A futurista brasileira que quer imprimir casas

(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de fevereiro/2016)

Tenho medo de não dar tempo”, foi o que a empresaria Anielle Guedes respondeu quando perguntamos o que a fazia perder o sono a noite. Não é para menos: Anielle é CEO e fundadora da Urban 3D, uma empresa que pretende facilitar, baratear e acelerar a construção de moradias sociais através da impressão de materiais. Ao invés de pedreiros, cimento e tijolos, imagine grandes robôs que imprimem paredes e levantam um prédio de cinco andares em poucas semanas, usando bem menos recursos naturais (e humanos) e com 80% de economia. Pelos seus cálculos, um apartamento construído nesses moldes poderia chegar a custar entre 10 e 15 mil reais.

anielle guedes urban 3D

Anielle tem assustadores 22 anos, se formou futurista pela Singularity University (a universidade criada pelo Google + NASA), já palestrou nas Nações Unidas e está acostumada a receber ligações de primeiros ministros e presidentes de países que buscam soluções para moradias sociais. Sua trajetória é exponencial: aos 4 anos ela quis aprender a falar inglês para conversar com todas as pessoas do mundo e aos 13 ela já era tradutora da Anistia Internacional. Basta acompanhar o seu feed do Facebook por 1 dia para entender: ela já mora no futuro, só precisa de paciência para fazer ele chegar ao maior número de pessoas possível.

Apesar de jovem, o seu medo do tempo não é infundado. Anielle sabe que é um peixe pequeno propondo mudanças estruturais, sociais e econômicas em uma das indústrias que mais empregam no mundo. Além disso, o desenvolvimento da tecnologia que ela propõe não é nem um pouco simples e por isso os avanços serão faseados. Muita pesquisa de materiais, protótipos, testes, betas e parcerias comerciais e políticas sólidas precisam acontecer antes dela conseguir imprimir a sua primeira casa. “Mas ao mesmo tempo, em 15 anos a metade das crianças do mundo estarão morando em favelas se a gente não mudar o modelo de urbanização e a forma como a se constrói”, ela desabafa. Conversamos com ela sobre essas e outras dificuldades de viver no futuro:

 

1) Por ora, a principal função da sua empresa é desenvolver pesquisa tecnológica, mas o que você quer mesmo é começar a imprimir casas para abrigar os 3 bilhões de pessoas do mundo que precisam de moradias sociais de qualidade o mais rápido possível. Como você lida com essa intangibilidade, esse “tempo relativo?

A solução é criar produtos intermediários, as pedras fundamentais pra que a gente possa trazer as tecnologias mais avançadas depois. A forma como eu lido com isso é própria de um visionário, no sentido literal da palavra. O visionário é alguém que vislumbra uma tecnologia e vai criando os passos no caminho para poder fazer ela acontecer na realidade. Tem que ter um olho no peixe e o outro no gato, literalmente. No meu caso, a gente vai ter duas ou três tecnologias intermediárias antes de ter a máquina e o sistema construtivo final que a gente imagina. Não é muito fácil. Gera uma certa ansiedade, a gente quer que aconteça logo, mas eu tenho consciência de    que essa é a única forma de empurrar barreiras para fazer esse tipo de coisa acontecer.

 

2) Como você acha que a melhoria das habitações populares poder impactar a sociedade e a história da humanidade como um todo?

Uma das razões da perpetuação do ciclo de pobreza é na verdade a falta de moradia adequada. Não adianta continuar mandando sapato, comida e roupa para a África. Quebrando o ciclo de pobreza a partir do básico, que é a moradia, a gente começa a ter efeitos mais sustentáveis, mexendo em infra-estrutura e olhando para essa solução a longo prazo. A gente chama isso de efeitos integeracionais, talvez não observáveis em primeira geração (apesar de achar que as mudanças são imediatas), mas pensando no futuro, pense neste cenário: uma casa que vem já com painéis solares embutidos e um pequeno jardim vertical para que famílias plantem os seus alimentos (dado que 70% da renda das famílias mais pobres vai direto para isso). Se eu consigo dar acesso a esses outros degraus da pirâmide, algo que era só uma casa, passa a suportar toda a subsistência das pessoas que moram nela. É aí onde a gente passa a ter uma tecnologia que muda as regras do jogo de verdade e que tira as pessoas de uma condição de vulnerabilidade. Quer pirar ainda mais? Então imagine casas feitas de árvores, de ossos… moradias temporárias, feitas de meios naturais, que podem ser mudadas de lugar e que, na hora certa, se dissolvem a voltam para a natureza. Aí você tem um sistema que faz manufatura distribuída, que significa que o que mais importa são os desenhos e as ordens de produção de como fazer aquilo, além do acesso aos recursos de impressão.

 

4) Essa é uma indústria cujo desenvolvimento tecnológico acontece de forma lenta e que empaca em questões básicas como padronização. Muita gente já tentou mudar esse cenário de forma independente. Porque vocês vão conseguir?

O nosso modelo distribuído é a nossa maior vulnerabilidade e o nosso maior ativo ao mesmo tempo. Estamos construindo em partes, desenvolvendo o que a indústria é capaz de absorver, educando o mercado e trabalhando a partir das suas necessidades. Ao mesmo tempo, tem todo um trabalho de mudança de mindset junto à instituições como a ONU, G20 e Banco Mundial para mexer nessas regulamentações. Somos pequenos nesse mundo de gigantes, mas isso nos dá agilidade e independência de poder sentar em todas as mesas que quisermos. Faz 4 mil anos que construímos da mesma forma, já tá na hora de mudar.

 

5) No Brasil, a indústria da construção civil é uma das que mais empregam. Quais as consequências da evolução tecnológica que a sua empresa propõe? É uma mudança bastante significativa, e a automação poderia impactar milhões de famílias. O que muda? O que melhora?

Ela já representa 23% do PIB do Brasil e 1/3 da matriz econômica de uma série de países. Sem dúvidas é uma das indústrias que mais vai ser afetada pela automação. Seja no hardware, ou seja, o processo de colocar um tijolo sobre o outro, seja pela automação de processos mais intelectuais. De fato vamos causar um impacto muito grande, mas esse é um caminho irreversível não só para essa como para várias outras indústrias. O que muda é que agente vai ter uma oferta muito menor de trabalhos mais braçais, uma oferta maior de trabalhos mais especializados (que, no futuro, também serão automatizados). Para ser sincera, o caminho é inevitável: TUDO será automatizado. Se a gente pensar que faz 4 mil anos que construímos da mesma forma, parece até estranho que essas mudanças não aconteçam num ritmo mais rápido, como foi por exemplo com a indústria de automóveis. O processo atual da construção civil não só tem custos elevadíssimos (52% é gasto só com mão de obra) como também gera muitos erros e desperdício de recursos. É uma indústria que precisa urgentemente de produtividade estratégica. O nosso objetivo é começar a trazer a parte de produção para dentro da fábrica, mas também levar a fábrica para dentro do canteiro de obras.

A China e seu firewall de mil cabeças

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(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de agosto/2015)

Fiz uma viagem recente à China, meio a trabalho, meio a passeio. Eu nunca tinha estado antes na Ásia. O meu irmão, que vai com alguma frequência, me avisou por whatsapp antes de viajar: “Não se esqueça de que na China a internet é 100% controlada. Todos os teus e-mails são monitorados. Você vai perceber que a velocidade de download dos e-mails cai muito. O único site estrangeiro de busca que efetivamente funciona é o Yahoo e não lembro se o whatsapp é liberado.”

Eu sabia da existência do Firewall, a censura digital chinesa que faz com que a internet lá não seja livre, mas na minha cabeça eu inconscientemente resumi isso a “uma internet mais lenta”. Não devia ser tão ruim assim.

Depois de três dias em Hong Kong com wifi gratuito e megarrápido na cidade inteira, chegamos à China continental. Instagram, WhatsApp, Chrome, Gmail, Youtube, Messenger, Facebook, Slack, Foursquare e… meu deus, o tradutor! Todos mortos. Até o meu despertador fofinho  estava fora do ar. Foi como despencar em Marte.

Sim, a China “desliga” pedaços enormes da Internet, criminaliza a liberdade de expressão online e tem o maior número de jornalistas e cyberdissidentes presos do mundo. Essa muralha digital imposta pelo governo chinês censura e controla tudo o que as pessoas leem, fazem, curtem ou postam quando estão conectadas. Um exercício: imagine um lugar onde conversar com pessoas de outro país, (seja em fóruns, mensageiros ou redes sociais) é crime. Ou onde assinar uma petição online ou ler uma palavrinha de sabedoria do Dalai Lama pode te levar pra cadeia. Pior do que isso: imagine uma vida sem Google. Tá certo que existe um “Google chinês”, o Baidu, mas os algoritmos de busca são ridículos, exatamente por terem que ignorar pedaços inteiros da rede. Até os chineses reclamam.

“Impossível”, foi o meu veredito. Já no primeiro dia burlei o sistema contratando um serviço VPN (Virtual Personal Network); uma ferramenta que diz para a internet que o seu computador/smartphone está em outro país cada vez que você se conecta a um wifi. Ufa, paredes derrubadas. Respirei aliviada por alguns minutos, até me cair a ficha que eu também poderia estar sendo vigiada. Dali até o final da viagem convivi com a sensação de que alguém bateria na minha porta a qualquer momento.

Ao longo da viagem conversei com vários chineses; de coroas para quem o Facebook era um conceito bastante difuso, até adolescentes consumidores assíduos do tal VPN, que tinham acabado de criar suas contas no Instagram. Fiz tantas perguntas sobre as suas rotinas digitais que cheguei a incomodar, mas no fundo eu só queria entender as implicações de um país tão poderoso e influente construir a sua própria internet e ir contra a maior força da rede: transparência e compartilhamento. Quando isso some, o que sobra é poder e controle, mas também a emergência do lado B. A recém-criada Deep Web chinesa cresce a olhos vistos e já tem fama de abrigar bizarrices meio perturbadoras e movimentar um comércio ilegal de milhões de dólares.

Foi estranho experimentar uma internet presa em pleno 2015,  mas foi bom sair da minha bolha digital, imaginar como a vida poderia ser e entender quão precioso é ter acesso à informação sem paredes de fogo. De fato, eu nunca tinha parado para pensar no significado de viver em um país onde a web não é qualquer coisa que ela quiser ser. Prometi a mim mesma reconhecer o valor dessa liberdade todos os dias.

eu, com medo da polícia da internet ¯\_(ツ)_/¯

Realidade virtual faça-você-mesma

*Por Natasha Madov

(Matéria publicada no UOL Tecnologia em 01/0/2015)

Se alguém te disesse que um pedaço de papelão pode transformar o seu smartphone em um visor de realidade virtual, você acreditaria? Pois é, o Google Cardboard faz exatamente isso.

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O visor vai custar US$ 30 (cerca de R$ 101) e as vendas estão previstas para começar no início do ano escolar americano, em setembro, mas algumas lojas não-oficiais já começaram a vender. A parte mais legal, na verdade, é que você nem precisa comprar o produto. O Google disponibilizou um layout com as dimensões certinhas para cortar, dobrar e montar o visor. É “só” colar sobre um papelão firme e seguir as instruções.

 

 

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É claro que não é uma experiência super imersiva como o Oculus Rift, mas com um bom par de fones de ouvido e usando os aplicativos disponíveis no Google Play ou na Apple Store (busque por Cardboard) dá para ter um gostinho de como a  realidade virtual pode fazer parte do no nosso dia-a-dia. Baixe o app da montanha-russa e experimente voar pela sua sala, ou simplesmente fique sentadinho no piano do Paul McCartney enquanto ele toca Wings. Sim, ter que segurar o aparato não ajuda a manter o realismo, mas o Google não pretende te vender algo perfeito, e sim uma porta de entrada para um outro tipo de entretenimento: barato, divertido e democrático.

Um público que a plataforma está dando atenção especial é o infantil com o Expeditions. Trata-se de um aplicativo educacional disponível para tablets Android que transmite imagens em 360 graus de vários locais diferentes a smartphones acoplados a visores Cardboard — é como se fosse uma excursão sem sair da sala de aula.

Além de imagens geradas pelo Street View, o Google montou parcerias com museus como o Smithsonian, Planetary Society e o Museu Americano de História Natural para criar “viagens” pelas ilhas de Galápagos, Parque Yosemite, muralha da China e até mesmo Marte <3

Outro produto ligado à plataforma é o Jump, focado nos criadores. É um suporte para 16 câmeras (a GoPro já é parceira oficial) e um software de edição de vídeo que junta as imagens captadas pelas câmeras e as transformam em uma sequência em 360 graus. E finalmente, vídeos captados pelo Jump estarão disponíveis via Youtube, sem a necessidade de um app especial.

Créditos das imagens: Divulgação Google.

Buddy, o robô fofinho que quer morar na sua casa

Robô Buddy
A campanha para financiar o Buddy já arrecadou quase quatro vezes a meta inicial

*Por Claudia Tozetto

Já pensou em poder dormir aqueles cinco minutinhos a mais enquanto alguém vai acordar seus filhos para ir à escola? E poder verificar, à distância, se você esqueceu o fogão ligado ao sair de casa? Um novo robô chamado Buddy, que será lançado pela Blue Frog Robotics no ano que vem, será capaz de fazer todas essas tarefas. Mais do que um assistente doméstico, porém, ele quer se tornar parte da sua família. “Nós criamos o Buddy para ser o primeiro robô de companhia a entrar em nossas casas. Ele vai mudar nossas vidas”, diz Rodolphe Hasselvander, cofundador e CEO da Blue Frog.

O pequeno robô branco tem 54 centímetros de altura e um tablet posicionado no lugar da cabeça. A tela apresenta um rosto animado — com direito a olhos, nariz, boca e até sobrancelhas –, que muda de expressão conforme a conversa com os moradores da casa. O Buddy não tem braços ou pernas, mas traz uma câmera na cabeça e cinco sensores no corpo, o suficiente para desviar dos móveis pelo caminho. Ele entende comandos por voz e até fala com seus donos em diversos idiomas, inclusive em português.

Veja o vídeo em inglês:

A inspiração para o visual do Buddy veio não só dos filmes de ficção científica, como Star Wars, mas também dos robôs que aparecem em animações para crianças. Por ser usado dentro de casa, uma das preocupações da equipe era de criar algo que não intimidasse os moradores. “O Buddy tem um ‘cabeção’ e olhos expressivos. Ele é uma mistura entre um cachorro, um iPad, o Wall-E e a Eva”, diz Hasselvander, citando os dois personagens principais do filme Wall-E, lançado em 2008 pela Pixar.

O Buddy é resultado de um trabalho de 15 anos de pesquisa de Hasselvander. Desde 2007, ele é gerente do Centro de Robótica Integrada da França (CRIIF, na sigla em francês) e criou a Blue Frog para levar a tecnologia da universidade para o mercado na forma de robôs amigáveis e baratos, que possam ser usados por qualquer pessoa. “Já desenvolvi diferentes robôs para atender vários tipos de usuários, como famílias, crianças e idosos, e aprendi quais funções são realmente úteis”, diz Hasselvander.

Para chegar ao mercado, porém, o Buddy ainda tem um longo caminho pela frente. A startup francesa começou, há um mês, uma campanha no site Indiegogo para levar fundos para iniciar a produção do robô. A seis dias do fim da campanha, o Buddy já levantou mais de 350 mil dólares, quase quatro vezes superior à meta inicial, que era de 100 mil dólares. Até o momento, 550 pessoas contribuíram para o projeto. O dinheiro extra será usado no desenvolvimento de novos recursos e acessórios para o Buddy.

Buddy também ajuda no cuidado com idosos
Buddy também ajuda no cuidado com idosos

A versatilidade do robozinho é o motivo principal para atrair tanta gente para a campanha. O Buddy será programado para executar múltiplas tarefas relacionadas à vida doméstica. Ele pode manter a casa segura, já que vigia o ambiente e notifica o dono em caso de movimentações suspeitas ou se detectar fumaça ou vazamento. Ele também reconhece os moradores e pode ajudar cada um deles a lembrar de seus compromissos, além de tocar música, fotografar, filmar e ler suas receitas favoritas. No caso dos idosos, o Buddy pode detectar quedas e falta de atividade – e enviar um alerta para o smartphone do parente ou cuidador mais próximo.

Outros recursos devem chegar ao Buddy em breve, já que seu sistema operacional é baseado no Android, do Google. Isso vai permitir que desenvolvedores independentes criem novas funções e acessórios. “Temos o grande sonho de democratizar o campo da robótica”, dizem os executivos da empresa, no Indiegogo. Entre os acessórios que já foram desenvolvidos pela Blue Frog e que estarão disponíveis no ano que vem está uma estação para carregar a bateria do robô e um braço-projetor. Com ele, os donos do robô poderão exibir seu filme favorito em qualquer superfície.

O Buddy vai custar a partir de 759 dólares quando chegar às lojas, no final de 2016. Os Estados Unidos, além de países na Ásia e na Europa, estarão entre os primeiros a receberem o produto. Ainda não há previsão de lançamento do Buddy no Brasil.

Fotos: Divulgação

A mulher que quis botar ordem no Reddit

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Por Karla Lopez*

Já ouviu falar do Reddit? É uma salada de bobagens divertidas, como vídeos de gatinhos, misturada com links sérios, como matérias sobre a corrida presidencial americana. Você pode nunca ter entrado no site na vida, mas o conteúdo dele já apareceu no seu Facebook, no seu site preferido, na TV…

Essa fonte inesgotável de entretenimento é o que faz do Reddit um dos sites mais populares da web, acima do Netflix e do Pinterest. Com mais de 170 milhões de usuários (os Redditors), o site conta com milhares de seções (os SubReddits) que dividem o conteúdo em temas que vão desde de “Tatuagem” até “Coisas que pensei no chuveiro”.

O ingrediente mágico do Reddit é uma comunidade forte e ativa, que vota para dar visibilidade aos artigos que eles acham merecer ganhar a primeira página e gera em torno de sete bilhões de visualizações de páginas por mês. Só que lá todo mundo é anônimo. Essa é a grande força do Reddit: enquanto o Facebook tem buscado cada vez mais reforçar a identidade real dos usuários, o Reddit está no lado oposto — lá todo mundo pode fazer e dizer o que bem entender.

Por causa disso, há seções como “Ódio as mulheres”. “Batendo em nerds”, “Racismo”, “Abuso de animais”, entre outros ainda piores e com nomes menos óbvios. Nessas seções você encontra fotos, vídeos e relatos. Dá vontade de vomitar.

A desculpa dos fundadores é a boa e velha “Seres humanos serão humanos”, associada ao direito da liberdade de expressão.

Tudo bem, mas o Reddit é um meio com influência: o que aparece lá vira post em blogs, que vira hashtag no Twitter, que depois é falado e repetido incessantemente na TV, na mesa do bar, no escritório… Quanto mais lixo flutua por lá, mais gente é exposta não só a esse discurso de ódio, mas a coisas ilegais como pornografia infantil e incitação à violência.

Até que Ellen Pao veio para botar ordem na casa.

A executiva ficou famosa no Vale do Silício ao processar um famoso fundo de investimento de risco por discriminação por gênero, pedindo 100 milhões de dólares de indenização. O valor foi calculado com base em salários, promoções e bônus que ela alega ter perdido para colegas homens e brancos com a mesma posição, mas com performance abaixo da dela.

Ellen é formada em engenharia elétrica em Princeton e fez Direito e MBA em Harvard. Mas nada disso a protegeu das mesmas baboseiras que você ou uma amiga já deve ter ouvido no escritório.

No julgamento, Ellen disse ter sofrido assédio sexual e moral como retaliação por terminar um relacionamento com um colega de trabalho casado.

Segundo ela, a equipe costumava dizer que “mulher corta o barato” no trabalho. (Confesso que já ouvi essa várias vezes).

A firma, claro, contou uma versão diferente: disse que ela era não era boa no que fazia, que ela achava ser mais do que realmente entregava e que não sabia trabalhar em equipe. Agora imagina trabalhar em equipe com um time que fica dizendo que você “corta o barato” porque é mulher? E ser produtiva em um trabalho em que um chefe quer te punir por não ser mais amante do amigo dele? Difícil.

O julgamento contou com seis mulheres e seis homens e eles decidiram em favor do empregador, o que eu achei super triste, mas pelo menos o circo todo acendeu várias discussões sobre sexismo no Vale.

Ellen começou a trabalhar no Reddit em 2013 e virou CEO interina em 2014. Ela tomou decisões muito legais, como acabar com negociação de salário na contratação dos empregados, baseada em alguns estudos que dizem que mulheres sempre saem perdendo nesse tipo de situação.

Depois de oito meses na função, ela começou a expandir a audiência do site além do jovem americano branco, que é o público mais clássico do site. Isso gerou revolta nos usuários, que começaram uma campanha de insultos baseados em sexo e raça, além de comparações com Hittler e uma petição com mais de 200 mil assinaturas exigindo sua demissão.

O Reddit é uma mídia online como qualquer outra, vive de publicidade. A intenção dos executivos e investidores é lucrar, mas como vender publicidade pra esse tipo de conteúdo? Quem vai querer anunciar na seção “Odeio Preto” ou “Mulher é tudo vagabunda”? Além de ser imoral e ilegal, é ruim para os negócios, e $$$ é uma língua o Vale do Silício entende muito bem.

Com essa diretriz no começo do ano Ellen liderou o fechamento de algumas seções controversas, como o subreddit “Transfag” (que insultava transsexuals) e “fatpeoplehate” (que insultava pessoas gordas). No começo de julho Victoria Taylor, diretora de comunicações responsável pela seção de perguntas e respostas (uma das mais populares do site) foi demitida de forma muito estranha, e com isso os protestos ficaram ainda inflamados, pintando uma imagem de que sob o comando de Ellen, o Reddit não se preocupava mais com a comunidade de usuários. Os Redditors chegaram a fechar partes populares do site, em protesto à demissão de Victoria, e a culpa toda, segundo eles, foi de Ellen.

Ninguém pode dizer que os ataques foram surpresa. O Reddit é famoso por dar tração a campanhas para desmoralizar mulheres, como a feita contra a crítica de videogames Anita Sarkeesian e a desenvolvedora Zoe Quinn, que recebeu o nome de “Gamergate”.

Vamos combinar que um board que permite que uma empresa vire um viveiro de racismo e sexismo não ia ser capaz de proteger uma CEO mulher e oriental da pressão dos usuários, né? Foi o que aconteceu. Ela foi demitida.

Nesse momento está a maior confusão. Yishan Wong, ex-CEO, acusa um dos fundadores te ter demitido a diretora de comunicações Victoria Taylor e se esconder atrás de Ellen Pao, para que ela levasse a culpa. E onde ele postou essa e outras acusações contra a empresa? No próprio Reddit. E a imprensa também está perdidinha no meio do fogo cruzado.

A pergunta que fica é: será que ela foi queimada em praça pública por fazer o que nenhum homem antes dela teve colhões, que era colocar freios nos trolls do Reddit?

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*Karla Lopez é paulistana, corintiana e vive andando. Queria ser programadora, mas virou radialista. Parte teimosia, parte acaso, acabou co-fundadora de uma empresa de impressão 3d. Está no Vale do Silício há alguns anos mas ainda não entende nada.

Foto: Christopher Michel/Flickr

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Aplicativos para um coração partido

(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de julho/2015)

Ao contrário da história, a Internet faz um péssimo trabalho esquecendo pessoas. Na verdade, quanto mais tempo passa, mais ela lembra. Na época em que a nossa timeline cabia em um diário com cadeado, um coração partido se curava com chocolate, amigos e tempo. O tempo, esse magnânimo, levava todos os cadáveres para longe, e ali eles ficavam.

Que saudades. Hoje a Internet é um Walking Dead com 2.94 bilhões de zumbis.

Encontrar o amor na web pode ser difícil, mas se livrar de um é ainda pior. Seja você o pé ou a bunda, o tecido digital das nossas vidas faz com que seja cada vez mais difícil deixar o tempo fazer o que ele faz de melhor: esquecer. Grande parte do esforço na Ciência da Computação é descobrir formas mais rápidas, baratas e simples de automatizar processos e armazenar informações. Isso significa que cada vez mais as nossas memórias guardadas em forma de dados (e em quantidades inimagináveis) passeiam pela rede como carrinhos de bate-bate.

Você pode bloquear uma pessoa da sua rede social, mas isso não significa que ela deixou de ter vida lá dentro. Pra desespero dos nossos corações, os algoritmos (a sequência de instruções que nos levam de cá pra lá na internet) estão cada vez mais inteligentes e as conexões assustadoras. É tipo “A Volta dos Mortos-Vivos” todinha: fulano vai comparecer ao lançamento do livro do seu ex gato e inteligente, aquela periguete fez check in no restaurante hypado da sua ex-namorada, tua colega da yoga foi marcada na foto do batizado dos gêmeos do seu ex-marido… Isso sem contar os estragos que a nossa própria natureza stalker causa madrugadas adentro. Esse constante remexer em escombros é tóxico, mas é claro que a tecnologia pode ajudar.

 

DrunkMode

Antes de cair na noite você seleciona quais são os contatos que você quer proteger de você mesma ao longo da escalada alcólica. Você pode escolher o tempo do bloqueio (de até 12 horas) e se mesmo assim cair em tentação, o app só irá destravar os contatos se você resolver uma equação matemática. Outra função fofa: ele te lembra do seu trajeto na noite anterior (função “migalha-de-pão” <3) e manda alertas pros amigos quando você estiver perto demais da casa do falecido/a.

are you?

BlockYourEx

Esse é um plugin que funciona no Firefox, Google Chrome e Safari como um guardião. Você diz quais perfis sociais do seu ex você quer evitar, dá o nome completo da persona non grata e o app esconde essa vidinha digital de você. Se você tem problemas com desapego, fica tranquila: ele permite cadastrar até 5 exes.

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Cloak

Já falamos dessa belezinha por aqui; um aplicativo que usa a sua geolocalização para te avisar sobre os perigos do mundo offline. Ele cruza os dados de Foursquare e Instagram para te alertar quando aquela pessoa estiver perto demais.

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* HellisOtherPeople

Descobrimos essa depois da coluna ter ido para a gráfica: um desenvolvedor americano criou este sistema parecido com o Cloak, cuja proposta é não só notificar sobre pessoas indesejadas, como também te ajudar a fugir delas. Baseado na sua geolocalização, o app se conecta ao Foursquare para identificar onde estão os seus amigos (ou nem tanto) que andam pela região. Os pontos laranjas são os locais a evitar, mas se já for tarde demais, use as rotas de fuga em verde.

 

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As melhores ferramentas para o seu gmail

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(coluna do Ada na revista TPM, publicada na edição de junho/2015)

Quando se trata de passar vergonha na internet, as redes sociais são ótimas para o vexame quantitativo, mas em termos de “qualidade” de humilhação, nada como um bom e velho e-mail errado, na hora errada, para a pessoa errada. Uma microbomba atômica de altíssimo impacto pode te custar o emprego, o amigo e a razão. Mas, saiba, há formas de se proteger. Se você tem Gmail, há uma série de serviços que te ajudam nisso – se você não tem, esse pode ser um bom motivo para largar mão desse hotmail.

 

“Desfazer” é nosso rei e nada nos faltará

O serviço do e-mail do Google é ótimo para gente distraída. Apertou “Enviar” e depois se deu conta de que escreveu uma palavra de forma grotesca? Deixou aquele rabicho do rascunho no pé da mensagem e esqueceu de apagar? Respondeu a todos ou simplesmente esqueceu o anexo? Você escolhe quantos segundos você tem para clicar no “Desfazer” e laçar o e-mail de volta pro seu inbox. Inacreditavelmente útil, esta é uma ferramenta do próprio Gmail. Para instalar, clique em “Configurações” e siga este passo-a-passo.

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Controle total

Você trabalha com alguém do outro lado do mundo e não quer atrapalhar o seu sono? Responde e-mails de madrugada mas não quer que as pessoas saibam desse seu hábito? Não quer que ninguém se sinta livre para procurar você a qualquer horário? Ou simplesmente está muito ocupado e quer ser lembrado de um e-mail daqui a uma semana? O Boomerang te deixa agendar os seus e-mails para quando você achar melhor, devolve conversas para a caixa de entrada dependendo de condicionais (se a pessoa não recebeu, não abriu ou não clicou), agenda e-mails recorrentes e dá recibo de leitura. Mas, fique atento, depois de instalar a ferramenta, ela fica “escondidinha” no pé da página.

escolha as condicionais
escolha as condicionais
agora escolha quando você quer enviar
agora escolha quando você quer enviar

 

Double check

Se o seu chefe e o seu melhor amigo têm nomes bem parecidos, não custa nada checar o destinatário duas vezes, né? O Sendkeeper é uma extensão para o Google Chrome bem simples e prática que, antes de enviar um e-mail, te pergunta se é pra essa pessoa mesmo que você quer escrever ou para outras com nome, e-mail ou sobrenome parecidos.

 

Bola de cristal

O Crystal é outra extensão de Chrome que faz o Gmail parecer uma bola de cristal, sem brincadeira. Quando você escreve um e-mail, aparece do lado do botão “Enviar” um botão verde do Crystal. Depois que ele identifica o destinatário, o botão verde te diz como escrever o e-mail para aquela pessoa específica. Sério. Ele diz: “seja conciso”, “encurte o e-mail”, “seja criativo”. O Crystal só tem um defeito: depois de duas semanas de uso você tem que assinar o serviço mensalmente.

Mulher 3.0, o primeiro curso do Ada!

 

mulher 3.0

Senhoras e senhoritas, é com imensa satisfação que anunciamos o primeiro curso do Ada, o Mulher 3.0, em parceria com a Kind. A Diana e a nossa parceira Marina Malta vão ensinar como usar a Internet e a tecnologia para fazer seu dia-a-dia mais produtivo. Entre os temas: novas ferramentas, o que é essa tal de nuvem, segurança de informação, o que compartilhar nas redes sociais e muito mais. Veja a programação abaixo:

1-  Internet como contexto: muito além do Facebook
2- Por que é importante entender como funcionamos dentro da internet?
3- Como tornar o novo, parte do nosso dia-a-dia, sem pânico nem preconceito
4-  Tecnologias que trabalham a nosso favor
5- Organização e produtividade: Evernote, Trello, Asana, AnyDo e gerenciadores de tarefas
6- A nossa amiga nuvem: agenda, senhas, iCloud, Google Drive, Dropbox, sync e transparência entre dispositivos.
7- Personas digitais: o que compartilhamos?
8 – Histórias que contamos: quais os limites entre público e privado?

O curso vai acontecer nos dias 22 e 29 de junho (duas segunda-feiras), das 19h às 22horas, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O valor total é 500 reais.

Leitora do Ada tem 10% de desconto no pagamento à vista! Basta escrever para contato@akind.com.br com o assunto do email: Vi no ADA! e pronto.

E se você tem interesse em levar nosso curso para a sua cidade, escreva para a gente no adavcbr@gmail.com. Bora distribuir o amor pela tecnologia Brasil afora!

5 aplicativos brasileiros que vão te surpreender

Nem só de aplicativos gringos vivem os nossos smartphones. Separamos 5 apps nacionais dignos de lista (e o 99Táxis não é um deles 😉 ): de controle de finanças a plataforma de reclamações urbanas, estes são os queridinhos que a gente já não vive sem.


Organizze

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Bonito, prático e com um monte de funcionalidades, esse gestor de finanças é um dos mais legais que testamos nessa categoria. Além de acompanhar todas as suas transações financeiras, você pode criar metas para cada tipo de entradas e saídas, enxergar os gastos do mês através de gráficos lindos, sincronizar várias contas bancárias e cartões de crédito, visualizar parcelamentos e contas recorrentes. O ponto forte é a usabilidade: simples e rápido.

Para iPhoneAndroid e versão web. (GRATUITO)

 

 

Onde Parar

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Baita mão na roda: a partir da sua localização ou um endereço, o app te indica quais são os estacionamentos mais próximos. Além do preço médio de cada um deles (que você vê no próprio mapa <3), o app indica quais são os serviços adicionais, como convênio com seguradoras ou lava-rápido. Os filtros são ótimos e é facinho de usar. Também funciona para ciclistas que buscam bicicletários e para quem quiser publicar a sua garagem residencial e emprestá-la para alguém.

Para iPhoneAndroid e versão web. (GRATUITO)

 

 

Colab.re

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Já falamos dele na nossa lista de aplicativos urbanos para curtir e cuidar da sua cidade, mas este vale repetir. Nele você pode fiscalizar (inclusive através de fotos) problemas como buracos em ruas, calçadas em pésimo estado ou iluminação pública queimada. Ele também deixa propor soluções e avaliar entidades e instituições públicas. Os criadores do app se responsabilizam por enviar todas as publicações para as prefeituras e de encaminhar as respostas recebidas de volta aos usuários que alimentam o sistema. Já foi eleito o melhor aplicativo urbano do mundo. Vai Brasil \o/

Para iPhone e Android. (GRATUITO)

 

 

Mandic Magic

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Já mencionamos um app semelhante por aqui, o 4sqwifi, mas o Mandic é brasileiro e igualmente bom. Sabe aquele momento em que você precisa desesperamente de um wifi? Pois bem, tá aqui a salvação. Você se loga com a sua conta de Facebook, então o app identifica a sua localização e te indica cafés, bares, restaurantes, livrarias, padarias e vários outros tipos de estabelecimento com wifi. Ah sim, te dá a senha de todos. A única parte chata são os anúncios.

Para iPhone e Android. (GRATUITO)

 

WakeApp

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Este é um alarme despertador perfeito pra quem curte dormir mais 5 minutinhos nos dias de chuva. Você pode programá-lo para te acordar (ou não) dependendo de duas informações: as atividades que você agendou para a manhã seguinte e o clima que estará lá fora. Se amanhã for o seu dia de corrida no parque e estiver caindo um pé d’água, ele vai te deixar dormir um pouco mais. Se o sábado amanhecer lindo com céu azul, ele tomará a liberdade de te acordar meia horinha antes para fazer o dia render. Simpático, não?

Para iPhone. (GRATUITO)

 

Você curte algum outro app brasileiro que não está nessa lista? Conta pra gente no nosso Facebook ou Instagram 😉

 

Jean Jullien: o #sincerão da Internet

Jean Jullien é um designer gráfico francês bem-humorado e viciado em Internet. As suas ilustrações são leves e satíricas, de uma simplicidade incrível. Ele retrata os nossos excessos, manias e obsessões digitais de um jeito interessante. Ficamos com aquela inevitável sensação de “quem nunca“. E vocês?