciência de cada uma. De nossa parte, vamos continuar acompanhando a cobertura do caso, mas não iremos mais falar do app no Ada até ficar claro o que aconteceu.

Um abraço,

Natasha e Diana

Foto: Diana Assennato Botello